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Complicar o que é simples

por Pedro Correia, em 28.09.18

atum-santa-catarina-acores-conjunto-6-conservas_66

 

Compro uma embalagem de lombos de atum em conserva. Bom atum, açoriano, da ilha de São Jorge.

Reparo no rótulo da embalagem: é um modelo de correcção política. Além dos elementos básicos, relativos aos ingredientes e ao prazo de validade, sou municiado com um estendal de "informação nutricional".

Energia.

Lípidos.

Lípidos saturados.

Açúcares.

Hidratos de carbono.

Fibras alimentares.

Proteínas.

Sem esquecer o sal. 

Mas não fica por aqui. Garante-me a pequena embalagem de atum Santa Catarina que o atum foi capturado com recurso a "pesca salto e vara": não percebo o português, mas devem querer dizer que o bicho não sofreu no momento da captura. Asseguram-me que o atum é "laborado manualmente": continuo sem entender o português, mas parece algo destinado a apaziguar por antecipação a minha suposta ira contra a morte de seres vivos destinados à alimentação humana, como se eu fosse um feroz militante animalista. 

O espaço é curto, mas os dados informativos estão longe de esgotar-se. "Pescamos artesanalmente à cana" e "protegemos os golfinhos", proclama ainda a simpática indústria conserveira de São Jorge.

 

Tudo numa simples lata.

Enquanto cozinho sem peso na consciência o meu prosaico esparguete de atum com molho de tomate e cogumelos, vou pensando que, de ansiedade em ansiedade, passamos hoje o tempo a complicar o que é simples. Depois não nos sobram horas, por vezes sequer minutos, para as coisas verdadeiramente importantes. 

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60 comentários

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De Pedro a 28.09.2018 às 10:55

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De Pedro Correia a 28.09.2018 às 21:19

Esta de mencionarem os golfinhos fofinhos na lata do atum, para acalmar as inquietudes animalistas, ainda não tinha visto.
Raios. Qualquer dia somos obrigados a ler autênticos testamentos impostos pela correcção política cada vez que compramos os produtos mais simples num supermercado.
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De Anónimo a 29.09.2018 às 17:48

Falta pouco para o frango assado ser servido com uma etiqueta a garantir que foi criado 'em liberdade' (free range), ou se foi 'oprimido e engaiolado' desde a nascença (desconfio que a maioria é oprimida). Para quem já experimentou mastigar uma perninha de frango do campo sabe que é preciso boa dentadura pois é rijo que se farta.
O ovos já têm um código a indicar se as pobres poedeiras gozaram ou não de alguma liberdade durante as suas curtas vidas. E aparentemente os ovos de galinha oprimida são mais baratos, o que leva a crer que a liberdade é mais cara...neste caso a liberdade dos galináceos ;o).
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De Pedro Correia a 01.10.2018 às 09:11

Não lhes dê ideias...
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De Luís Lavoura a 28.09.2018 às 11:04

devem querer dizer que o bicho não sofreu no momento da captura

Não. Querem dizer que o bicho foi capturado utilizando uma técnica que só captura os atuns e não uma técnica que captura e mata uma multiplicidade de outras espécies, destruindo a ecologia dos mares.

"laborado manualmente" quer dizer que a preparação do atum fornece emprego a uma data de gente, em vez de ser toda feita por máquinas e não dar emprego a quase ninguém.

passamos hoje o tempo a complicar o que é simples
Não há complicação nenhuma. Só lê essas informações quem quer e quem as acha relevantes. Se a preocupação do Pedro Correia fôr apenas o preço (esse atum é do mais barato, para a qualidade, que cá se vende), como é o caso da maior parte dos portugueses, pode omitir ler.

(Já agora, considero um desperdício utilizar filete de atum para misturar no esparguete. Se é para comer em pedacinhos no meio de esparguete, mais vale comprar atum em posta, que fica a metade do preço.)
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De Pedro a 28.09.2018 às 14:38

Atum ao Natural
Continente

emb. 120 gr
€ 0,79 /un


Filete de Atum com Funcho
Santa Catarina
emb. 120 gr

€ 2,99 /un

Atum Posta em Óleo Vegetal
Bom Petisco
emb. 120 gr

€ 1,59 /un
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De Anónimo a 02.10.2018 às 10:42

Nao exagero se disser que os produtos com origem na fábrica Santa Catarina, na ilha de S. Jorge, Açores, são o Rolls Royce da industria conserveira em Portugal. A restante industria está a léguas desta qualidade. E então os lombos de atum.
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De Anónimo a 02.10.2018 às 15:17

Vejo que não conhece a industria conserveira na totalidade.

que a producção da Santa Catarina seja exelente, sem duvida. mas existe pelo menos uma fabrica em Portugal Continental que produz tão bem ou melhor que.

Quem produz qualidade, raramente está na grande distribuíção ;)
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De Anónimo a 29.09.2018 às 15:12

inda se pode arrotar postas de pescada?

ou ja ta regulametado?
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De Pedro Correia a 29.09.2018 às 15:14

De pescada, é conforme. De golfinho, nem pensar.
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De Anónimo a 02.10.2018 às 15:14

grande Sr. Luís. curto, conciso e honesto.

tudo em duas frases !

relativamente ao ultimo comentário, sobre o desfazer o atum, costumo usar a seguinte comparação com os meus amigos :

"se compramos bons bifes, não chegamos a casa e trituramos para fazer hamburgueres, certo ?"
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De Marta Spínola a 28.09.2018 às 11:51

Pouca lata muita conversa, é caso para dizer.
Fiquei foi com apetite.
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De Pedro Correia a 28.09.2018 às 21:21

Caso para dizer isso mesmo, Marta.
É fácil, cheira muito bem enquanto cozinhamos e sabe ainda melhor.
E podemos comer sem remorsos o atum porque não fizeram mal aos golfinhos.
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De xico a 28.09.2018 às 11:59

E a receita?
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De Pedro Correia a 28.09.2018 às 21:21

A receita é muito fácil. Qualquer dia lanço uma série de receitas aqui. Depois das estátuas.
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De Pedro a 28.09.2018 às 21:33

Pedro, já agora aproveito. Veja se gosta:

https://www.youtube.com/watch?v=unBbM8jM38Y
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De Pedro Correia a 28.09.2018 às 21:41

Eheheh. Cuidado com as patrulhas feministas. Ainda o cozem de cebolada...
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De Anónimo a 29.09.2018 às 14:16

Por favor, não passe receitas do Cutileiro!

Bom apetite atunado.

Que vinho aconselha?


Amendes
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De Rão Arques a 29.09.2018 às 17:19

O Expresso anda aí.
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De Anónimo a 28.09.2018 às 12:04

Nunca vivi no estrangeiro, por isso não sei se o mesmo se passa por outras bandas.
Aqui, sei eu, que sistematicamente e em tudo, se troca o essencial pelo acessório.
João de Brito
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De Pedro Correia a 28.09.2018 às 21:22

É mesmo isso: adoramos trocar o essencial pelo acessório.
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De Anonimus a 28.09.2018 às 13:47

A arte de pesca usada especifica que é (legal) usada para apanhar os bichinhos propositadamente, ao invés do arrasto, por exemplo.
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De Pedro Correia a 28.09.2018 às 17:50

O drama, a tragédia, o horror. Ainda assim os bichos sofrem. E não deve ser pouco.
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De Anonimus a 28.09.2018 às 20:29

Drama e horror não sei, mas Lei haverá alguma.
Como o Pedro sabe, cada embarcação não pode apanhar o número de atuns que lhe apetece, nem com as artes com que lhe apetece, nem onde lhe apetece...
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De Pedro Correia a 28.09.2018 às 21:24

Bem sei. É como as sardinhas e os "jaquinzinhos": há que assegurar a renovação das espécies.
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De lucklucky a 28.09.2018 às 14:44

Dê graças por ainda comer atum,
Espere até os Marxistas colocarem os animais que comemos como Classes Protegidas.
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De Pedro Correia a 28.09.2018 às 17:49

Isso é que é a luta de classes?
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De Anónimo a 28.09.2018 às 16:18

Falta a descrição da morte de tomates e cogumelos.Arrancados, decapitados,frigidos talvez com cebolas e alhos no mesmo tormento.
Na sua cozinha!
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De Pedro Correia a 28.09.2018 às 21:22

Qualquer dia só dá mesmo para comer tremoços. E mesmo assim...
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De V. a 28.09.2018 às 19:46

Uma das vantagens de estar vivo é que podemos dizer o que quer que seja que logo a seguir aparece o Lavoura a fazer as correcções necessárias naquela ortografia suburbana que caracteriza tão bem o regime. Não conheço nenhuma outra vantagem de estar vivo.
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De Pedro Correia a 28.09.2018 às 21:42

Prova evidente de que ainda somos, em certa medida, um país rural.
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De Manuel a 28.09.2018 às 23:01

Se calhar deviam dizer que a empresa que processa essa conserva é neste momento uma empresa 100% pública, regionalizada por causa de então estar prestes a fechar as suas portas devido a estar mais do que completamente endividada, mas que depois de estar ligada directamente aos cofres públicos, consome impostos para poder andar no mercado vendendo farsas enlatadas juntamente com pedaços de atum e alguns líquidos.

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