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Convidada: BEATRIZ ALCOBIA

por Pedro Correia, em 11.12.17

 

Acerca da eutanásia

  

O Presidente da República pediu, há dias, a participação de todos os portugueses no debate sobre a eutanásia. Pessoalmente sou a favor do direito à eutanásia, mediante regulação de ponderação. 

Nenhum argumento contra a eutanásia me parece poder, legitimamente, sobrepor-se, de modo razoável, ao direito fundamental da pessoa decidir do seu destino, o que implica decidir da vida do seu corpo biológico, dentro do qual se passa a nossa existência neste mundo. 

Negar a eutanásia é legitimar a privação de liberdade, é apoiar a ideia de se poder condenar uma pessoa, já em sofrimento, a uma pena de prisão, sendo que a solitária é o seu próprio corpo, para apaziguar as consciências dos outros. Parece-me um egoísmo muito grande.

O argumento do possível arrependimento futuro da pessoa não é razoável porque a pessoa que decidiu pedir a eutanásia já lidou com a ideia de arrependimento na ponderação.

O argumento de manter a pessoa viva por conta de uma possível, embora improvável, cura, não é razoável porque a pessoa que decidiu pedir a eutanásia já lidou com a ideia dessa possível cura na ponderação.

O argumento da religião não é razoável porque ninguém tem que ser obrigado a viver pelos preceitos religiosos alheios.

O argumento de que a medicina serve para curar e não para matar não é razoável pois a medicina também serve para aliviar o sofrimento e ajudar e, de qualquer modo, a pessoa já está em estado de estar perto da morte ou em situação de não poder melhorar a sua condição de saúde e querer morrer com a sua ideia de dignidade, de modo que o médico não vai matá-la, vai permitir que a pessoa encerre a sua vida como decidiu, com alguma dignidade.

O argumento do erro de diagnóstico também não é razoável pois os diagnósticos, em casos graves, confirmam-se e infirmam-se. Não é como se uma pessoa fosse diagnosticada com uma doença grave e sem nenhuma confirmação, passada uma semana estivesse a ser eutanasiada.

O único argumento que me parece razoável, mas inconsistente, é o argumento da derrapagem. A despenalização da eutanásia levar a uma desregulação e a uma banalização da prática, como acontece na Holanda onde os idosos são pressionados a pedir a eutanásia para os hospitais rentabilizarem camas e onde o pessoal médico cada vez pratica mais eutanásias porque o hábito banalizou o acto. 

Penso que o argumento não é consistente pois podemos, sobretudo sabendo do exemplo da Holanda, regular o acto com prudência: deixar legislado quem, como e quando pode praticar a eutanásia e quais as precauções obrigatórias, nomeadamente, confirmar diagnósticos, garantir que a pessoa que pede a eutanásia ponderou a decisão, decidir o teatro do próprio acto de modo a garantir-lhe dignidade, deixar ao pessoal médico o direito de objecção de consciência, etc.

Não me parece razoável impedir o direito das pessoas à autodeterminação com o argumento de que dá muito trabalho regular o acto de modo a evitar abusos.

 

 

Beatriz Alcobia

(blogue IP)

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23 comentários

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De Luís Lavoura a 11.12.2017 às 11:39

Muito bem. De acordo.
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De pitteti a 15.12.2017 às 13:36

Quero sr o primeiro a matar quer Beatriz Alcobia quer Correia.
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De Pedro Correia a 15.12.2017 às 13:40

Vai-te catar. Tens muitas pulgas para matar. E alguns piolhos também.
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De Anónimo a 11.12.2017 às 11:41

Copiado de algures.... (tendo como contexto o facto da Holanda já ter autorizado a eutanásia a certas pessoas com doenças mentais, como a
demência, após considerarem terem um sofrimento insuportável)

"Quem é que definiu o que é «sofrimento insuportável» de uma pessoa com
demência? Aqui eu estou a vontade para falar pois a minha mãe morreu há pouco mais de um ano e padecia da doença de alzheimer. Diagnosticada em 2002/2003, viveu até 2016. Se viveu em plena felicidade? Não posso afirmar tal. Mas também nós não vivemos sempre em plena felicidade. Por outro lado, fizemos de tudo para que pudesse ter a melhor qualidade de vida. E teve momentos felizes, apesar da evolução da doença. E se alguém esteve próximo de «sofrimento insuportável», não foi a minha mãe, fomos nós, os familiares dela, que vivemos com ela e dela cuidamos. É de uma profunda crueldade eu considerar o outro apto a morrer porque me provoca sofrimento. E aqui, testemunho eu próprio, que viver na dimensão da cruz é possível. Vi na minha vida e vi na vida daqueles que dela cuidarem com zelo e amor. Claro que com sofrimentos. E com dificuldades. Mas é possível viver com isso. E quando ela morreu, apesar do sofrimento humano que isso provocou, havia um sentimento de plenitude, de paz.

Como é que eu posso estar a favor do suicídio assistido a uma pessoa com demência? E não estamos longe disso. É aterrador saber que alguém, externo a mim, me possa considerar elegível para morrer, porque eu já não cumpro, ou melhor, já não me enquadro no conceito de «bem estar» que a sociedade regulou em legislação."

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De beatriz j a a 11.12.2017 às 14:24

Copiado de lado nenhum. Escrevo por mim própria.
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De Anónimo a 11.12.2017 às 15:28

"Copiado de algures...." referia-me ao comentário que escrevi, não ao seu artigo. Foi uma menção ao que depois coloquei entre aspas. Desculpe o mal entendido.
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De beatriz j a a 11.12.2017 às 17:02

Ahh. Desculpe a má interpretação.
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De Luís Lavoura a 11.12.2017 às 11:42

ninguém tem que ser obrigado a viver pelos preceitos religiosos alheios

Na prática isto é difícil. Por exemplo, se você viver numa sociedade islâmica, dificilmente pode comer carne de porco, porque não a encontra à venda. Em Portugal, os ateus são forçados a seguir os feriados religiosos católicos. E assim por diante.
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De Psicogata a 11.12.2017 às 14:03

Obrigados a seguir os feriados religiosos? A seguir não, a tirar o que deve ser um grande incómodo, ou por acaso algum ateu é obrigado a ir às cerimónias religiosas para usufruir do dia?
Se somos um Estado laico não deveríamos ter feriados religiosos, sou totalmente de acordo, agora dizer que as pessoas são obrigadas a seguir os Dias Santos é um exagero.
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De beatriz j a a 11.12.2017 às 14:27

Isso é verdade, Luís Lavoura mas nós, em Portugal, vivemos numa sociedade democrática, não teocrática e ditatorial.
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De Vlad, o Emborcador a 12.12.2017 às 08:30

Até a semana de 7 dias é católica. E a monogamia....e a interdição do incesto.....
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De Pedro Correia a 11.12.2017 às 13:32

Obrigado pela visita, Beatriz. Votos de muito sucesso para o seu IP.
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De beatriz j a a 11.12.2017 às 14:28

Obrigada, eu.
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De Cristina Ferreira a 11.12.2017 às 14:27

Sim, é sempre uma questão complexa... Mas também sou a favor: quando a vida já não é vida, já não vale a pena ser vivida...
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De Anónimo a 11.12.2017 às 14:56

Há aqui qualquer coisa que me escapa : "os alemães" tiveram "razão" antes de tempo?...
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De Vlad, o Emborcador a 12.12.2017 às 08:31

Talvez os americanos e ingleses tenham precedido os alemães
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De Anónimo a 11.12.2017 às 16:36

É o que penso também
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De Beatriz Santos a 11.12.2017 às 18:30

Sou a favor da eutanásia porque o sofrimento extremo e sem proveito a que algumas doenças confinam o doente é muito mais que estar fechado em solitária, é mesmo inexprimível e incomparável. E por me parecer que a morte é, nesses casos, um acto de misericórdia a que qualquer ser humano tem direito.
Desconhecia o caso dos médicos holandeses. É caricato que alguém seja pressionado a decidir-se pela eutanásia. Se é uma liberdade individual que se requer para casos extremos e devidamente sinalizados, deixa de o ser quando funciona sob pressão de outrém. E não me parece coisa assim tão difícil de ser regulada e legislada..
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De Cristina M. a 11.12.2017 às 19:15

a pretensa necessidade de um referendo é uma espécie de incapacidade na decisão, um "lavar as mãos" com o seu quê de cobardia.
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De Luís Lavoura a 12.12.2017 às 10:00

não sejas pusilânime quando tiveres que julgar, diz o livro de Eclesiastes.
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De Luís Lavoura a 12.12.2017 às 10:04

A política portuguesa está organizada em torno da unanimidade partidária e do voto maciço de cada partido de uma determinada forma. Os partidos políticos convivem mal, ou não convivem de todo, com os seus deputados votarem de forma diferente (uns a favor e outros contra). Isto é particularmente no caso do PSD que, por ser um partido sem ideologia (tem umas pessoas sociais-democratas, outras conservadoras, e outras liberais), se divide no caso das questões ditas "fraturantes". Para evitar que o partido se divida, o PSD "chuta para canto", como se diz no futebol, ou seja, sugere um referendo. É uma reação reflexa de autodefesa do PSD.
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De Rão Arques a 11.12.2017 às 22:47

"O presidente da República pediu". Tenho andado a matutar no "Giló" do "Roque Santeiro" revisitado. Agora temos o nosso, que de tão parecido até o Fernando que vai a todas foi destronado.

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