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Conto de Ano Novo

por José António Abreu, em 31.12.14

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Os quatro homens e as duas mulheres deslizaram suavemente uns até junto dos outros e abraçaram-se. Um dos americanos mantinha o olhar no painel de instrumentos.

«OK. Já chega. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Os dois americanos trocaram um high-five. Os dois russos bateram no ombro um do outro e abraçaram a colega russa. A italiana, mais efusiva, fez questão de abraçar toda a gente.

«OK. Já chega. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Feliz Ano Novo!»

Excepto por uns quantos sorrisos, ninguém se manifestou. Um dos russos perguntou: «Dá tempo para abrir a garrafa?»

O americano que vigiava o painel abanou a cabeça. «Não. Ainda estamos em 2015 mas não vai durar.»

Ficaram todos em silêncio durante algum tempo.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«Cinco. Quatro. Três. Oh, que se lixe. Feliz Ano Novo.»

Ninguém se mexeu. Ouviu-se uma voz: «Alfa, tudo bem?»

O americano respondeu: «Tudo normal.» Depois acrescentou: «Da próxima vez abrimos a garrafa.»

Passaram alguns minutos. A italiana disse qualquer coisa sobre uma tradição milanesa. A russa comentou que em Vozdvizhenka os costumes eram mais asiáticos do que europeus. Um dos americanos perguntou: «Isso é mesmo ao lado da Coreia do Norte, não é? Como é que eles celebram a passagem do ano?» A russa não sabia. O outro americano disse: «Vêem The Interview na internet.» Os americanos riram, a italiana também.

Instalou-se o silêncio. Apesar do espaço ser exíguo, os três russos formavam um grupo ligeiramente à parte. Nas últimas semanas, os dois homens, pilotos da força aérea, vinham-se perguntando qual a forma adequada de lidar com os americanos, agora que os problemas na Ucrânia haviam levado não apenas a um arrefecimento nas relações entre os dois países como a uma crise económica na Rússia. A colega, engenheira, tendia a contemporizar. Dizia que a política não era para ali chamada.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«Feliz Ano Novo. Acho que podemos abrir a garrafa.»

O outro americano disse: «Mas a passagem ainda não é definitiva.»

Um dos russos disse: «Para a Rússia, é.»

O americano que anunciava as passagens replicou: «Essa é uma posição egoísta. Se era para ser assim, mais valia não nos termos reunido.»

O outro americano resmungou entre dentes: «E ainda faltam cinco meses.»

A italiana tentou contemporizar: «Alora, calma.»

O primeiro americano disse: «Podes falar. Itália também está quase. Aliás, já está.»

A italiana sorriu e levantou os braços, numa celebração irónica. O americano cedeu e deixou escapar um sorriso.

O russo que falara antes disse: «Estamos a demorar demasiado.»

A russa aproveitou: «Pois estamos. Fica para a próxima.»

«дерьмо», resmungou o colega.

O silêncio caiu de novo. A italiana teve a impressão de que passavam horas sem ninguém o voltar a quebrar. Evidentemente, tratava-se apenas de uma sensação.

«OK. Estamos de volta a 2014.»

 

«2015 outra vez.»

O russo mais impaciente pegou na garrafa.

«Cuidado com a rolha. E não deixes sair champanhe. Parece que no ano passado deu merda.»

A italiana sorriu. «Deve ser giro beber champanhe em suspensão no ar.»

«Pois. O problema é quando atinge os instrumentos.»

Tudo correu bem e o champanhe pareceu suavizar o ambiente - de tal modo que, bastante mais tarde, o americano que anunciava as passagens admitiu: «Raios, distraí-me. Estamos outra vez em 2014.»

Ninguém lhe ligou.

 

«2015.»

«Oh, cala-te.»

 

 

A Estação Espacial Internacional tem a bordo seis astronautas: dois russos, uma russa, dois americanos, uma italiana. Demora 92,74 minutos a dar a volta ao planeta, rodando com uma inclinação orbital de 51,65º. Como o movimento rotacional da Terra é bastante mais lento, na noite de passagem de ano a Estação vai ficando cada vez mais tempo em fusos horários que já se encontram no ano que entra, antes de voltar a fusos ainda no ano que sai. Isto se não me enganei na lógica da coisa. Em qualquer dos casos: Feliz Ano Novo, Happy New Year, Felice Anno Nuovo e С Новым годом.


12 comentários

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De Teresa Ribeiro a 31.12.2014 às 11:12

Ai que se me baralham os fusos! Bom Ano, JAA.
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De José António Abreu a 31.12.2014 às 11:58

Hoje não convém que se baralhem ou corres o risco de passar o ano no momento errado. :)

Bom Ano de 2015, Teresa.
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De Helena Sacadura Cabral a 31.12.2014 às 12:46

Jaa
Como sempre deliciei-me. No princípio, confesso, fiquei baralhada. Isto dos neurónios já funcionou melhor...Mas a meio comecei a compreender. E achei a ideia, a lembrança e a observação fancamente originais!
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De José António Abreu a 31.12.2014 às 14:33

Obrigado, Helena. Quanto aos neurónios, os meus também já funcionaram melhor - o que, considerando o ponto de partida, se torna muito mais preocupante. :)
Um excelente 2015.
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De João André a 31.12.2014 às 18:19

Excelente conto, adorei :). Agora ficaria a pergunta: se algum deles fizer anos a 31 de Dezembro, quantos anos tem quando passar o ano de forma definitiva (isto sem relatividade geral pelo meio)? ;)
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De José António Abreu a 31.12.2014 às 19:18

Er, assim de repente já não consigo lá chegar. Penso nisso em 2015 mas só quando todo o planeta lá estiver. :)

E obrigado. E um excelente ano para ti.
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De cristof a 31.12.2014 às 18:47

Excelente; e também o Ano Novo para todos nos delitos e fora.
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De José António Abreu a 31.12.2014 às 19:19

Obrigado, cristof. Um bom ano.
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De Patrícia Reis a 31.12.2014 às 20:14

JAA! Muito bom! Um grande ano:) beijo
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De José António Abreu a 31.12.2014 às 20:29

Obrigado, Patrícia (embora os pontos de exclamação - especialmente o primeiro - me façam ponderar se tanta surpresa não anula um bocadinho do elogio). :p

E que tenhas um excelente ano.
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De Patrícia Reis a 31.12.2014 às 20:35

JAA! Não é surpresa, é contentamento! E ainda não bebi nada, prometi. Um grande ano:)
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De Pedro Correia a 02.01.2015 às 16:27

Havemos de reunir uma colectânea de contos já publicados aqui no DELITO, JAA. É um projecto em que vale a pena pensar.
Bom ano.

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