Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Como estamos

por José Meireles Graça, em 24.07.19

Em resumo: António Barreto faz parte, e é porventura o membro mais ilustre, de uma variedade de pensadores muito respeitada, que são os que pairam. Desprezam os actores políticos, fugindo como da peste de manifestar preferências; quando se dizem de direita não cessam de a criticar, ao mesmo tempo que dizem coisas compreensivas e simpáticas para a esquerda; e quando se dizem de esquerda guardam para ela uma compreensível tolerância, não se esquecendo nunca de malhar na direita. São com frequência professores universitários, acham que essa condição lhes dá uma lucidez que escasseia ao comum dos cidadãos, leram quatro livros e planeiam, nas próximas férias, ler cinco. E nunca se dão ao excessivo trabalho de dizer como se faz

Gente céptica como eu é bem capaz de ir ao ponto de pensar que não dizem porque não sabem.

Isto escrevi há um ano. E hoje, onde estão os pairadores? Já lá vamos. Vejamos primeiro como está a situação política.

Está assim: Há os comunistas, que querem, com crescente descaramento, guinar para 1975; há os bloquistas, que querem guinar para 1975 dentro da EU, numa sopa que inclui o feminismo, o aquecimento global e causas sortidas dos pobres contra os ricos e dos fracos contra os poderosos; há a direita do CDS de Cristas, que quer agradar muito às donas de casa e acha que, para governar o país, convém ouvir o papa Francisco; há o PSD de Rio, que quer disputar os favores do PS para reformar a Justiça e promover a regionalização; há o PS de Costa, que quer continuar a ter carro com motorista e lugares no aparelho de Estado para todos os que segurem o andor do poder socialista; e há, discretamente, os que estão no Movimento 5.7, isto é, toda a direita democrática que está farta de socialismo, seja nas versões hard seja na light, e de fazer vénias, na teoria e na prática, aos pairadores de serviço e aos mandarins da opinião. Esta direita votará disciplinadamente nos seus partidos de origem, ou ficará em casa, e levantará a monstruosa cabeça da hidra do fascismo em devido tempo. O seu líder natural é Passos Coelho, e o futuro dirá se o próprio quererá um regresso.

Tudo leva a crer que o PS ganhará as eleições, aventando-se até que o faça com maioria absoluta. E como não é impossível que uma reedição da geringonça tenha dois terços dos deputados, fala-se de revisões da Constituição. O próprio Costa, num “discurso” recente, mencionou a possibilidade dessa revisão para permitir tribunais especializados, no caso para tratar do crime de violência doméstica, o que, dado o evidente disparate da medida, causou grande comoção.

Calma: O PS de Costa, e o próprio, não têm outras convicções que não sejam a pertença à EU, o respeito formal pela democracia, os benefícios para a comunidade de preencher todos os interstícios do poder com pessoal da casa, e a crença inabalável nos poderes demiúrgicos do Estado para promover o desenvolvimento. Ora, dada a personalidade manhosa do PM e a sua flexibilidade táctica, consequência de uma quase completa ausência de escrúpulos, o regime só correria um verdadeiro perigo, através de revisões constitucionais, se Costa precisasse de ceder completamente ao PCP e ao Bloco para se manter no poder, e mesmo assim apenas no caso de Bruxelas dar luz verde a tais cambalhotas. Ou seja: o preço da reeleição de Costa é o deslizar suave do país para os últimos lugares do desenvolvimento na EU, na senda do que aconteceu neste mandato, e não um qualquer perigo para o regime. Isto se entretanto não chegar o diabo, caso em que, por o país de modo nenhum estar mais sólido para resistir a crises, Costa e a sua entourage irão para o caixote de lixo de onde, desde Sócrates, nunca deveriam ter saído.

Nada está perdido, portanto, batalhas não são guerras. E mesmo que nas próximas eleições eu vote no CDS, pelas mesmas razões que me levaram a votar nas anteriores, entendo que a vitória das esquerdas vai facilitar uma desejável clarificação. Tenho poucas dúvidas sobre os contornos de que ela se deve revestir, mas o assunto é inoportuno: no fragor de uma batalha, não deve o soldado dizer ao camarada que não tem a farda nas melhores condições.

Então, e os pairadores? Confesso: este post era originalmente para cascar num texto capcioso de Vera Maria Gouveia Barros, sobre o caso Bonifácio, que obteve grande aplauso junto daquela classe. Mas fica para outra maré, que sei por experiência que ninguém lê até ao fim textos com mais de duas páginas.


7 comentários

Sem imagem de perfil

De Vento a 24.07.2019 às 21:55

Sabe, Meireles Graça, esta merda começou mal nos idos anos 80 do século passado onde as vitórias ocorriam por via dos fundos vindos da Europa e pela falta de visão futura que nós, cegos, aceitámos que existisse. No fundo no fundo, e sem ir bem fundo, permitimos que cegos guiassem cegos.
Eu vi muitos ilustres pensadores e sabedores mostrar que muito sabiam enquanto o império BES existia; e depois que caiu não voltei a ver a cara de nenhum. Mas não só por este ter caído.
Passe esta deriva, dou sequência ao pensamento:

Esses mesmos fundos vindos da Europa ajudaram a fazer dinheiro e a "criar riqueza" em muitos dos que se dizem ou diziam empresários. Razão pela qual, com o desenrolar dos anos, por várias vezes me interroguei se era o dinheiro que fazia empresários ou se os empresários é que faziam dinheiro. Entenda-se "dinheiro" no sentido de riqueza.
Nestas interrogações conclui, fruto dos números disponíveis e dos resultados evidentes, que a economia nacional era (é) fundamentalmente oportunista e teologicamente dependente do deus estado e da deusa política. O imobiliário e a especulação que neste sector se desenrola(ou) atesta o que em geral foi regra.

E se algo nos demonstrou este status quo, foi que nesta matéria a diferença que reside entre o estado corporativista de Salazar e o corporativismo pós 25 de Abril está somente na dimensão, isto é, no aumentado número de corporações. Digamos que este corporativismo foi menos discriminador que o anterior, mas tão opressor e originador de miséria quanto aqueloutro.

Acontece que, após o período referido no primeiro parágrafo deste comentário, um outro esboço de corporativismo, que designo por transnacional, estabelecia, como contrapartida ao regabofe que se iniciava, a dependência futura do povo.
Portanto, perante os factos, falar-se em governo Cavaco, ou governo Sócrates, ou governo Passos ou Governo Costa e Cia. Lda. é um eufemismo que eu uso para evitar palavras indecorosas que também fariam compreender que uma nação foi (é) vendida através de um mercantilismo bacoco.
Aliás, esse mesmo estilo tinha sido ensaiado com países terceiro-mundistas, em particular na América Latina, e fez emergir tudo quanto sabemos a este respeito.
Devido à intervenção da China, a atitude tem sido mais elegante até mesmo em países africanos. E digo "até mesmo", por ser em países africanos cuja regra governativa também se conhece. Infelizmente para os povos africanos, tal como para os povos na Europa.

Li com bastante atenção seu post e anexos, e concluo este comentário dizendo: Costa convence-se que o malabarismo palavroso consegue encobrir sua ineficiência. Por mim está dispensado juntamente com as machistas do BE e os protectores de pulgas da PANificadora.

Imagem de perfil

De Vorph "ги́ря" Valknut a 24.07.2019 às 22:59

Vento, isto está mal desde D. João III (não estou a ser irónico). Não foram os reis fracos que fizeram fraca as gentes. Sei lá, não acreditando nos essencialismos genéticos dos povos, talvez a culpa se ache nas estrelas (o que dizia a carta astrológica de Pessoa?)
Imagem de perfil

De Vorph "ги́ря" Valknut a 24.07.2019 às 23:33

"O poeta e também amador da astrologia pressagiou um momento de grande escuridão para Portugal, uma espécie de descida aos infernos, num período anterior a 2088. Só depois desta data, o país começaria a ‘acordar’. "

Sem imagem de perfil

De Vento a 25.07.2019 às 11:03

Sobre D. João III não existe consenso histórico, e a(s) crise(s) em seu reinado estão muito longe de se comparar ao que hoje se constata. Como me referi a crises em seu reinado, dá para entender que ainda tínhamos rei. Agora nem rei nem roque.
Melhor é migalha de rei que mercê de senhor.

Isso da escuridão tem que ver com a crise energética: já vai faltando combustível que acenda as mechas. Se o feminismo avançar, acaba-se a luz. Lá se vai a torcida.
Sem imagem de perfil

De Justiniano a 25.07.2019 às 08:52

Não acrescentaria uma vírgula!!

Sem imagem de perfil

De JPT a 25.07.2019 às 10:31

Excelente. Ficou a falta a hipótese (tão aterradora que foi subliminarmente varrida da mente do autor) de o PS vencer sem maioria e o PAN ser o "partido limiano".

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D