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Delito de Opinião

Convidada: LAURA AVELAR FERREIRA

Pedro Correia, 12.02.18

 

One from the heart

(ou a paixão materializada em cinema)

 

O cinema cresceu comigo, como um familiar chegado e imprescindível: deu-me a mão, ainda a minha mão era pequena e mal sabia falar.

Embalou-me adormeceres, escoltou-me em paradigmas, escolhas e decisões e ajudou-me a esboçar, com inequivoca distinção, uma exaltação ardente e longa, que nunca se cansa e nunca se arrepende.

O cinema povoou a minha vida de momentos nos quais o tempo se escoava, vagarosa e languidamente como num qualquer plano apertado de um filme europeu.

O cinema beliscou-me, arremessou-me contra o bonito, despertou-me quase tudo o que hoje sei e materializou-se em (quase) tudo, à minha volta: nas ruas ondulantes e apertadas do meu Porto e na maré vaza dos entardeceres das férias intermináveis da adolescência; nas viagens de carro com a vida lá fora, a passar veloz; nas portas dos elevadores que se fecham e deixam entrever qualquer coisa que podia ter sido e não foi; nos caminhares poéticos de algumas mulheres; na música do silêncio de alguns planos de uma viagem a Paris; nas gotas de chuva que correm, com vida própria, nos vidros e… nuns olhos resgatados, por acaso, num qualquer fim de tarde, num qualquer retrovisor.

 

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 Les Uns et les Autres, de Claude Lelouch (1981)

 

Nas músicas dos filmes que a minha mãe trauteava e nas músicas dos filmes que o meu pai fazia tocar, primeiro nos cartuchos e depois nos LPs: “Música no coração”, “Lawrence da Arábia”, “Les uns et les autres”, “Os sete magníficos”, “E tudo o vento levou”, “The bang wagon”, “Gilda”, “Esplendor na relva”, e tantos, tantos outros.

O cinema também me levou pelo caminho da rendição absoluta às mulheres bonitas. Ensinou-me a gostar de pontos de luz espalhados pela casa, de genéricos feitos antes de jantares, do risco preto de eye-liner nos olhos e de um baton rubro e mate, numa boca entreaberta.

Cresci, pois, com musicais, policiais, canções imortais, vestidos esvoaçantes e coreografias da Broadway. Lembro-me, em miúda, de fazer o rol de tudo aquilo que um dia gostaria de ter: o cabelo da Gilda, a voz sensual da Lauren, o decote da Sofia Loren e a beleza imaculada da Marilyn; a tez branca da Jean Harlow, o mistério gracioso da Lana Turner e a elegância indistinta da Audrey Hepburn; o corpo da Cyd Charisse, a musicalidade da Julie e a irreverência e a sensualidade precoces da Natalie Wood.

E, à minha maneira, filmava, realizava e interpretava: fumava palitos para imitar a Lauren Bacall e cantava para os espanadores do pó o “My favorite Things”.

Deitava-me na alcatifa do chão da sala e imaginava conversas com o Warren Beatty. Via-me dentro do Vertigo ou a fugir de pássaros e via-me dentro de um filme noir a esconder-me da sombra de um assassino.

Via-me agarrada à cintura do Charlton Heston numa corrida desenfreada de cavalos ou debaixo do guarda-chuva do Gene Kelly e beijava, apaixonadamente, as paredes da sala ou do quarto, à procura da boca do Cary Grant.

 

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 One From the Heart, de Francis Ford Coppola (1982)

 

Estes resquícios moram em mim como a idade ou as rugas de expressão. Ainda hoje sei de cor frases, respirações, pausas dramáticas e cores.

Sei o quanto sinto na pele o azul do “Bonjour Tristesse” ou o quanto me toca a música do “One from the Heart”. O calor absurdo do “Body Heat” e a magnificiência do Rutger Hauer, no final do “Blade Runner”. Sinto como se fosse minha a terra, de Tara, que a Scarlett o’Hara segura numa das mãos e sei de cor o cheiro da pele do Capitão Von Trapp.

Hoje já não ponho toalhas na cabeça para fazer de conta que tenho o cabelo comprido ou fumo palitos a imaginar que são cigarros.

Mas ainda me imagino, muitas vezes, a correr na erva fresca de uma qualquer montanha da Áustria e adivinho, entre cordas e pássaros, uma câmara de filmar, colossal e veloz, a aproximar-se de mim, num plano picado, como se fosse um pássaro e sei… sei que a deixa é minha.

Sei o tom, a roupa, os braços abertos, o vento a bater-me no rosto e o som, o som da música e do (meu) amor.

Cresci, de facto, com o cinema na minha vida. E tenho, na privacidade dela, um bocadinho de todas estas coisas – flmes, mulheres, música, planos, luz, fotografia, genéricos - e todos os bocadinhos de cinema que elas me ensinaram. Para toda a vida.

 

 

Laura Avelar Ferreira

(blogue O SÍTIO DAS PEQUENAS COISAS)

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