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Contra a tentação da carne

por Pedro Correia, em 18.09.19

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Pensava eu que uma universidade era um espaço de liberdade. Afinal não: é um espaço de interdição. Mais de meio século após a proclamação de Maio, que proibia todas as proibições, eis que a reitoria coimbrã, confundindo a academia com uma creche, restabelece a velha ordem com novos rótulos, tratando estudantes adultos como membros de um rebanho pastoreado pelos tele-evangelistas de turno que anunciam pragas bíblicas a quem ceder à tentação da carne.

«Razões ambientais» estarão na origem da decisão de eliminar o consumo da carne de vaca nas 14 cantinas a cargo da academia coimbrã, que se ufana assim de ser a «primeira universidade portuguesa neutra em carbono». Eis ao que chegámos: à universidade "neutra", onde a unicidade impera e os mais recentes dogmas em matéria de pureza alimentar são aceites sem um assomo de rebelião juvenil. «Vivemos um tempo de emergência climática e temos de colocar travão nesta catástrofe ambiental anunciada», anuncia com requintes de terror milenarista o douto reitor, Amílcar Falcão. Não podia ter retórica mais adequada nem apelido mais propício ao aplauso do partido animalista.

Os puritanos norte-americanos na década de 20 impuseram a Lei Seca. Agora os mastigadores de rúcula cá do burgo, com igual fúria proibicionista, pretendem impor com força legal os seus hábitos alimentares invocando - como os prosélitos de qualquer fé - o primado da moral pública, que se quer descontaminada e sã. Nada de novo debaixo do sol. Só me espanta o silêncio resignado - ia a escrever bovino - das associações de estudantes de Coimbra. Comem (algas e tofu) e calam. O que vai seguir-se? Substituição compulsiva da cerveja por água da bica? Imposição de cintos de castidade em material biodegradável? Recolher obrigatório para cumprir as horas de sono que as normas sanitárias recomendam?

Os basbaques erguem hossanas em louvor ao "progresso" contido nas novas tábuas da lei. Muitos totalitarismos começam assim: com caução "científica" e proselitismo higienista em nome de um ideal de pureza, sem um sopro de contraditório. Nunca é de mais recordar que o maior tirano que o mundo conheceu era vegetariano militante, muito amigo dos animais e quis impor o seu padrão alimentar ao mundo inteiro.


174 comentários

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De Anonimus a 19.09.2019 às 14:21

A bem do ambiente, a cantina vai abolir todos os lacticínios.
Ou as vacas que dão leite bufam menos que as cujo destino é o talho?
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De Pedro Correia a 19.09.2019 às 14:25

Gostava de saber se o Magnífico Reitor também proibiu carne de vaca (e derivados do bicho, incluindo leite, queijo, manteiga, iogurtes) no remanso do seu lar.
Estaremos perante mais um Frei Tomás?
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De Luis Miguel Rainha a 19.09.2019 às 18:25

Isso do Hitler tem sido objecto de muita discussão. Não é claro se ele era mesmo vegetariano. A 100% parece que não, pelo menos.
https://slate.com/human-interest/2004/02/was-hitler-a-vegetarian.html
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De Miguel a 19.09.2019 às 20:52

Deixo aqui um pequeno apontamento (copiado do blogue De Rerum Natura) da autoria de Isaltina Martins, professora de Latim e de Português.


INTELIGÊNCIA - o que a etimologia nos diz:

O vocábulo inteligência vem do latim intellegentia, que significa “acção de discernir”, “faculdade de compreender”, portanto, “inteligência”, “compreensão”, “entendimento”.

Este substantivo intellegentia está relacionado com o particípio presente do verbo intellegere, que significa “perceber”, “compreender”; logo o intellegens é “aquele que compreende /que conhece”, o “conhecedor”. Daqui deriva a palavra portuguesa inteligente (do acusativo latino, o caso de onde deriva a maior parte das palavras portuguesas, intellegentem). Por isso, o INTELIGENTE é, literalmente, “aquele que percebe, que compreende, que sabe discernir”.

Este verbo latino intellegere é formado de inter (prefixo que quer dizer “entre”) e legere (verbo que significa “juntar”, “reunir”, mas também “colher”, “escolher”) — portanto inter-legere quer dizer “escolher entre” (entre várias opções escolher uma...); então o inteligente é “aquele que sabe escolher, que sabe discernir , que sabe colher o conhecimento". A INTELIGÊNCIA é isso, é essa capacidade de escolha, de discernimento, de colher o saber, o conhecimento.

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De Pedro Correia a 20.09.2019 às 20:41

Muito bem. Escolher, discernir. Não impor, proibir.
Muito menos numa universidade, que deve ser sempre espaço de liberdade.
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De Miguel a 20.09.2019 às 21:52

Sim, aplica-se bem ao reitor e, por razōes diferentes, a quase todos os comentadores.
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De Miguel a 21.09.2019 às 02:53

Sim, claro, na medida em que tal como muitos dos meus camaradas comentadores me limitei a mandar umas bocas inconsequentes.

Mea culpa mea culpa ! Para ser mais construtivo e para quem percebe francês para tentar alargar as perspectivas ...

- Bruno Parmentier -

Nourrir l'humanité ?

https://www.youtube.com/watch?v=l9VGz9Lrt70

https://www.youtube.com/watch?v=xDLisHLG5q4

- Marc Dufumier

Peut-on nourrir le monde de l'agriculture biologique ?

https://www.youtube.com/watch?v=wJJyDa9PwlQ
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De António a 19.09.2019 às 21:07

A escola da minha filha é verdadeiramente progressista - há anos que ninguém vê um bife de vaca na cantina, e é pioneira nas alimentações alternativas (lagartas, gorgulho, etc.).
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De Pedro Correia a 19.09.2019 às 21:54

Não é tão progressista assim.
Lagarta e gorgulho também é carne.
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De Miguel Costa a 20.09.2019 às 18:43

"Maior tirano" que o mundo conheceu?... Refere-se a quem? Josef Stalin? Kim Il Sung?Mao Tse-tung? Ho Chi Minh? Pol Pot?...
Estes são os maiores. Diferem em poucos milhões de mortes entre eles.
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De Pedro Correia a 20.09.2019 às 20:40

Já cá faltava a medição de pilinhas. Neste caso em forma de cadáveres, o que denota um intragável mau gosto.

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