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Confesso: é penoso assistir a “noites eleitorais” dominadas por tudólogos que nada percebem sobre coisa nenhuma mas são capazes de perorar horas a fio sobre não importa o quê. Voltou a acontecer nesta longa emissão televisiva em que se sucediam as mais assombrosas declarações de ignorância sobre a vida real dos Estados Unidos proferidas por gente que observa o mundo pelo buraco da fechadura do eixo Chiado-Príncipe Real.

Com honrosas excepções (das quais destaco Miguel Monjardino e Nuno Rogeiro), nesta longa noite americana, que foi a do naufrágio eleitoral do Partido Democrata, assistimos ao triunfo da ignorância, incapaz de perceber as causas políticas e sociológicas da vitória de Donald Trump e do esmagador domínio do Partido Republicano – que venceu as eleições para a Casa Branca, para o Senado, para a Câmara dos Representantes, para a maioria dos parlamentos estaduais e para a maioria dos governadores que foram a votos.

Sucediam-se banalidades na pantalha. “Os Estados Unidos são um país muito grande”, balbuciava Fulano, preenchendo tempo de antena antes da contagem dos votos. “Normalmente as sondagens nos EUA não falham”, alvitrava Beltrano enquanto os boletins eram contabilizados. “O partido que neste momento tem mais problemas é o Republicano", asseverava Magano, recém-aterrado de Marte. "Ninguém estava à espera que uma coisa destas acontecesse”, escandalizava-se Sicrano após o apuramento dos resultados, passando um atestado de incompetência a si próprio.

Para cúmulo, foram buscar um "especialista em sondagens” que, incapaz de acertar na maioria das pesquisas de opinião que tem feito em Portugal, surgiu nos ecrãs como putativo connaisseur da sociologia eleitoral norte-americana. Tinha o currículo adequado para falhar. E falhou mesmo: pouco depois da meia-noite apresentava ao País um mapa com os Estados do  Michigan, da  Pensilvânia e do  Wisconsin pintados de azul – a cor do Partido Democrata. Infelizmente para ele, a realidade encarregou-se de o desmentir.

Nada a que não esteja habituado.

Do mal o menos: sobre a Virgínia esta sumidade não se pronunciou. “Só conhecendo a Virgínia bem, que eu sinceramente não conheço”, justificou-se. Como se conhecesse algum dos outros 49 Estados norte-americanos.

Hillary Clinton, claro, foi a grande derrotada da noite eleitoral. Mas não está só: tem a companhia destes tudólogos. São em número cada vez maior: mal cabem na bolha do Chiado onde se imaginam a recriar o mundo.

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20 comentários

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De Luís Lavoura a 09.11.2016 às 11:42

Hillary Clinton, claro, foi a grande derrotada

Não nego isso, mas constato que, segundo as previsões (a contagem ainda não acabou), ela terá mais votos que Trump. Foi derrotada pelo sistema eleitoral.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 12:11

Nisto Hillary foi vencedora, por números esmagadores: em peças de "análise política" que antecipavam que ela iria vencer.
http://observer.com/2016/06/hillary-clinton-will-win-by-a-landslide-against-donald-trump/
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De JSC a 09.11.2016 às 11:44

Mais valia convidarem me a mim ehehe. Em previsões sou muito bom lol (se calhar porque sou do povo).
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 12:09

E se calhar até conhece a Virgínia. Eu em tempos conheci uma, chamada Virginia Woolf.
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De JSC a 09.11.2016 às 12:40

A comunicação social serve os interesses que lhes bem preza (a carteira) e enquanto for assim não há nada a fazer.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 12:43

Alguns repórteres no terreno abusaram, transformando primeiro as reportagens em editoriais e transformando depois esses editoriais em comícios.
Mais logo, se tiver tempo, falarei disso aqui. A propósito das televisões portuguesas.
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De lucklucky a 09.11.2016 às 11:52

Alguém em Portugal escreveu uma peça sobre o desastre que é o Obamacare?

Qualquer pessoa que não seja jornalista de esquerda ou idiota útil de direita na qual a maior preocupação é ser aceite pela esquerda jornalista já teria dado à muito pela quantidade enorme de eleições locais que Obama perdeu ao longo dos 8 anos de mandato.
Obama foi um dos Presidentes Democratas que mais perderam lugares no Senado e no Congresso.
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De rmg a 10.11.2016 às 00:18


Por acaso é um assunto que tenho acompanhado com atenção e é um dos maiores erros que alguma vez foi cometido por lá tendo em conta que o sistema de saúde é o que é.
Mas é apresentado aqui na Europa como uma coisa brilhante.

Não resisto em trazer-lhe aqui uma excelente definição de Ben Stein:

"Fathom the hypocrisy of a government that requires every citizen to prove they are insured...but not everyone must prove they are a citizen."
"And now, any of those who refuse or unable to prove they are citizens will receive free insurance paid by those who are forced to buy insurance because they are citizens."

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De Pedro Correia a 10.11.2016 às 23:38

Não é brilhante, de facto. Muito longe disso.
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De am a 09.11.2016 às 11:55

Por favor, não diga mal do "nosso" tudólogo de estimação:

Ele previu que este ano o Sporting , será campeão europeu.

Meu caro: - Nem todos os tudólogos são obrigados a conhecer a Varginia, alguns nem sequer sabem onde fica! !
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 12:05

Ele talvez venha a dedicar-se à pesca à truta no Michigã, nome que mais vezes pronunciou durante a noite. E revelou-se quase íntimo de uma tal Ilarí.
Hilariante.
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De Anónimo a 09.11.2016 às 11:57

"tem a companhia destes tudólogos.". Bem, e a minha. E a de milhões de pessoas por esse mundo.
O verdadeiro tudólogo é o Senhor Pedro Correia. Pois acertou no prognóstico. Foi prudente: só o apresentou no fim do jogo como aconselhou há anos um ilustre intelectual da nossa praça.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 12:11

Fatal como o destino. Não há reportagem televisiva sem o Emplastro, nem 'post' sem o Anónimo.
Cá está ele.
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De JS a 09.11.2016 às 12:06

Uns ganham outros nem por isso.
Entre os que ganham, sempre, temos as agências de sondagens de opinião pública. Basta entregar ao cliente um papel a dizer o que ele quer publicar.
Os tudólogos apenas fazem parte do "establishment".
Não creio que o ainda PR Obama se vá inscrever no desemprego, no início do ano.
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 12:19

Nem por sombras, a avaliar pelos precedentes. Segundo a 'Economist', Bill Clinton e Hillary Clinton receberam 154 milhões de dólares por 728 palestras desde que deixaram a Casa Branca como casal presidencial.
Não podem queixar-se de ser mal pagos...
http://www.economist.com/news/united-states/21707936-clintons-activities-outside-politics-are-both-inspiring-and-worrying-bill-and-hillary

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De Anónimo a 09.11.2016 às 12:19

O que aí vem eu não sei.
O futuro a deus pertence e eu não tenho fé.
Mas sei duas coisas:
1. Os tudólogos e tudo o resto não se limitam a errar. Erram sempre para o mesmo lado. As sondagens foram mais uma fraude monumental, uma manipulação vergonhosa e total. O establishment é a mais feroz e eficaz ditadura de que há memória, por razões que me dispenso enumerar, mas que passa pelo facto de sermos uma sociedade de comunicação, detida pelos interesses dominantes. Quando faço declarações deste tipo, vêm-me invariavelmente com o argumento: “Nas ditaduras clássicas não poderias dizer isso”. Mais uma fraude: de que vale o que eu digo?! Mais: de que tem valido o meu voto?! A propósito, vem-me à memória o que ouvi de um colega em plena ressaca do 25Abril: “Pronto, agora já podemos ir a Moscovo… o que de nada me vale, se não tiver dinheiro para a viagem.”
2. O Trump ganhou em toda linha. Se pudesse acreditar em tudo o que dele se tem dito, e já vimos porque não, estaria preocupado com o que ele vai fazer. Mas prefiro focar-me numa certeza: esta vitória, no santuário da dita democracia, contra tudo e contra todos, é um tremendo abalo num regime que, por cá, muita e boa gente continua a defender como se não houvesse amanhã e a história acabasse aqui. É um pouco como se o papa renegasse o mistério da santíssima trindade. E é caso para dizermos que ainda há gente mais papista que o papa.
João de Brito

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De JSC a 09.11.2016 às 12:39

Interessante verificar que foi por causa do sistema não ter deixado o Bernie Sanders ganhar as primárias que o partido democrata perdeu. Vai levar a uma grande reflexão no seio do partido e espero que agite as hordas de lobbies instalados no partido que representam tudo o que os apoiantes de Bernie (agora Trump, verificando que apesar de terem ideias diametralmente opostas recebem alguns dos mesmos apoios, que é o americano que perdeu lugar nas fábricas que foram para o México, China...) contestavam e não foram capazes de apoiar.

No fundo, os americanos queriam algo novo, tentaram, foram cortados pelos lobbies, portanto fizeram o pacto com o desconhecido, mas que foi capaz de dizer na cara dos CEO's das Chevrolet's, etc que se vão fazer carros para o México, para os trazer para cá têm de pagar 35% de imposto.

A globalização como está a ser efectuada não beneficia toda a gente, por isso nem toda a gente quer, aliás os grandes beneficiados deste sistema são as elites e não o trabalhador comum (basta ver o gráfico da distribuição de riqueza ao longo das décadas).

Agora falta saber se o Trump cumpre o que diz (ainda tenho dúvidas sobre algumas coisas).
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De Pedro Correia a 09.11.2016 às 12:50

A globalização tem alterado as grandes dicotomias ideológicas do mundo ocidental.
Isso ficou bem evidente no Brexit. E também agora, nos EUA. Não por acaso, cerca de 20% dos potenciais votantes de Sanders terão votado Trump:
https://newrepublic.com/article/127442/explains-trump-sanders-crossover-vote

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