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Contra a devassa da vida alheia

por Pedro Correia, em 26.09.16

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Um dos factos mais notórios do nosso tempo é a crescente desvalorização da reserva da vida privada. A todo o momento milhões de pessoas expõem na Rede imagens e palavras oriundas do seu reduto mais íntimo, colectivizando aquilo que devia ser privado.

Conceitos como recato e pudor parecem ter deixado de fazer sentido na era digital, em nome da “transparência”, conceito controverso quando estão em causa questões sem o menor interesse público e propícias a infames manipulações por parte das multinacionais que operam as chamadas “redes sociais” e de indivíduos sem escrúpulos, prontos a fazer comércio devassando a intimidade alheia.

Um Estado totalitário, munido destas ferramentas, iria hoje muito mais longe do que foram a Alemanha hitleriana ou a Rússia estalinista no aniquilamento cívico de um número incalculável de pessoas.

 

A palavra de ordem, nos dias que correm, é pôr tudo em linha com a rapidez de um relâmpago. Escancarando encontros e desencontros, paixões e ódios, amores e desamores. Contribuindo assim para o drástico recuo do direito à preservação da esfera íntima de cada um.

Como escrevia ontem Yoani Sánchez num artigo de opinião no El País, as gerações mais jovens, sobretudo, “sentem que o tempo da privacidade chegou ao fim”. Dizer não à devassa ficou fora de moda.

“Nas redes sociais, vimo-los superar o acne, livrar-se dos aparelhos dentários, estrear barba e extensões capilares. Estão dispostos a entregar informação pessoal em troca de uma socialização mais intensa. Os filhos fazem parte desta experiência: exibem-nos na Rede, sorridentes, ingénuos, desprovidos de filtros. Dão à luz, amam, protestam e morrem frente a uma webcam. Criam relações baseadas na horizontalidade, em parte porque as redes lhes inculcaram a convicção de que interagem com os seus pares, sem hierarquias”, observa a jornalista cubana.

 

Um perfeito retrato do nosso tempo em que se esbatem fronteiras entre informação rigorosa e mexericos destinados a estimular o voyeurismo mais primário. E no entanto, por mais fora de moda que seja, impõe-se remar contra a maré. Urge lembrar que cada cidadão tem assegurada protecção constitucional à reserva da intimidade da sua vida privada, um direito humano fundamental.

É preciso sublinhar isto todas as vezes que for necessário. Sem desistir.

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12 comentários

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De Rui Herbon a 26.09.2016 às 12:36

Isso, aliado a muitas outras situações de total desrespeito pelo outro, começa a fazer-me temer o futuro, porque não tenho qualquer esperança de que o caminho seja invertido. Antes pelo contrário.
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De Pedro Correia a 26.09.2016 às 14:08

Eis-nos mergulhados em plena distopia, quase sem darmos por isso. Um universo orwelliano não apenas esboçado mas já instalado, e que vai ganhando raízes cada vez mais sólidas de dia para dia.
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De Rui Herbon a 26.09.2016 às 14:21

Isso mesmo. Há certos futuros ficcionais que começam a parecer não só possíveis, como próximos, isto é, prováveis no meu tempo de vida.
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De Pedro Correia a 26.09.2016 às 14:39

Cada vez tenho menos dúvidas quanto a isso, Rui.
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De plinio a 26.09.2016 às 14:58

Em 1984 é o estado que cria a máquina e o monstro. Agora no facebook e outros que tais, há uma adesão voluntária de quem pretende expor-se. E quem se expõe a si próprio e só a si não pode ser impedido de o fazer. Portanto a questão com as redes sociais é um pouco diferente, parece-me, da imposição resultante de um organismo (estado) que impõe determinadas violações da privacidade.
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De Pedro Correia a 26.09.2016 às 15:04

Não digo o contrário. Mas as consequências - parece-me - serão muito semelhantes.
Um direito humano corre o risco de se tornar obsoleto. Basta isto para suscitar preocupação.
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De plinio a 26.09.2016 às 15:10

As consequência podem até a vir a ser as mesmas e com a agravante, de que, pode acontecer daqui a pouco tempo a tal máquina (estado) impor violações da privacidade baseando-se no facto de as pessoas voluntariamente se exporem e portanto, de forma ao menos tácita aceitarem tal violação. E nesse momento os cidadãos poderão até já não se oporem a tais normativos por entenderem que efectivamente se expõem voluntariamente. Aí sofrerão aqueles que mesmo com a possibilidade actual de se exporem não o fazem resguardando-se. Caso complexo sem dúvida.
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De Pedro Correia a 26.09.2016 às 16:19

É isso. Julgo, pois, que esta questão deve ser mais debatida. Há uma geração que nem sequer tem consciência do direito à privacidade. Como escreve a Yoani Sánchez, comportam-se como se esse direito tivesse caducado. Sem perceberem que é hoje mais necessário que nunca.
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De Ssssstress a 26.09.2016 às 15:06

Andy Warhol profetisou (muito antes de existirem as chamadas redes sociais):
"In the future, everyone will be world-famous for 15 minutes"
Hoje não há cão nem gato (eu por exemplo) que não se exponha com mais ou menos detalhe à vista de quantos queiram vê-lo.
Aquela ideia de: que falem bem ou mal de mim, pouco me importa; importante mesmo é que falem de mim.
Então onde cabem a indignação/repulsa actuais?
Ainda há quem duvide que as privacidades individuais perderam a validade?
É um erro pensar que o primeiro passo para a "desprivacidade" foi o número de contribuinte? Comparando, é igual à invenção da roda; depois disso o mundo nunca mais foi o mesmo, e nem sempre se modificou para melhor!
Cumprimentos.
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De Pedro Correia a 26.09.2016 às 15:09

Você é um péssimo exemplo da tese que pretende expor.
Alguém que assina Sssstress (peço desculpa se me falhou um s) seguramente não é pessoa que "se exponha com mais ou menos detalhe à vista de quantos queiram vê-lo[a]".
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De Ssssstress a 27.09.2016 às 21:20

Admito, sem quaisquer espécies de cinismos, ser um péssimo exemplo. Mas que quer? Não aprendi mais! Digo, falo e escrevo o que do meu pensamento emana.
Acredite que me sei limitado e, certamente por isso, nem sempre (ou quase sempre?) exponho correctamente o que sinto e desejo transmitir.
E sobre os "ss", não se preocupe (o que decerto não lhe aconteceu), porque não é por ter mais ou menos "ss" que me defino.
Adoptei esse nome como título para o meu blog e, em consequência, o nick name.
É nesse meu blog que me exponho? Não! O meu blog é somente onde exponho a espaços o que penso sobre assuntos que me rodeiam, sem pretensões nem preciosismos. (Acha que os blogs devam ter outra finalidade?).
Não é mais do que uma conversa à mesa de um qualquer café onde falamos sobre o que nos preocupa, e onde a importância das nossas opiniões não se reflecte em nenhum resultado prático. Opinamos simplesmente.
Não quero terminar sem lhe agradecer o facto de me ter respondido dando-me consequentemente a oportunidade de retribuir a atenção.
Cumprimentos.

* esclarecendo: é [vê-lo]
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De Pedro Correia a 27.09.2016 às 22:00

Eu respondo sempre aos comentários que me fazem. Parto do princípio que cada leitor merece essa atenção, concorde ou não com aquilo que eu escrevo.
Respeito naturalmente o pseudónimo de cada um. É livre opção não assinar com o nome próprio. Aliás curiosa opção neste tempo em que toda a gente se expõe a todo o tempo. Digamos que é algo contra a corrente, como de resto sublinho no meu texto.
Vá aparecendo por cá. E comente sempre que quiser.

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