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Contra a preguiça intelectual

por Pedro Correia, em 24.02.20

original[1].jpg

 

Vasco Pulido Valente foi meu professor na Faculdade. Leccionava Ciência Política e era uma das celebridades daquele curso. 

Julgo que quase todos o líamos religiosamente na última página do Expresso, numa coluna intitulada "O País das Maravilhas". Eu começava precisamente por ali, sábado após sábado. Por aquele rectângulo destacado na linha gráfica do jornal com uma prosa que parecia saída do bisturi dum cirurgião. Prosa limpa, sem "poréns", sem "entretantos", sem "outrossins". Sem reticências nem pontos de exclamação. Sem atalhos para chegar onde queria. À inglesa, libertando-nos da retórica afrancesada que ainda marcava tantos dos seus parceiros de geração. 

Porque ele não nos ensinava só a pensar. Também nos ensinava a escrever. Este foi um dos seus maiores méritos: mudar a forma como se escrevia nos jornais, traçando linhas de fronteira. Antes dele proliferavam os gongóricos, cultores imoderados do adjectivo e e do advérbio. Depois dele, a nossa escrita ficou mais limpa.

 

Estou a revê-lo no alto do estrado, na Universidade Católica. Era o primeiro dia de aulas e nós, caloiros, tínhamos pela frente aquele professor ainda jovem mas já famoso pela tal coluna onde zurzia nos políticos. 

De blazer e gravata de malha, ele olhou-nos de cima para baixo e rompeu enfim o silêncio com uma lâmina em forma de pergunta: «Algum dos senhores leu Os Fidalgos da Casa Mourisca

Sentiu-se um embaraço colectivo na sala enquanto olhávamos uns para os outros: ninguém havia lido aquele livro. 

«Era o que eu pensava», disparou em tom cáustico, cruzando os braços enquanto continuava a olhar-nos fixamente. O Vasco colunista confundia-se com o Vasco professor: agora éramos nós os zurzidos. 

«Os senhores nunca saberão o que foi a história do século XIX em Portugal sem lerem esse romance», prosseguiu, sem a menor preocupação em cativar-nos pela simpatia. Não era para isso que ali estava, mas para rasgar-nos horizontes. E a primeira lição fora dada: não há limites estanques no domínio do saber. Um romance pode ser a primeira janela aberta para a política. 

 

Meses depois, O País das Maravilhas saiu em livro. Andei com ele literalmente debaixo do braço. Lido e relido, sublinhado, transcrito. Já com as virtudes e até alguns dos defeitos que obras posteriores confirmaram - no campo da crónica, da biografia, do ensaísmo histórico. Obras como Às AvessasPortugal -- Ensaios de História e de Política, Retratos e Auto-Retratos, Os DevoristasEsta Ditosa PátriaMarcello Caetano: as Desventuras da RazãoUm Herói PortuguêsIr Prò ManetaGlória. Até à última, não por acaso intitulada O Fundo da Gaveta, sobre a qual escrevi aqui.

Uma escrita elegante, cáustica, direita ao osso, sem vias sinuosas. A palavra certa estava sempre lá. Mas também uma visão de Portugal marcada por um inabalável pessimismo, ancorado na ancestral geração de 70 e nas torrenciais páginas desse romance excessivo em tudo, até no campo das ideias, que Eça de Queiroz nos deixou em legado: Os Maias. A visão por vezes desfocada de um país asfixiado pela mediocridade irrevogável das suas elites. 

 

Lembrarei sempre Vasco Pulido Valente, acima de tudo, como meu professor. Um dos mais estimulantes que tive - e, felizmente, foram vários. Capaz de nos fornecer pistas de análise, de nos sacudir da tentação da apatia, de nos alistar no combate à preguiça intelectual. Até para discordarmos dele.

Anoto isto e reparo agora que, tantos anos depois, continuo sem ter lido Os Fidalgos da Casa Mourisca. Algum dos senhores o leu?


32 comentários

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De Bea a 24.02.2020 às 10:25

suponho que o seu último parágrafo seja só para semear inquietação. Porque de certeza, depois do abanão do professor, foi ler a obra em causa. Até para verificar se o dito correspondia à verdade.
Não tive o prazer de ser aluna de Vasco Pulido Valente. E é pena, a faculdade não me deu assim tantos bons professores, culpa talvez da profissão que me condicionava horários de aulas e impedia escolhas. Imagino aulas muito interessantes, imbuídas de cultura de extravagante qualidade. Li-o algumas vezes, nem sempre partilhei da sua opinião, mas é factual que a tinha, a vincava com argumentos sérios e, sobretudo, a escrevia de forma fulgurante. E, apesar de não gostar de adjectivação apresentando-se sempre de forma simples e limpa de supérfluo, não há como isentarmo-nos de grata adjectivação.
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 20:18

Confirmo, Bea. Eram aulas muito interessantes. Embora por vezes desconcertantes, o que aliás as tornava ainda mais interessantes.
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De Anónimo a 24.02.2020 às 10:44

Evidentemente, responder-lhe-ia a malta da minha geração - a que " andou no liceu"...
Meu caro, pelo menos temos uma coisa em comum , a admiração por VPV .
Cpmts.


JSP


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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 13:47

Sim, ele fazia pouco ou nada para ser estimado - até na medida em que jamais escreveu fosse o que fosse para "parecer bem", tanto quanto me recordo (e li-o durante mais de 40 anos).
Mas era admirado, sem dúvida. Por quem concordava com ele. E também por quem discordava dele.
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De Luís Lavoura a 24.02.2020 às 11:14

Tanto a fotografia que ilustra este post como a pergunta feita aos estudantes sobre Os Fidalgos da Casa Mourisca ilustram um indivíduo pedante e que se preocupava sobremaneira com a sua imagem e com o desejo de impressionar os outros com ela.
A ler, o post que dedicou à morte de VPV, e às reações a ela, o Herdeiro de Aécio.
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 20:15

Você é inovador. Acaba de adaptar a teoria de Lombroso às fotografias.
Recomendo-lhe que registe a patente.
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De sampy a 24.02.2020 às 11:26

Eu li. E aprendi o que é a verdadeira vingança.
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 13:35

Faz sentido. VPV era do signo Escorpião, o signo dos vingativos.
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De o cunhado do acutilante a 24.02.2020 às 16:36

Errado! Os escorpiões não são vingativos. Não confunda com vingadores.
Signo do reconhecimento e da fidelidade eterna. Para quem merece.
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 19:58

Você disse quase a mesma coisa. De outra maneira.
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De Anónimo a 24.02.2020 às 11:49

Bom dia Pedro Correia
Todos temos defeitos e virtudes, humanos que somos, e VPV não fugiu a essa regra universal. A questão, opinião minha naturalmente, está no doseamento, alguns seres têm mais de uns que de outras.
VPV tinha, para mim, uma excelência nas suas virtudes.
Alguns dos seus defeitos são conhecidos, mas eu sempre o recordarei pela parte da excelência, que me fez lê-lo anos a fio. Na sexta - feira passada, em uma das minhas muitas deslocações pelo Continente, ouvi deliciado na TSF a entrevista/ conversa já com alguns anos, entre ele e o Carlos Vaz Marques, uma delícia. Que descanse em paz. Ele é daqueles a quem tiro o chapéu.
António Cabral
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 13:34

Eu tiro quase sempre o chapéu (metafórico) aos mortos, caro António Cabral. Por respeito que (quase) todos me merecem.
VPV merecia-me não apenas respeito mas muita consideração intelectual. Mesmo quando discordava do que escrevia, o que por várias vezes aconteceu, os argumentos dele nunca eram irrelevantes.
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De o cunhado do acutilante a 24.02.2020 às 13:07

Eu li. E tenho-o.
Bom para a época, talvez menos interessante para a contemporaneidade.
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 13:30

Lembrando o episódio à distância, julgo que se tratava, em larga medida, duma blague de VPV. Sacada lá daquele inesgotável fundo de ironia que ele procurava ocultar, nem sempre com sucesso.
Por acaso nunca perguntei a nenhum dos meus ex-colegas se chegaram a ler o livro. Ainda vou a tempo: andam quase todos por aí.
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De Miguel a 24.02.2020 às 14:19

Diacho, nenhum dos distintos estudantes desafiou o "bluff" do senhor professor?
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 14:32

Outros tempos, outros modos.
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De Anónimo a 24.02.2020 às 15:40

A nossa iliteracia é grande.
Júlio Dinis escreve muito bem e o Fidalgos da Casa Mourisca iria elucidar muita gente sobre as transformações no Séc. XIX em Portugal.
A pergunta do Vasco Pulido Valente Aos alunos nada tinha de descabida.
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 20:01

Nunca pensei que fosse descabida. Mas não deixou de ser uma original introdução às aulas de Ciência Política. Como cartão de apresentação do professor.
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De Justiniano a 24.02.2020 às 15:38

Não! Ainda não vivi o suficiente para acabar!!
Quedo-me, todavia, curioso!! Disse-o mesmo!? A história do sec XIX!? Nem Eça nem Oliveira Martins!? O VPV era um tremendista, já sabemos. Já disse tanta coisa que, de aparente revelação, se revela manifestamente exagerada!!
O VPV era incontornável, apesar de todos os exageros!! No meio daquela aparente contradição, havia método. Ensinava pela provocação, é verdade.
Vai fazer falta! Que repouse em paz!!
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 20:12

Nunca me esqueci deste episódio. Também perante os alunos VPV não escondia a faceta sarcástica e provocatória. Imaginando, talvez com fundamento, que seríamos limitados em leituras básicas.

Tinha razão, no meu caso. Com 17 anos, do Eça ainda só tinha lido A Cidade e as Serras, O Primo Basílio, O Crime do Padre Amaro e Os Maias. E, do Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais e As Pupilas do Senhor Reitor.
Pecado maior: ainda não conhecia então o Portugal Contemporâneo, do Oliveira Martins.

Mas não tardei a redimir-me.
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De Manuela a 24.02.2020 às 16:37

Eu li e o Jorge é ainda hoje um dos meus crush literários
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 20:03

Tenho de colmatar essa lacuna literária.
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De M. Gomes a 26.02.2020 às 14:14

O que é um crush literário?
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De Marta a 24.02.2020 às 21:38

Eu também li, lá para os 15/16, se calhar mais cedo. Fiquei com vontade de reler.
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De Pedro Correia a 24.02.2020 às 22:07

Vou finalmente ler o romance de Júlio Dinis, ainda este ano. Para perceber melhor o século XIX português.
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De Marta a 25.02.2020 às 12:22

Trocaremos ideias, então! Aos 15 anos não estava preocupada em compreender o século XIX português...

Ainda sobre VPV e dois outros "desaparecidos recentes" da mesma geração, Roger Scruton e Terry Jones, impressionou-me o estudo e o conhecimento que sustentava o trabalho de cada um. Impressionou-me não, envergonhou-me.

Há qualquer coisa - profundidade, maturidade, reflexão, curiosidade, acutilância...- que se está a perder e isso entristece-me.


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De Pedro Correia a 25.02.2020 às 19:56

Compreendo-a muito bem, Marta. E sinto o mesmo.
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De Pedro Correia a 27.02.2020 às 20:53

Cinco palavras-chave: profundidade, maturidade, reflexão, curiosidade, acutilância
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De ChakraIndigo a 25.02.2020 às 13:25

Eu li, teria uns 12 anos.

O meu avô tinha uma vasta biblioteca, e se li sem critério qualquer coisa que lá estivesse, desde Julio Verne, Fernando Namora, Alexandre Dumas, Tintin, ou a Selecção do Reader´s Digest, ou a Helga, isso fez que ainda hoje não me recorde bem do conteúdo de muitas dessas leituras.

É o caso, que irei colmatar, sem duvida.
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De Pedro Correia a 25.02.2020 às 19:55

Fez muito bem então, faz muito bem agora.

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