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Conversa sobre Mosul em Moledo

por João Pedro Pimenta, em 23.08.17

É possível, numa noite de segunda-feira de nevoeiro, em Agosto, numa povoação balnear em que as pessoas estão sobretudo a pensar no dia seguinte de férias, nos viras que se tocam mais acima ou em conversas à volta da cerveja ou do whisky nocturno, levar um número apreciável de gente ouvir um testemunho de alguém que esteve nos locais mais deserdados deste Mundo - Afeganistão, Síria, RD Congo, Mosul? Absolutamente.

Gustavo Carona, anestesista no hospital Pedro Hispano de Matosinhos pertencente aos Médico sem Fronteiras, já com cinco missões em zonas particularmente difíceis, esteve recentemente em Mosul, na parte tomada ao Daesh, e parte em breve para a República Centro-Africana, deu o seu testemunho do que viu, do contacto que teve com populações atingidas por vários fogos e em situação crítica, e do que pensa sobre a guerra e as suas motivações, tanto de uns lados como de outros. A conferência (ou melhor, a tertúlia), teve lugar em Moledo, com a presença de Álvaro de Vasconcelos, conhecido especialista em assuntos internacionais, e apresentado por João Pimenta (Pai do escritor destas linhas). E desenrolou-se uma conversa e um testemunho sem cinismos - uma das grandes fatalidades desta nossa era, em que tanta gente tem medo de expor sentimentos ou de dar "parte de fraca" - mas também sem lamechices ou sentimentalismos bacocos. Objectiva, clara, realista, e por vezes tocante.

  A conferência também serviu para (re)apresentar o livro que coordenou, 1001 Cartas para Mosul, e a sua venda reverte para os Médicos Sem Fronteiras (cuja história e missão também explicou) e para a Plataforma de Apoio aos Refugiados. O livro, como o título indica, é composto de mil e uma mensagens - que nos remetem para as Mil e Uma Noites, também com origem no que é o actual Iraque - em português, inglês e árabe, destinadas à população daquela desgraçada cidade, totalmente destruída e parcialmente liberta, já que os sunitas residentes têm sofrido abusos às mãos das milícias xiitas, eles próprios também vítimas da violência sunita.

De qualquer forma, prova-se que em férias também é possível haver conversas sérias, objectivas, anti-cinismos, e que atraem assistências numerosas (não se fiem na fotografia).

 

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6 comentários

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De tric.Lebanon a 23.08.2017 às 15:51

nem uma palavrinha sobre as comunidade cristãs de Mossul!!!???
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De Luís Lavoura a 23.08.2017 às 16:39

Quando as forças sírias apoiadas pela aviação russa estavam a conquistar as partes de Alepo na posse dos radicais islâmicos, estes eram apoiados pelo Ocidente e nos media ingleses e franceses viam-se imensos artigos a lamentar a tristíssima sorte dos civis de Alepo, coitadinhos, a serem bombardeados e massacrados pelos malvados sírios e russos.
Agora as forças iraquianas apoiadas pela aviação americana conquistaram Mossul aos radicais islâmicos e vai-se a ver, a destruição efetuada, e o númeor de civis mortos, foram muitíssimo maiores do que aquano da conquista de Alepo. Mas nos meios de comunicação ingleses e franceses não se chorou nem um bocadinho. A história só é contada agora, pelos Médicos Sem Fronteiras, quando o massacre já está consumado.
E agora a cena está-se a repetir em Raqqa, na Síria, que está a ser conquistada com o apoio da aviação (e não só) americana e na qual, ao que se sabe, está a ser conduzido um massacre em toda a linha. Mais uma vez, nos media europeus não se pia sobre o assunto.
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De Vento a 23.08.2017 às 20:29

As coisas são assim, Luís, porque as pessoas gostam de romances. A verdade é algo que custa a engolir. Não tivessem os russos tomado a atitude firme que tomaram e ainda hoje nada teria sido feito em prol quer dos locais quer dos que estão fora. E não tivesse o Irão apoiado a luta contra o Daesh e hoje tudo estaria na mesma. Não tivessem os russos bloqueado a acção turca contra os curdos e tudo estaria na mesma.
A história sobre o terrorismo dito islâmico será um dia contada na sua versão crua e nua.
O mundo ocidental anda envolvido em contos da carochinha sobre as realidades globais.
A américa hoje já se vê na obrigação de voltar a reforçar efectivos no Afeganistão. Dizem que é para controlar o terrorismo. Mas afinal o que foi que andaram a fazer durante estes anos todos? Então a famosa bomba que destrói os búnqueres e penetra montanhas não resolve nada? Show off!
A guerra é um bom negócio.
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De João Pedro Pimenta a 04.09.2017 às 02:19

Há diferenças importantes entre uma e outra: Alepo não estava na posse de radicais islâmicos, ou pelo menos não estava só na posse deles. Havia diferentes grupos, constituídos em grande parte por gente dali. É bom não esquecer que as manifestações contra Assad começaram precisamente em Alepo, e a cidade não estava tomada por uma força externa.
Ao contrário, Mosul tinha sido conquistada pelo Daesh (que aliás pouca presença teve em Alepo), que pôs em fuga as forças iraquianas presentes no local, e teve quando muito o apoio de alguns sunitas da cidade. Aliás, pergunto-me como é que se evitam mortos civis se estes são usados como escudos pelo mesmíssimo Daesh.
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De Luís Lavoura a 10.09.2017 às 11:12

Claro que Alepo estava só na posse de radicais islâmicos! Quem acha que é suficientemente fanático para estar ali a lutar? Quem acha que a Arábia Saudita e o Qatar financiam, a não ser precisamente radicais islâmicos? A quem é que esses países dão armas para lutar, a não ser a radicais islâmicos?
Há já muitos anos que é amplamente reconhecido, incluindo pelo "Ocidente", que a oposição síria foi completamente tragada pelos radicais islâmicos, sobretudo em capacidade bélica. A "oposição moderada" é um sonho, em matéria de capacidade bélica.
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De Alain Bick a 23.08.2017 às 17:15

a festa do avante é mais concorrida que as Tamblas

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