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Convidada: INÊS LOPES

por Pedro Correia, em 16.03.18

 

Em defesa das livrarias de rua

 

Nas últimas semanas têm-se multiplicado as notícias sobre o fecho de livrarias independentes, como a Pó dos Livros, em Lisboa, a livraria Leitura, no Porto e a Miguel de Carvalho, na cidade de Coimbra. Se não é segredo para ninguém que estas livrarias não têm como competir com grandes livrarias como a fnac e a Bertrand, também é certo que nos últimos anos têm ganhado ainda mais concorrência, com a venda de livros em hipermercados, as vendas online em sites como a wook e até os livros em segunda mão à venda no olx e na bibliofeira. Também é difícil não associar a estas livrarias o caso da Lello que, apesar de ser uma das livrarias mais visitadas do país, optou por criar uma taxa de entrada para continuar de porta aberta.

Para quem gosta destas livrarias, há uma cultura que se está a perder e que vai muito além dos livros. Quando vivia em Benfica, descia todos os dias a Avenida do Uruguai e espreitava a montra da livraria Ulmeiro (que fechou no final do ano passado). Quando ia à baixa passava invariavelmente na livraria Aillaud e Lellos na rua do Carmo (que fechou em Janeiro). E quantas vezes lá comprei livros? Muito poucas, para ser sincera. Porque é mais barato aproveitar as promoções dos grandes espaços e mais cómodo comprar os livros online.

O que me leva a crer que ter pena que estas livrarias fechem não chega, escrever este texto também não chega. Se queremos continuar a ter espaços que se dedicam exclusivamente aos livros e que permanecem inalterados com o passar dos anos, onde encontramos livros que já não estão à venda, onde podemos pedir opiniões sinceras, ou simplesmente percorrer as estantes, entre o cheiro de livros novos e velhos, organizados de forma independente, e não a favor das tabelas de venda, então temos de fazer um esforço para entrar mais vezes nas livrarias de rua e sair de lá com um livro na mão.

 

Inês Lopes

(blogue MAR DE MAIO)

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12 comentários

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De Luís Lavoura a 16.03.2018 às 11:48

temos de fazer um esforço para entrar mais vezes nas livrarias de rua e sair de lá com um livro na mão

Ora muito bem, excelente e muito correta conclusão. Há muita gente que quer que haja coisas mas não quer gastar dinheiro nelas. A Inês tira a correta conclusão de que, se queremos ter as coisas, temos que estar preparados para consumir delas, pagá-las.

é mais cómodo comprar os livros online

Eu continuo a não entender a comodidade de tal coisa. Eu, pelo contrário, gosto de ir a uma livraria ver as novidades, folheá-las, conversar com os empregados, pedir-lhes a opinião, e no fim comprar, pelo prazer imediato da compra. Acho que comprar online não tem graça nenhuma e ainda por cima é incómodo, porque quando o livro chega tem que se ir buscá-lo à estação de correios porque nunca ninguém está em casa para o receber. Não consigo mesmo entender qual é a comodidade de fazer compras online. Além disso, como não vemos concretamente aquilo que estamos a comprar, a probabilidade de fazer erros (e de depois ter de os corrigir) é muitíssimo maior.
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De Teresa Ribeiro a 16.03.2018 às 11:51

Toda a razão. Civismo também é isto.
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De Vlad, o Emborcador a 16.03.2018 às 12:32

Não querendo parecer do contra lembro-me, durante os anos em que vivi em Lisboa, de não raramente ter sido "olhado de lado " quando entrava nas "finas " livrarias ,ditas de referência, em virtude, presumo, do meu ar de efebo ou da maneira mais negra da minha farda e da minha bolsa.

Quando pedia informações sobre livros de "culto" estas eram tiradas a ferros ou respondidas num indiferente : "Não conheço ". Siga viagem.

O Amor aos livros, onde se reuniam autênticos clubes de combate literários, conheci-os nos Alfarrabistas "manhosos" daquela rua que sobe até à Misericórdia, paralela, numa parte do trajeto, a uma das entradas da Estação do Rossio. Cheia de escadinhas.....perto de um Peep Show...como se chamava?...o dono era um jovem que ,julgo eu , trabalhava em Desenho Técnico para a Câmara, seria assim?
No meio de um arsenal de livros e de garrafas de Sagres gesticulava-se em torno de um qualquer livro/autor: um comuna....um merdas. . ..Dostoiévski era um parricida....Tolstoy mamava da mulher....e outras do mesmo calibre

Lembro-me ainda de um velho alfarrabista , numa rua, lá próxima, junto ao Quartel do Carmo , que aos 70 e tais anos aprendia hebreu para ler um qualquer livro cujo título já não me recordo....perguntava-lhe por Schopenhauer, Kant, História de Arte... o homem sabia de tudo...

O atendimento na FNAC costuma ser simpático e atencioso embora por vezes demorado.

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De António a 16.03.2018 às 14:46

Comparei agora mesmo dois livros populares, “Fifty Shades Of Grey”, 17,70€ na FNAC, 5,90€ na Amazon. “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, 14,90€ na FNAC, 4,98€ na Amazon. Nem é a FNAC o “inimigo”. Quem comprar estes 2 livros na FNAC gasta 21,72€ a mais.
O problema não se resume aos livros, mas se fosse só esse o problema menos mal - seguindo uma dica aqui mesmo do DdO comprei os 10 livros de Iain Banks, da série “Culture” (estou a gostar muito, agradeço a dica) por cerca de 50€, todos. Na FNAC têm alguns - em inglês - pelo triplo do preço. E simplesmente há muito livros não editados em português.
Mesmo assim, 100€ a mais é um preço alto pelo civismo, partindo do princípio que nas livrarias de rua não seriam mais caros.
Se as FNACs são um problema para as livrarias de rua, a FNAC tem também um grave problema com a Amazon, e esta então é intransponível para as livrarias de rua.
Parece-me óbvio que se houver muita barulheira sobre o assunto, este governo “resolve” o problema com mais taxas e taxinhas sobre as compras na Amazon, tornando os preços proibitivos. E as editoras, e livrarias de rua, em sinal de agradecimento, sobem os preços. É ver o caso dos manuais escolares. Quando não há escolha o consumidor lixa-se sempre. Sempre.
Se a “solução” me for ao bolso, que se lixem as livrarias de rua. O dinheiro custa a ganhar. Perdoem-me a falta de civismo, o Estado leva-mo todo.
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De João Campos a 17.03.2018 às 12:02

Também diria que a questão passa mais pelos preços que se encontram online do que pela comodidade (já que receber ou levantar encomendas pode de facto envolver alguma logística, sobretudo quando os CTT estão envolvidos). Em boa parte dos casos, não falamos na diferença de um ou dois euros, mas de euros suficientes para... comprar um segundo livro.
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De António a 17.03.2018 às 18:02

No caso de Iain Banks pelo preço de 1 na FNAC compra 3 na Amazon. Como os da FNAC também vêm em inglês nem podem alegar que foi por pagar ao tradutor.
Na minha zona a Amazon trabalha com a Seur, que avisa na véspera quando vai fazer a entrega, e confirma no próprio dia, e dá mais ou menos a hora certa. E têm o meu contacto, se estou ausente e não há ninguém para receber agendamos logo uma alternativa.
A FNAC trabalha com os CTT. Isto dava uma conversa interessante. É que já sucedeu fazer encomendas simultâneas à FNAC e Amazon inglesa, e receber a da Amazon primeiro. Os portes são muito idênticos, e acontece frequentemente com os CTT nem baterem à porta - vou saír e vejo no correio um aviso para ir ao posto levantar a encomenda porque “não atendi”. A minha campainha ouve-se quase no bairro todo e às vezes estão 3 ou 4 pessoas em casa à hora a que alegam ter tentado entregar. Tenho de ir ao posto - no dia seguinte - onde não há lugar para estacionar, e passar uma hora à espera, isto se tiver só 5 ou 6 pessoas à frente. O posto tem 8 balcões mas nunca os vi todos a funcionar ao mesmo tempo.
Isto leva a outro tema, os cartazes do Bloco de Esquerda a reclamar a nacionalização dos CTT com o lema “Serviço Público, Serviço de Qualidade”. Além de nenhum serviço público ser de qualidade (fisco, câmaras, centros de saúde, hospitais, escolas) os CTT conseguiam ainda ser piores quando eram públicos.
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De Pedro Correia a 16.03.2018 às 15:08

Obrigado pela visita, Inês. Sobre um tema que várias vezes também tenho abordado aqui. A lamúria muito portuguesa de lamentar os cinemas que encerram, as livrarias que fecham, os jornais que vão à falência. Por parte de pessoas que há anos não põem um pé num cinema, jamais frequentaram livrarias e são incapazes de comprar um jornal.
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De Maria Dulce Fernandes a 16.03.2018 às 16:21

Faz-me lembrar tardes estupendas passadas na Bertrand do Chiado, enquanto esperava que a minha mãe comprasse os tecidos e os aviamentos com os quais as suas mãos faziam sempre magia...
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De Luís Lavoura a 16.03.2018 às 16:48

E a propósito deste post, hoje mesmo passei pela Livraria Tigre de Papel (na rua de Arroios, em Lisboa), folheei uns livros e comprei dois (embora baratuchos). Já dei a minha contribuição para a causa.
(A livraria em questão é muito recomendável e encontra-se lá coisas que certamente no online não estão à venda.)
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De Beatriz Santos a 16.03.2018 às 17:06

Quem tem dinheiro curto pode lamentar o fecho das livrarias de rua, mas, se quer ler sem ser nos livros da biblioteca pública, tem de procurar o mais barato. Tenho pena da Pó dos Livros, a única livraria que conheço e onde havia assim um ambiente e movimento cultural com apresentações de livros, cursos de literatura e outras actividades que reputo culturais. Talvez os proprietários de livrarias tenham boa conversa, talvez saibam muito sobre os autores que vendem...mas eu gosto de escolher, de ler uns bocadinhos, de tirar um ou outro livro e verificar se me interessa. E gosto que me digam onde está a obra que procuro quando vou apressada e sei o que quero. Tudo isto encontro na FNAC.
Porém, é verdade que todos os anos passo na Feira do Livro pela Alfaguara que tem umas meninas que já leram as novidades e nos conquistam com os encómios. São uma delícia, aquelas garotas. Por vezes, quase sempre, convencem-me. Ainda não me arrependi:).
O prazer de ter verba para comprar um ou dois livros e ir escolhê-los, ou já os levar escolhidos e folhear outros que não se podem trazer mas também são forma do nosso pé...não há wook que pague.
BFS
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De Anónimo a 16.03.2018 às 18:15

Por certo, o cheiro dos livros.
Ė uma pena, romântica pena assistir aos finados de uma livraria.
Mas se uma imaginada - não real - livraria tinha um atendimento distante, uma soberba intelectual que assustava um incauto amante potencial comprador de um livro; se se tentava uma encomenda e ficava esquecida, e se lembrada a falta , a frieza da resposta esfriava ainda mais a vontade de entrar, ver, acariciar e eventualmente comprar; se o entrar, mexer, tentar abrir um livro, era quase uma ofença corporal, então a livraria não fica saudosa,fica mais uma, finada.
Venham daí boas livrarias de bairro, de esquinas, de impasses, do que seja, e que nos arrebatem. E se forem inteligentes na oferta e sedutoras no enamiramento, poderão continuar a pagar as contas erendas.
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De Fatima MP a 16.03.2018 às 22:06

Livros, amor táctil. Objectos transcendentes.
Livros, livrarias, expansão do Universo.

Livros, Caetano Veloso

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras

Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas

(Letra da música "Livros")

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