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contra o puritanismo, marchar, marchar

por Patrícia Reis, em 17.01.19

Censurar Fernando Pessoa a pretexto do público-alvo ser adolescente (ao nível do secundário) é um tiro no pé. Se me recordo da minha adolescência, e recordo bem, eu iria logo à cata do que me tivessem proibido de ler.

Bom, mas eu li Os Maias, parece que ainda se lê, e é sobre incesto, não é? E li Jorge Amado, li Marguerite Duras, O Amante, teria uns 15 anos. Li Anais Nin e Henry Miller, a loucura das Novas Cartas Portuguesas de Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno. Também tive a sorte de ter uma professora de português que achava os Lusíadas sexies e Bocage inspirador.

O mundo muda quando se tem bons professores. Os bons professores são os que abrem  caminhos, são os que nos incentivam, não são os que controlam a nossa moral.

No secundário, se me recordo, a malta já pensa em sexo. Diria mesmo que se pensa bastante em sexo, porque nada melhor do que o abordar através da poesia.

Li algures que a Ode Triunfal de Fernando Pessoa, na verdade Álvaro de Campos, para sermos correctos, incita à pedofilia. Ó por favor! Estamos a falar de miúdos com 16 ou 17 anos, miúdos que não são parvos, que usam as redes sociais e têm acesso a sexo gratuito online se assim o desejarem. Não é a falar que a malta se entende e desmistifica preconceitos e ideias falsas?

Ao manual escolar da Porto Editora, editora que recusa a acusação de censura, faltam três versos: "Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas". E ainda: "E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! - / Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada".

Na versão dos professores do mesmo manual o poema está na íntegra. Os docentes são livres de escolher discutir ou não os versos cortados? Parece que é essa a ideia. Dizem que há uma preocupação didáctica-pedagógica. Com o quê? Estamos a falar de miúdos crescidos, daqui a nada universitários ou no mercado de trabalho.

Ora, a obra de Fernando Pessoa e os respectivos heterónimos integra as chamadas “aprendizagens essenciais” definidas pelo Ministério da Educação. Acho bem. Como acho bem Os Maias ou Os Lusíadas com as suas sereias encantatórias.

O que não acho bem é o puritanismo e esta polícia do pensamento. Já a tivemos em Portugal, durou até 1974, vamos voltar atrás? Há um politicamente correcto e um sentido regulador que se impõe e que é tutelado por alguém. Não sei quem seja, mas as proibições e censuras cheiram sempre mal. Podem invocar o que quiserem, não tenho como entender.


16 comentários

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De Pedro Correia a 17.01.2019 às 13:38

Estou a saber por ti. Nunca mais acaba, este neopuritanismo censório que pretende impor-nos a todos o que devemos ou não dizer, o que devemos ou não usar, o que devemos ou não ler.
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De Anonimus a 17.01.2019 às 14:08

Se o texto é "impróprio", porquê colocá-lo no livro? Mais valia passar à frente.
De resto, nada a opor ou acrescentar.
Vindo de alguém que se ri ao ler "Anais Nin". Infantilidade não tem idade.
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De Plinio a 17.01.2019 às 14:23

Concordo com o comentário no post quanto ao puritanismo.
Mas é Álvaro de Campos que diz " "E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! - / Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada".
Seria então o Autor pedófilo, pelo menos à luz das ideias actuais? É que se o for, atenção, temos visto por aí petições para retirar estátuas a indivíduos por causa de posições ou práticas tidas por imorais hoje mas que na data da sua prática seriam aceitáveis.
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De Anónimo a 17.01.2019 às 14:34

É muito fácil apontar o dedo quando não se tem de aturar miúdos e encarregados de educação, sempre prontos a bater nos professores. Já agora, porque não ler nas aulas os sonetos eróticos do Bocage?
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De Cristina M. a 17.01.2019 às 14:59

Espírito crítico e autonomia.

Cada vez mais presentes nas "metas" e nas "aprendizagens essenciais"; cada vez mais necessários na vida adulta.
Cada vez menos fomentados e estimulados na sala de aula.
Desculpas?: extensão do programa; elevado n.º de alunos por turma; e tal e tal e tal.

Realidade nos papéis?: escola com autonomia para gerir parte do currículo, do horário; com autonomia para inovar, experimentar, articular, partilhar.
Realidade nas práticas?: documentos comprovativos de análises, papelada comprovativa de estratégias para o sucesso, relatórios e evidências de que «se fez o que era previsto / cada um cumpriu a sua parte»; «temos de nos salvaguardar caso haja uma inspeção».

Uma espécie de "instagram" e/ou "facebook" - está aqui que foi feito; cumprimos.

No entanto... por que não direcionar uma parte da "energia do papel" para, por exemplo, seguir seriamente o percurso escolar e de entrada no mercado de trabalho (na vida, enfim) de uma amostra que seja destes jovens; pegar nesses dados, juntar-lhes pessoas (que direções escolares estiveram presentes neste percurso, que professores, que metodologias), e (tão difícil, tão pouco ético, tão feio, pois é?) pôr alguma ordem nisto, algum rigor, alguma seriedade?
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De jpt a 17.01.2019 às 15:06

Surreal. Mas tenho que corrigir o texto. Se bem me lembro "No secundário, se me recordo, a malta ... (só) pensa em sexo."
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De Bea a 17.01.2019 às 18:57

Também repudio censuras que cerceiam liberdades. Mas este tipo de censura nada cerceia. Nem ao professor - que dará o que entenda -, nem ao aluno - que pode ler tudo quando quiser, a net é hoje o bazar universal. Se isto é censura e PIDE, vou ali e já venho. Há que distinguir as coisas. Não banalizemos o execrável trabalho dessa polícia.
A polémica é tempestade levada ao exagero.
E tenho certeza que adolescentes e jovens adultos de 12º ano não pensam só em sexo. Aliás, julgo que só um doente pensa apenas em sexo. Há um investimento sim, mas há muita coisa em jogo na vida dos adolescentes para além do sexo. Têm variadas paixões. Essa não é a menor, é um facto.
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De jpt a 18.01.2019 às 08:44

Bea fui eu que disse essa do "só pensam em sexo". Não posso afivelar um sorriso e dizer uma piada pateta apenas para enfatizar uma concordância? Tenho que ser refutado nisso? Que me diga "ó comentador jpt, que piada tão estúpida" eu até concordarei. Mas, caramba, temos que ser assim tão sérios que debatamos tudo o que se bota? Claro que não pensam só em sexo. Pensarão muito, "bastante" como diz Patrícia Reis.
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De Manuel Costa a 18.01.2019 às 10:35

Caro jpt:
Não era só em sexo mas quase. Lembro-me ainda desses tempos. Aí a partir dos 12 ou 13 anos era quase tudo em torno do sexo. Eu e os meus amigos da mesma idade. Eram as conversas, era a masturbação diária (às vezes lá se conseguia passar um dia sem isso). Era olhar para as raparigas. Era a tortura devido ao que nos diziam na época: a actividade sexual, além de ser um pecado mortal (com direito a ir directo para o inferno) era péssima para a saúde e provocava muitas doenças e fraqueza físicas. Nós acreditávamos ... esse era o drama. Mas não resistíamos à tentação provocada pelas erecções que se mantinham por horas e eram quase dolorosas, O único remédio (além do pecado) era deitar-lhe água fria para acalmar. Por vezes parece-me que estamos a regressar a esses tempos (ou quase). Nem sei se este comentário vai ser publicado devido a falar muito de sexo. No meu tempo não viria a público, hoje não sei.
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De xico a 18.01.2019 às 23:00

Seu doente! (de outro doente, porque era tal qual) ;)
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De Bea a 19.01.2019 às 09:28

Olhe jpt. quando escrevemos e comentamos num blogue, arriscamos. Cada um pode pegar no que quiser e como quiser desde que não ofenda. Não considero que haja ofensa. BFS
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De Cristina M. a 18.01.2019 às 15:45

este comentário de "Bea" fez-me lembrar («como se fosse hoje!») a perplexidade que senti ao abrir Os Lusíadas que a minha sogra me emprestou para procurar os episódios (ou sub episódios) da Ilha dos Amores, e dei com várias linhas que passo a transcrever:

« ..............................
.................................
.................................
.................................
[...] ».

era uma edição dos anos 50 do séc. passado.
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De xico a 17.01.2019 às 20:45

Correção: estamos a falar de miúdos com 17 ou 18 anos. Aliás com idade superior à mínima exigida para o casamento em Portugal.
Esperemos que a Porto Editora não faça edições da Bíblia senão lá teremos Gn 39, 32-35; Juízes 19, 22-26 e 2 Samuel 13, 13-18, com reticências.
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De JAB a 18.01.2019 às 15:10

No meu tempo de estudante era impróprio o conteúdo do Canto IX de "Os Lusíadas"... Mas não era retirado... . Podíamos não o "dar" na aula, mas toda a gente sabia o que ele continha... O problema agora é que o "puritanismo" e outros "ismos" vêm da mesma gente que se ergue furiosa contra o "puritanismo" e a "censura" de então... Como se nós não tivéssemos memória.
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De Manuel Sousa a 20.01.2019 às 11:46

Concordo. Estamos a falar em matulões de "olhos bem abertos". Porém " e eu acho isto belo e amo-o!" encanzina espíritos sensíveis "em nome do superior interesses da criança"...

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