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Delito de Opinião

Como se o país fosse uma mesa de matraquilhos

Pedro Correia, 07.12.21

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Vivemos tempos auspiciosos para os alarmistas das mais diversas tendências. O alarmismo hipocondríaco, o alarmismo populista, o alarmismo securitário, o alarmismo-porque sim. Uma nova estirpe do coronavírus irrompeu agora a partir do extremo sul do continente africano – e foi quanto bastou para soarem campainhas de alarme e haver alterações de todo o género no alinhamento dos telediários. A SIC chegou a abrir o Jornal da Noite com a assombrosa notícia de que tinha sido detectado «um caso da ómicron na Europa». Eis como uma andorinha é mesmo capaz de fazer a Primavera – em pleno Outono.

Esta nova vaga pandémica, no meio de mil inconvenientes, tem uma vantagem: obriga-nos a conhecer letras gregas num momento em que tanto o idioma helénico como o latim, bases da língua que falamos e escrevemos, estão banidos dos nossos currículos oficiais. Tal como em 2011, quando Portugal ficou sob intervenção financeira externa, fizemos aprendizagem intensiva dos rudimentos das teorias económicas e em 2020 nos tornámos quase-especialistas em virologia e epidemiologia, há agora, dia após dia, milhares de pessoas a fixarem que ómicron é a 15.ª letra do alfabeto grego. Em manifesto benefício da cultura geral.

Com esta variante recém-surgida, quase não se tem falado noutra coisa. Nisto, pelo menos, a SIC supera a concorrência: no domingo destacava que haviam sido detectados «dois casos em passageiros» por via aérea na Austrália. Que não é apenas um país, mas um continente. Será motivo para mandar parar as máquinas e cessar tudo quanto a musa antiga canta, com os telespectadores presos ao sofá? Parece que sim. Faz subir audiências, dizem. E canal televisivo sem audiências é como jardim sem flores.

 

Por falar em audiências: nada como a bola para puxar por elas. Que o diga a CMTV: ia o serão de domingo já muito adiantado, com o triunfador da eleição interna do PSD a subir enfim ao púlpito para proclamar o que lhe ia na alma, quando este canal cala o bico a Rui Rio. Algum sismo, algum fogo, alguma inundação algures? Não: para dar tempo de antena ao sujeito que lidera uma agremiação intitulada B-SAD, inscrita no campeonato nacional de futebol. Ainda mantiveram por instantes o ecrã dividido, mas o tal sujeito impôs-se. Curiosa ironia: Rio venceu no PSD, mas perdeu na CMTV.

Dizem que o jornalismo, para ser fiel aos parâmetros clássicos, deve seguir o princípio da pirâmide invertida: dar mais relevo à base e desconsiderar a cúpula. Em Portugal, a regra assenta noutra figura geométrica: a esfera. Vários canais temáticos dedicam-se só a isto enquanto os generalistas se deixam contaminar em grau crescente pela bola a rolar à flor da relva e pelo jogador a chutar com o pé que tem mais à mão.

Contendas políticas? Debate ideológico? Futuro do país? Que monumental chatice: importa é o bate-boca do desporto-rei. Venerado por milhões de republicanos. Como se Portugal fosse uma enorme mesa de matraquilhos. Pode não ser, mas até parece.

 

Texto publicado no semanário Novo

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