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Delito de Opinião

Conversas em família

Maria Dulce Fernandes, 05.05.23

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Estava eu sentada a ler, saboreando do melhor modo que sei as últimas horas de folga, quando ela chegou com o avô. Veio enroscar-se no meu colo como habitualmente, sequiosa dos mimos e afagos que apenas as avós sabem fazer tão bem. Notei-a triste. “Então Neta, que cara mais macambúzia, passa-se alguma coisa? “O que é macambúzio, Avó? Tem a ver com mar?“ "Não, tem a ver com carinhas tristonhas como a que trazias quando entraste. Vá, conta-me tudo” "Sabes Avó, estou muito desapontada por não saber escrever no computador. Estive a praticar no fim de semana em casa e demorei mais de duas horas para escrever uma cópia de 10 linhas. Se não souber escrever, não posso fazer as Provas de Aferição, e se não fizer, não sei o que irá acontecer." “Provavelmente não acontecerá nada de grave, mas diz-me, quantos colegas na tua turma têm computador?” "Quatro. A Professora divide-nos em grupos de cinco alunos por computador, mas não conseguimos praticar nem aprender nada de jeito, Avó. Tenho tanto medo de chumbar.” "Olha que ideia mais peregrina, essa tua, Neta. Ouviste dizer isso onde?" "Todos os meus colegas falam nisso, Avó. No medo que têm de chumbar se não fizerem as Provas de Aferição no computador. Eu tenho sorte, porque a minha mãe deixa-me praticar no computador dela, mas muitos meninos não têm computador, em casa ou na escola para praticar. Eu gosto tanto da minha turma, Avó! Não gostava nada mesmo que algum deles chumbasse." “Não fiques preocupada, que ninguém vai chumbar por não fazer ou fazer mal as Provas de Aferição. Tudo se resolverá e todos os alunos continuarão a aprender normalmente.” "Então as provas não são importantes?" “Provas são sempre importantes e deve estar-se sempre bem preparado antes de as fazermos. Destas talvez algumas necessitem ser repensadas, mas não penses nisso agora. Prepara-te para as provas de Educação Artística. Mais tarde no mês veremos em que ficamos em termos de decisão final no que toca à utilização do computador. É boa ideia?" “É, sim”, respondeu conformada.

 

PS. A Neta concluiu hoje as Provas de Aferição na categoria de Educação Artística. Telefonou-me a contar que correram muito bem. Numa das provas, tinham de se imaginar a rastejar para entrar numa gruta onde estavam uma minhoca, uma aranha, um caracol, um morcego, um sapo cego e uma toupeira. Cada criança escolheu o animal que preferia, para mimetizar os movimentos e reproduzir-lhe os sons. Claro que aplaudi e incentivei o entusiasmo, mas fiquei a pensar para comigo. "Que raio… Um sapo cego, porquê? E que raio de som poderá emitir uma minhoca, uma aranha ou um caracol? Serão exemplos de inclusão?"

(Imagens Google)

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