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Convidada: ALEXANDRA G.

por Pedro Correia, em 26.09.17

 

A pauta, as pautas

 

As ligações de sangue, outrora, como agora, constituem ainda a maior, não necessariamente a melhor, de todas as pautas, que é de relações humanas que aqui se trata. Crescemos com bases de referência, algumas das quais perdurarão para sempre, mesmo que manchadas por episódios de falta de diálogo, de tolerância, de excesso de exigência. Existe a solidez, a liquidez e a parte gasosa, aquela que cedo aprendemos a remeter ao limbo por, definitivamente, se ter cedo revelado o zero absoluto (uma pedra sem a forma de coração baleia ou nuvem ou aquela prima, enfim, diferença alguma).

Depois, crescemos, etc., vocês sabem, o mundo todo começa a envolver-nos, mas desse mundo não estão excluídas as relações de sangue, não todas. Tem início o prazer de reconhecermos com clareza que existe a empatia, as afinidades, mais ou menos cultivadas, regadas ou não, diariamente, mas que persistem, as irritações, nem sempre capazmente explicadas (era o que faltava, ter que explicar tudo!), a indiferença, a percepção das traições, mas quase sempre optamos pelo afastamento, a excessiva generosidade de alguém que, afinal, quer retirar-te tudo para que, esvaziado, olhes naquela direcção, onde tudo se assemelha à traição, ao roubo perpetrado com falta de requinte.

Um dia, tens então/também aquele tio crente, um tio referência durante toda a tua infância, o tio dos chocolates suíços, que gasta € 3,000.00 numa campa de granito, onde a infância das flores é colocada todas as semanas, colorida, sobre as raízes de osso da tia, sabendo tu que se enamorou por um anjo loiro com menos três décadas que ele, que se torna naquilo que sempre foi, o gabarolas de serviço, agora com vestígios alarmantes de Parkinson, mas ainda capaz de movimentar, pelo menos, a conta milionária, dando abrigo ao anjo loiro e tornando-a sua herdeira universal, coberta d’oiros, um guarda-roupa exuberante, uma altivez camuflada de amabilidade em figura de garrafas de vinho do Porto e um meio bolo caseiro, comprando-te a atenção, cativando-te como se foras o ramo de flores sobre a campa da tia Flor de Ossos.

A(s) pauta(s) que rege(m) as relações humanas evolui para auto, autos, coisa séria, dos mais diversos, quando sentes que uma pessoa, aos 85 anos, mesmo considerado todo o dever de respeito que lhe deves, e à sua liberdade, que a tem, se tornou no cachorrinho de abanar a tola colocado sobre o tampo do porta-bagagens do Ford Cortina da tua infância, lembras-te, aquelas idas à praia, os passeios à terra das tias velhas?, e sentes, não pena, mas desprezo, pelo ridículo inconsequente, o interior do porta-bagagens perdendo nas curvas o conteúdo, a música da tua infância transformada na queda rolante das memórias que nunca pensaste poder perder.

E começas a apreciar o silêncio.

 

 

Alexandra G.

(blogue IMPRECISÕES)

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7 comentários

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De Pedro Correia a 26.09.2017 às 19:11

Ora viva, Alexandra. Bem aparecida por cá!
("Apreciar o silêncio" parece hoje muito fora de moda...)
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De alexandra g. a 26.09.2017 às 21:37

Hum.

A haver passadeira, nada de rouge (pese embora todo o carinho que ainda sinto pelo poema do Cendrars): era mostarda, verde seco ou prata.

Já não se pode confiar em ninguém.

É que, vejamos, rouge, rouge! é o exacto oposto do silêncio (em passadeira, então, cousa à Ó!, olhem para mim e não, o texto não versava assim)

:P
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De Pedro Correia a 26.09.2017 às 21:46

Para a próxima arranja-se uma verde. E branca.
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De alexandra g. a 26.09.2017 às 21:53

A fé não é minha...
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De Maria Dulce Fernandes a 26.09.2017 às 22:21

O som do silêncio é de todos os sons o mais difícil de obter e de apreciar.
A mim diz-me tanta coisa.
Gostei do seu texto. Diz muito sobre a perda da inocência que ainda restava nas nossas memórias de infância.
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De alexandra g. a 26.09.2017 às 23:38

Diz mais, ainda, Maria Dulce, o silêncio.
Diz do ruído em volta, dos que nos querem obrigar a falar (logo aqueles, os que sempre nos apodaram de "matracas"), reivindicar, quando não temos nada a reinvindicar. A falar, concerteza, mas o silêncio fala mais alto, por vezes, e sim, funciona como uma preservação da memória, também :)
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De redonda a 29.09.2017 às 01:19

Gostei muito deste texto, pela forma como está escrito e pelo que me fez pensar, lembrar

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