Contra a lei de Talião
Depois da Ucrânia, a Moldávia. Depois da Moldávia, os estados bálticos: o direito internacional pode ser hoje violado a todo o momento, na Crimeia ou noutro quadrante, porque já houve muitas violações no passado. Fantástica tese, que vou vendo repetida até por gente que me habituou a argumentar com inteligência noutras ocasiões.
Subjaz a este raciocínio que não devemos colher qualquer ensinamento dos erros -- e até dos crimes -- anteriormente cometidos. Esta visão do mundo que justifica as arbitrariedades presentes pela ocorrência de arbitrariedades passadas condena a Humanidade a uma eterna pena de Talião: olho por olho, dente por dente. E absolve de antemão futuros agressores, alegando que também eles terão sido vítimas. Ou, se não foram eles, terão sido os pais. Ou os avós.
Nada é para mim tão inaceitável como esta equivalência moral que alguns pretendem estabelecer entre quem agride e quem é agredido. Com estas premissas será sempre possível justificar as maiores atrocidades -- em qualquer época, em qualquer lugar.
A civilização começa no preciso momento em que recusamos com firmeza a lei de Talião e nos demarcamos sem ambiguidades de todos quantos a praticam, seja sob que pretexto for.
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