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Convidada: ISABEL PIRES

por Pedro Correia, em 20.12.17

 

Do histórico pessoal nas relações tardias

 

Desde há umas décadas que é relativamente comum encetar-se relacionamentos amorosos a partir dos quarenta anos de idade, adoptando-se vários modelos.

Naturalmente, há maior preocupação e cuidado em definir como se vão estruturar perante a condição de existirem filhos de uma parte ou de ambas, assim como face às especificidades associadas a novos padrões de organização do trabalho.

Pelo facto de estas circunstâncias e outras semelhantes terem uma face mais concreta, visível e pública, e também por fazerem parte dos deveres, normalmente encontram-se soluções que não afectam de forma significativa a nova relação. Há como que um encaixe natural que decorre de algo que está num plano superior envolvido pela obrigação e por isso podem estar mais defendidas de conflitos.

 

Com a bagagem das relações interpessoais até aí mantidas, nomeadamente com as amizades, algumas de décadas, já não é tanto assim. Não raro, de ambos os lados surgem tensões relativas ao modo como essas ligações se expressam e concretizam, quer quando se mantém o figurino até aí adoptado, quer quando se altera.

 

E são os encontros com os amigos do sexo oposto (falo do modelo heterossexual pelo facto de ser o mais comum) que suscitam dúvidas e conflitos. Dúvidas até nos dois elementos.

Num, essas dúvidas é sobre o contar ou o não falar; sobre a necessidade de o fazer e sobre a continuidade, que receia não ser bem interpretada pelo parceiro. Ao mesmo tempo que navega numa sensação de perda relevante de património afectivo individual.

No outro, as dúvidas têm que ver com o medo de perda advinda da dificuldade de compreender e aceitar que não é o eixo exclusivo dos afectos para além da família de sangue.

 

thumbnail_Henri%20Cartier-Bresson[1].jpg

 Foto de Henri Cartier-Bresson

 

Do que se conhece acerca dos assuntos que costumam ser conversados num qualquer ponto inicial da relação, este trilho não consta como frequente, até porque, afirma-se, o estado de paixão ou arrebatamento tem tendência a ofuscar ou a toldar as linhas com que se cosem os dias.

 

Esta questão - ao que fazer e como fazer à bagagem afectiva que se construiu e que fez, e faz, aquela pessoa ser assim - quando entra uma nova pessoa para partilha íntima? Não havendo respostas iguais, adivinha-se contudo a importância de desenvolver a plasticidade interpretativa e a possibilidade de acolher modelos diferentes dos esperados quando se tinha vinte ou trinta anos.

O envelhecer, ou melhor, o envelhecer bem não será também isto: integrar bem, de forma satisfatória, o que vem de trás?

 

Entre os opostos de vida de solteiro em que a vivência das amizades é mais desregrada e uma vida em comum que se esvazia dos amigos que cada um tinha, existem soluções intermédias mais satisfatórias em termos do equilíbrio individual que importa preservar, mas que ainda esbarram com muitas dificuldades associadas ao sentimento de posse e ao entendimento do que é a exclusividade.

 

 

Isabel Pires

(blogue NASCER NA PRAIA)

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2 comentários

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De Pedro Correia a 20.12.2017 às 17:17

Obrigado pela visita, Isabel. E pelo interessante texto.
Feliz Natal.
Sem imagem de perfil

De Isabel Pires a 21.12.2017 às 09:08

Obrigada pelo convite, Pedro.
Festas felizes.

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