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Como se o tempo ficasse suspenso

por Pedro Correia, em 30.04.16

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Um pisa-papéis, um mata-borrão, um selo de correio: três inesperados objectos defronte de mim. Todos, na minha infância, tinham uso quotidiano. Tal como o tinteiro para caneta de aparo ou a lousa onde se escrevia a giz.

Passaram uns anos - mas parece ter decorrido uma eternidade. Estes objectos tornaram-se peças de museu e vários deles são hoje quase incompreensíveis para uma geração viciada em gadgets electrónicos, que nunca brincou ao pião ou não faz a menor ideia para que serve um dedal.

Tempos agitados, vertiginosos, de uma volatilidade estonteante. Os objectos mais familiares no quotidiano dos nossos avós pareciam vir desde os alvores da Humanidade, davam um toque de permanência num mundo que só era verdadeiramente sobressaltado por factores exógenos - uma guerra, um ano de más colheitas no campo, uma epidemia. Nada a ver com o frenesim actual, em que tudo é novidade - e em que o próprio conceito de novidade se vai alterando e adulterando em função da espuma dos dias. Os objectos que nos preenchem o quotidiano - como muitas palavras que usamos, como os nossos próprios laços afectivos - têm uma vida cada vez mais breve, um fôlego cada vez mais curto, um prazo de validade cada vez mais exíguo.

Pegue-se num livro de Camilo Castelo Branco: como decifrar o significado de uma grande parte daquele português castiço na era da incessante troca de mensagens telefónicas, onde o domínio vocabular é cada vez mais escasso e a abreviatura predomina? Consequência disso, o pensamento comprime-se, torna-se esquemático e utilitário, perde elasticidade e subtileza, passa a satisfazer apenas impulsos imediatos. Toda a elaboração teórica sedimentada por séculos de cultura no mundo ocidental se torna virtualmente incompreensível nestes dias em que o significado se subordina ao mais elementar significante.

                            

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Felizmente o sol ainda não é sintético e high tech. Este sol que entra no escritório pela frincha da janela é o mesmo que os nossos mais remotos antepassados contemplaram com espanto virginal à medida que se sucediam as estações e em relação ao qual vários povos acenderam altares votivos.

Com este sol oblíquo que me ilumina pego num corta-papéis - outro objecto que ficou sem uso - e vou abrindo lentamente dois livros que há muito tinha adormecidos na biblioteca: Sobre as Falésias de Mármore, de Ernst Jünger, e O Escravo, de Isaac Bashevis Singer.

As páginas desfolham-se com um vagar antigo enquanto regresso às tardes da minha infância noutro escritório, o do meu pai, enquanto executava exactamente a mesma operação a vários livros por inaugurar que ia encontrando nas estantes. Foi uma das primeiras tarefas graves e sérias, dignas de um adulto, que me lembro de executar no meu universo infantil. Uma tarefa que me ajudou a mergulhar, quase por acaso, no mundo dos livros.

Regresso a ela com o vagar de então, ocasionalmente revivido. Como se o tempo ficasse suspenso e os rumores do mundo mais não fossem do que um eco distante, dissolvido no ar do outro lado da porta.

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12 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 01.05.2016 às 19:59

Se há coisa que gosto de fazer, é revisitar a gaveta do passado, cheia de cédulas pessoais, diplomas de exames, licenças de isqueiro... fazem-me sorrir e relembrar situações e pessoas que enriqueceram os dias que já foram.
O meu pai emprestou-me a sua Sheaffer preta de aparo dourado para o exame da quarta classe; era daquelas que já se podiam encher e levava comigo um tinteiro Quink novinho em folha. Primeiro que tudo, qual artista de origami, tinha que dobrar a folha de trinta e cinco linhas de modo que a pestana do lado direito ficasse absolutamente direita e impecável. Depois pegava na folha do mata borrão cor de rosa e colocava-a paralelamente ás linhas da folha da prova, de modo a que nela pudesse apoiar a minha mão para não borrar a escrita. Começava então o desenho artístico das letras, numa caligrafia bonita e certa, que aprendera exaustivamente num caderno de duas linhas... Tive 20 valores. Deram-me beijinhos e fomos à Veneziana dos Restauradores comer cassata.
Falar de livros é emocionante e ao mesmo tempo triste. Poucos são os que exultam perante um livro novo, com cheiro a papel e a tinta de impressão. Os e- books ocupam menos espaço, não precisam de marcadores e se se tornam chatos, chama-se a resenha.
O prazer da leitura é algo que se conhece vagamente. Há demasiada informação. Não que eu prefire que se sonegue informações , mas há que separar o trigo do joio e informação demais chega a raiar a desinformação totalitarista.
Aborrece-me ler jornais. Longe vai o tempo em que lutávamos e desordenávamos as páginas das notícias. Presentemente 50% é lixo publicitário, 20% opiniões subjectivas, 10% informações de serviço público e por fim algo legível e interessante, que se perde num apontamento ou num pequeno editorial.
Por fim, Camilo é fantástico de ler.
Com uma historiadora em casa, ler textos de Paleografia também dá um certo gozo :)
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De Pedro Correia a 03.05.2016 às 22:31

A Sheaffer preta de aparo dourado, um tinteiro Quink novinho em folha, um papel de 35 linhas, a folha do mata-borrão: todas estas evocações me tocam também. Prova de que a nostalgia - felizmente - ainda é o que era.
Gostei muito desta sua digressão por um passado feliz - que de algum modo podia ser também o meu, Dulce.

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