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Contra o "racismo identitário"

por Pedro Correia, em 30.10.17

 

O mais obsceno, na fuga para o abismo protagonizada pelos separatistas espanhófobos que lançaram a Catalunha no caos, é a sua persistente tentativa de instrumentalizarem a língua – património de todos os catalães, sem discriminações – para efeitos de propaganda política. Falar catalão passou a equivaler a senha independentista, na óptica dos promotores da ruptura com o Estado espanhol, que sempre se comportaram como donos do idioma.

Acontece que as línguas não têm proprietários: são sempre elos de ligação, nunca muralhas que se levantam entre habitantes do mesmo território. O catalão é a língua materna de milhões de catalães que, sem abdicarem um milímetro da sua identidade cultural, se sentem irmanados aos restantes povos de Espanha e rejeitam em absoluto o aventureirismo irresponsável daqueles que fazem do ódio a Madrid a única bandeira do seu ideário político.

 

Ainda ontem isso ficou bem evidente, na  megamanifestação que congregou centenas de milhares de pessoas no centro de Barcelona em defesa da Constituição espanhola e do respeito pelas decisões do poder judicial. Intervieram vários oradores: todos se exprimiram em catalão. Deixando claro que têm tanto direito ao idioma como os separatistas e recusam ser tratados como cidadãos de segunda na própria terra que habitam só porque são partidários de uma Catalunha espanhola. Não são independentistas nem nacionalistas. E não têm que pedir desculpa a ninguém por isso.

“Somos mestiços de pura cepa”, declarou com orgulho o filósofo Félix Ovejero, um dos mais respeitados intelectuais catalães, resumindo nesta frase tão feliz o que é a essência da Catalunha, unida há cinco séculos às restantes parcelas de Espanha. Enquanto o ex-secretário-geral do Partido Comunista espanhol, Francisco Frutos, subiu ao palanque para se insurgir com vigor contra o "racismo identitário" e o "dogmatismo sectário" dos separatistas.

 

A Catalunha mais genuína é mesmo esta: a que se assume como "mestiça" e recusa o "racismo identitário". A Catalunha cosmopolita, ponto de convergência de povos e culturas tão bem cantada por Joan Manuel Serrat nesta sua bela canção que é Mediterrâneo. Perseguido pelo franquismo só porque ousava cantar em catalão, Serrat é agora insultado nas tribunas secessionistas por se declarar opositor da independência. Os netos da burguesia catalã que enriqueceu durante a ditadura atrevem-se a chamar-lhe "traidor" e "nazi".

Chegámos a esta encruzilhada na capital mediterrânica da Península Ibérica, cidade aberta que alguns sonham ver rodeada de muros: quem não for independentista não pode ser considerado catalão. Isto demonstra até que ponto o vírus do nacionalismo, que pegou fogo várias vezes à Europa, tem corroído a Catalunha. Felizmente vai ser derrotado na jornada eleitoral de 21 de Dezembro, estou certo disso.


33 comentários

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De Rui Henrique Levira a 30.10.2017 às 17:56

Sou pela medicação grátis para todos os esquizofrénicos independentistas catalães (e seus apoiantes aquém fronteira) e pelo seu internamento compulsivo em boas bibliotecas com bons livros de História da Espanha.
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De Vlad, o Emborcador a 30.10.2017 às 19:01

E eu sou a favor de bons enemas, com Old Spice, a todos os absolutistas espanhóis
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De Rui Henrique Levira a 30.10.2017 às 23:33

Olhe que a alguns faria o caro Vlad, com essas suas vampirices às avessas, um favor. É que o gosto por enemas, sejam eles com "Möet et Chandon", com "Old Spice" ou com "Cava", reparte-se certamente, nestes tempos de liberalismo de costumes, tanto pelos caricatos remanescentes neofranquistas como pela direita do PP ou como pelas esquerdas da ERC ou das CUP.
Eu, não sendo espanhol (absolutista, libertário, tardo-carlista ou o que quer que seja), agradeço a oferta, mas educadamente a declino. E os enemas, meu caro Vlad, são para mim enigmas, porquanto os não posso classificar de "bons" (Vlad dixit) ou "maus".
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De Maria Dulce Fernandes a 30.10.2017 às 18:17

La, la, la (catalan version)
M’en recordo mare que em duies de la mà
Tu eres jove encara i jo anava fent-me gran
Teníem fred, però amb una cançó
Feies la nit més clara i mes blava aquella tardor

La lalala lalala lalala…
La lalala lalala la…
La lalala lalala lalala…
La lalala lalala la…

M’en recordo mare quant em feies cantar
Trenca les fronteres, guaita lluny i endavant
Res no ho esborrar, ni ho vull oblidar
I per tu mare meva cada vespre em senten cantar

La lalala lalala lalala…
La lalala lalala la…
La lalala lalala lalala…
La lalala lalala la…

La lalala lalala lalala…
La lalala lalala la…
La lalala lalala lalala…
La lalala lalala la…

Para os que lá lá lá se foram, a verdade é que k medo não superou a vontade. Só a vergonha ficou.
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De Vlad, o Emborcador a 30.10.2017 às 18:54


https://youtu.be/hFV993YEFvU

Els Segadors
Catalunya, triomfant,
tornarà a ser rica i plena!
Endarrera aquesta gent
tan ufana i tan superba!
Tornada:
Bon cop de falç!
Bon cop de falç, defensors de la terra!
Bon cop de falç!
Ara és hora, segadors!
Ara és hora d'estar alerta!
Per quan vingui un altre juny
esmolem ben bé les eines!
Tornada
Que tremoli l'enemic
en veient la nostra ensenya:
com fem caure espigues d'or,
quan convé seguem cadenes!
Tornada

Sacrificar a vida , por um ideal, é espécie em risco de extinção. Mas para os intelectuais da pena e teclado talvez seja motivo de assombro, pela vergonha. Vergonha perante o contraste entre aquele que abdica de parte importante da sua vida e a coragem vazia de salão e do discurso balofo, esgotado.

Detesto gente mesquinha que não é capaz de qualquer abnegação pessoal em nome de uma ideia. E perante aqueles que o conseguem fazer disfarçam, pelo riso e a piada cobarde, a vergonha que os aquece. A sua coragem não passa de um arroto .
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De Maria Dulce Fernandes a 30.10.2017 às 22:21

Sabe o que é acender o que antigamente se chamava bicha de rabiar, pôr toda a gente a tentar apanha- la e quando começa a cuspir agulhas de fogo, foge antes que se queime?
A abnegação por uma causa, deu -nos exemplo Mandela. Não é só apregoá-la, é vivê-la. Aos heróis da Cataluña foi aberta uma porta. Após muito ponderarem (15 minutos tops), deram às de Vila Diogo, deixando para trás um sonho moribundo que plantaram em corações estraçalhados, e gente , aquela gente a quem prometeram e não cumprirem como os políticos da mais fina estirpe. São os piores estes, porque se intitulam adventistas da grande mudança.
Deixe-se de demagogias Vlad. Aliás, pelo que li por aqui hoje, já deu no cravo e na ferradura nem sei quantas vezes em incontáveis comentários.
Depois de amanhã é feriado. Espaireça e tenha um dia tranquilo.

.
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De Pedro Correia a 30.10.2017 às 23:11

O leitor Vlad só pode estar a aludir ao desertor Puigdemont, que se raspou para a Bélgica deixando o caldeirão ao lume, quando escreve que "sacrificar a vida, por um ideal, é espécie em risco de extinção".
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De Rui Henrique Levira a 30.10.2017 às 23:40

"Gente mesquinha que não é capaz de qualquer abnegação pessoal em nome de uma ideia" assim como Artur Mas ou o turista Carles Puigdemont I, o do pé ligeiro?
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De Vlad, o Emborcador a 30.10.2017 às 19:26

Só umas perguntinhaa, de carácter sociológico :

Quando recebe visitas em casa vai-lhes mostrar os quartinhos e a sala onde dependura as serigrafias?

E à entrada, um piano vertical?
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De Maria Dulce Fernandes a 30.10.2017 às 21:40

Eu sou lá mulher para piano vertical! Está bem que não deixa rabos de palha, como os de cauda, mas enfim.
O Vlad hoje parece um catavento, caramba
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De Maria Dulce Fernandes a 30.10.2017 às 22:28

Aproveito para o informar que o Lalala venceu o Festival Eurovisão da Canção, interpretado à última hora pela Maciel, porque o Juan Manuel Serrat, vencedor em Espanha disse que só na cantava na Eurovisão em catalão e foi proíbido de o fazer e afastado pelo governo franquista. Foi uma canção que uniu a Espanha e nada têm a ver com aquela treta facciosista que publicou a seguir.

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