Como se a insinuação fizesse lei

Devia haver limites, mas não há. Todos os dias vemos a fronteira do inaceitável ser alargada. Isto não pode acontecer sem uma palavra de indignação. E de revolta.
Ontem, num canal de televisão, assisti durante quase meia hora a uma sessão de linchamento público de João Cotrim Figueiredo. Pelo "crime" de ser homem - sendo-lhe interditado, assim, o princípio constitucional da presunção da inocência. Com a agravante de isto ter ocorrido a pouco mais de 24 horas do encerramento da campanha eleitoral, sendo ele candidato a Presidente da República.
Uma senhora que integrava um painel de comentadoras atirou o antigo líder da Iniciativa Liberal para a fogueira mediática com estas palavras que reproduzo com exactidão, ainda nauseado:
«Nós sabemos como normalmente os assediadores reagem. Por exemplo, aquilo que Cotrim Figueiredo fez, e que é absolutamente indigno num candidato a PR, é dizer "Eu vou processar esta mulher." Isto é: usa o sistema judicial contra mulheres que fazem denúncias. O último político que eu me recordo que andou a processar pessoas incómodas foi José Sócrates. Isto não é normal. Não é normal um político calar vozes com processos judiciais. Este processo-crime que Cotrim está a fazer é um daqueles claros objectivos de silenciar as mulheres e de - isto é profundamente indigno num candidato a PR - criar um ambiente de silenciamento e punição para mulheres que sofrem de violência.»
Sem contraditório.
Sem se ouvir um leve sussurro de estupefacção à volta daquela mesa.
Sem um sinal de demarcação de palavras que negam a essência do Estado de Direito.
Cotrim é homem - logo, é suspeito. Tem de comer e calar. Sem reagir, sem recorrer aos tribunais, quando alguém o visa com palavras que ele considera caluniosas e difamatórias.
Horas depois, noutro canal televisivo, felizmente pude ouvir outra voz feminina - esta sensata e serena. A de Helena Matos, que se pronunciou assim sobre o mesmo tema:
«Nós não estamos a falar de acusações [de assédio sexual], porque não foram apresentadas queixas. Estamos a falar de insinuações, coisa bastante diferente. A palavra de um homem não vale mais do que a de uma mulher, e vice-versa. Muito provavelmente este tipo de acusações vai gerar indiferença, porque nada disto é formalizado em queixas. Não estamos a falar de uma pessoa que está a denunciar uma Máfia, que corra risco de vida. Neste tipo de insinuações é palavra contra palavra. Portanto, quem tem uma palavra tem de aparecer.»
Pela minha parte, seria mais cómodo ficar calado. Podia fingir que não ouvi aquele hino ao ódio sexista, contra um homem que bem conheço, a propósito das insinuações de que anda a ser alvo há quatro dias sobre supostas denúncias já desmentidas por Rui Rocha e Mariana Leitão, que lhe sucederam na liderança da IL.
Seria mais cómodo, mas não o faço. Porque uma fogueira acesa soa-me sempre a sinal de alarme. Pode transformar-se num incêndio de vastas proporções.
Não quero viver jamais numa sociedade onde alguém é obrigado aos gritos a provar a sua inocência em vez de ser quem acusa a fornecer provas irrefutáveis de culpa alheia. Como se a insinuação fizesse lei.
Os regimes totalitários começam assim - atirando às urtigas direitos básicos de qualquer cidadão, tenha o sexo que tiver.

