Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Como é possível?

por Pedro Correia, em 13.07.20

3647425.jpg

 

Não sei se já repararam, mas as notícias agora são dadas ao contrário. Ontem, no estreito espaço que vai sobrando nos telediários cada vez mais preenchidos pela agenda governamental, disseram isto: "Não morre ninguém há três dias em Reguengos de Monsaraz."

Como se estivessem a debitar mais uma trivialidade antes de fazerem a habitual ronda das praias e dos pinhais. Quando a notícia que se impõe é a resposta a esta pergunta angustiante mas crucial: como é possível que tenham morrido 16 pessoas por Covid-19 em Reguengos? Não diziam, nessa onda de optimismo que se tornou moda para temperar factos incómodos nos telediários, que o Alentejo parecia praticamente imune à expansão do coronavírus? Não garantiam muito recentemente que a doença ainda sem cura estava quase só circunscrita à Área Metropolitana de Lisboa?

Dezasseis pessoas num concelho rural onde ninguém se lembrou de aplicar "cercas sanitárias" como em Câmara de Lobos (onde não se registou qualquer morte) ou Ovar. Não há responsáveis locais ou regionais que respondam por estes óbitos? Ainda existirá a Administração Regional de Saúde do Alentejo?

 

Isto acontece, note-se, quando "temos autoridades de saúde que estão a seguir as melhores práticas", segundo assegurava o primeiro-ministro a 23 de Março, numa entrevista à TVI em que declarou: "Vamos aguentar as coisas o melhor possível até ao final de Maio. Em Junho teremos dados mais sólidos."

Pois Junho já passou, entrámos em Julho e os "dados mais sólidos" que temos indicam isto: estamos impedidos de entrar em oito países do chamado espaço comunitário e o chamado "milagre português" dissolveu-se em definitivo na poeira das publirreportagens que o apregoavam. Temos hoje o segundo posto europeu em número de casos activos de Covid-19 por cem mil habitantes, logo após a nada exemplar Suécia.

E, no entanto, continuamos a ver exposto por aí o risonho dístico com o arco-íris assegurando que "vai ficar tudo bem" entre cantorias e palminhas às varandas - exemplo supremo de notícia dada ao contrário, derrotada pelos mecanismos da propaganda. Infelizmente, o vírus não se combate com frases nem com aplausos: para os 16 mortos de Reguengos, e muitos dos seus familiares, já nada poderá ficar bem.


46 comentários

Perfil Facebook

De Fernando Antolin a 13.07.2020 às 11:35

Muito bem, Pedro.
Vemos e nem acreditamos em tamanha desfaçatez.
Abraço
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 15:03

É como diz, meu caro Fernando: vemos e nem acreditamos. Até porque os rigorosos parâmetros de escrutínio vigentes noutros contextos políticos e jornalísticos parecem ter fugido para parte incerta.

Abraço retribuído com gosto.
Sem imagem de perfil

De Anonimus a 13.07.2020 às 11:38

os noticiários cada vez mais entretêm ao invés de informar.

Ontem o meu ponto alto foi ver dois gringos a discutirem a obrigatoriedade do uso da máscara. Não tem nada de informativo, mas deu para rir um bocado (até perceber que mesmo estando longe, o que aqueles mecos imbecis dizem e fazem tem impacto aqui no jardim).

O resto é para encher.

Depois temos os "casos da vida", uns que faliram com a covid e não saber que fazer para meter comida na mesa, outros que viram na pandemia uma oportunidade e tornaram-se empreendedores de sucesso.

Vai valendo restícios de futebol, brevemente teremos fogos florestais para matar o tédio.
Sem imagem de perfil

De JPT a 13.07.2020 às 12:59

O meu ponto alto de ontem foi a "notícia" que ocupou vários minutos dos "noticiários" da RTP e da TVI (o da SIC eu não vi), segundo a qual duas pessoas quaisquer (supostamente um casal de ingleses residentes em Portugal) escreveram uma carta ao director de um jornal da comunidade britânica em Portugal a dizer que os compatriotas deles não pescam nada do Covid, e que por é que cá se está lindamente, e que no UK é a peste. É a prova de que, no fundo, notícia é que um homem quiser. E é a, também, prova de quem é esse homem.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 15:08

Vou começar a prestar atenção especial a tudo isso, JPT. E até, se me apetecer, criar aqui uma série alusiva a tais notícias.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 15:08

É como diz, Anonimus: assim que acabar o futebol, teremos a "época de incêndios" em todo o esplendor e os relatos dramáticos sobre afogamentos nas praias marítimas e fluviais, além da cíclica "vaga de assaltos" que parece suceder apenas no Verão, à falta de notícias alternativas.

Mas tudo isto só quando o futebol acabar. Há que respeitar as hierarquias noticiosas.
Sem imagem de perfil

De Chuck Norris a 13.07.2020 às 11:53

Continuamos a comprovar que somos uma fraude.

O Centeno era o Cristiano Ronaldo das finanças, agora suspiram de alívio com o terminus do seu mandato no Eurogrupo.

Eramos o exemplo da resposta ao Covid, agora ninguém nos quer em lado nenhum.

Eramos uma referência na abertura à emigração, agora somos um exemplo a não seguir.

E os únicos que não se surpreendem, somos precisamente nós.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 13.07.2020 às 14:11

Subscrevo.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 15:30

Eu se fosse ao Cristiano Ronaldo processava todos os que se atrevessem a compará-lo com o putativo próximo governador do Banco de Portugal.
Roça a injúria.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 15:30

Mal por mal, antes ser comparado com o Messi.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 13.07.2020 às 12:13

Cada vez me orgulho mais dos nomes horríveis que me chamam quando escrevo sobre determinadas coisas com a antecedência devida...

Lembrei-me de vir aqui comentar porque, não vendo televisão, ontem em casa de familiares tive oportunidade de ver um noticiário da praça... Parece um magazine de "lifestyle", e a forma como a informação é dada... Primeiro a folia, o que importa pode esperar... Roteiro turístico com umas meninas de LX no meio de um charco no Caramulo e num SUV Mercedes com a matrícula tapada e a publicidade a um concessionário... Uma reportagem copy-paste da SKY, do princípio ao fim, sem qualquer cuidado, como diz o outro: "mete a cassete e siga".

Sobre o Centro, uma notícia com sotaque brasileiro, aplaudo, contudo, o cuidado que houve em não cair no português do Brasil, esteve bem.

Tenho também andado às voltas para perceber o que por aí anda, é que nos Balcãs a coisa está quente e de propósito tenho tido um artigo em banho-maria a aguardar, esperançado em não ter que o publicar... Amanhã vai sair no "Sardinhas".

Acrescento também a parcialidade habitual em relação aos EUA e ao Brasil... Podemos não gostar de quem lidera por lá, mas não sejamos piores que eles... Quando o sentimento de toda uma nação, e as duas são gigantescas e com milhões de habitantes, é colocado em duas pessoas praticamente alcoolizadas e com sérios problemas naquelas cabeças, está tudo dito. Tanta gente naqueles países, e vamos logo entrevistar os "tontinhos".

Violência no Tamariz é para passar ao lado, no Algarve idem... Rápido e sem grande conversa, é só para não perder fôlego para as redes sociais.

É o que temos, meu Caro...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 15:32

Tudo cada vez mais selectivo, autocensurado e pré-formatado, meu caro.

Vou dedicar mais tempo (e bastante mais paciência) a este tema, que quase nunca é escrutinado. Raras coisas são tão pouco escrutinadas em Portugal como o jornalismo dominante.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 13.07.2020 às 12:52

Pedro,
Uma vez à chegada à Mauritânia (um dia tenho de escrever sobre isso) um companheiro de viagem disse: "a bandeira parece um smile".
É disso que me lembro quando vejo este suposto arco-íris que afinal parece ser mesmo um "sad".
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 15:28

Deriva tudo da mesma escola de pensamento, Paulo: olhar para a bandeira da Mauritânia e ver ali um 'smile'.

Isto anda tudo ligado, como dizia o outro.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 13.07.2020 às 15:55

Há teorias da conspiração com bases menos sólidas...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 16:05

Muito menos, eheheh.
Imagem de perfil

De Vorph "Girevoy" Valknut a 13.07.2020 às 13:45

Para alguns, neste país, tudo ficou, está e ficará bem.

O mal é os outros acharem isso normal.

Mas diabos, também D. Miguel tinha junto da miserável população os seus mais fiéis devotos.

Os portugueses são como filhos mal tratados.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 15:05

Verdade absoluta (o que nem espanta, tratando-se de um monarca absolutista): D. Miguel tinha junto da miserável população os seus mais fiéis adeptos, sobretudo no norte do País.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 13.07.2020 às 14:49

como é possível que tenham morrido 16 pessoas por Covid-19 em Reguengos?

É muito simples, em o vírus entrando num lar de idosos, seja ele onde fôr, corta como faca em manteiga no verão.

A última das 16 pessoas que morreram tinha 86 anos de idade. A maior parte das outras 15 teria idade não muito longe disso. Idade normal para se morrer, em qualquer caso; nessa idade, uma pneumonia é usualmente fatal. Aliás, é para isso mesmo que as pneumonias servem: para matar idosos.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 15:00

Você tem um vírus nazi qualquer infiltrado dentro de si. Quer, a todo o custo, exterminar os "velhos". Que tal gaseá-los?

Tome cuidado com o ricochete: você já não caminha para novo.
Perfil Facebook

De Antonio Maria Lamas a 13.07.2020 às 15:04

Para já a ilustração do "vai ficar tudo bem", parece-me mais "Vai ficar tudo gay".
Depois, as notícias diárias do Covid, cada vez se assemelham às tiradas do Mark Twain, "A notícia da minha morte é manifestamente exagerada".
Poupem-nos por favor.
Se acabaram com as rábulas do Infarmed, acabem com as penosas conferências de imprensa da DGS e o do MS.
E já agora com os conselhos da Drª Graça. De facto sou uma mente brilhante é que se lembrava AGORA de emitir regras para a construção civil.
Vá lá não obrigar os pedreiros a tele-trabalho, já não é mau.

Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 15:27

Pedreiros em teletrabalho, só os pedreiros-livres.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 13.07.2020 às 15:54

Pedreiros livres, nem na maçonaria.....
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 16:05

Agora estão em 'lay-off'.
Sem imagem de perfil

De Anonimus a 13.07.2020 às 16:01

Já não se bate palmas à janela? Está mal...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 16:03

Deve ser do calor.
Sem imagem de perfil

De Tiro ao Alvo a 13.07.2020 às 16:15

Pergunta o Pedro: “como é possível que tenham morrido 16 pessoas por Covid-19 em Reguengos?"
E eu respondo: porque estavam, todas elas em idade avançada, internadas num Lar para Idosos".
A raiz do problema, para mim, é esse mesmo: parece-me criminoso conceber e construir Lares para idosos com capacidade superior a 40/50 idosos.
Posso estar enganado, mas creio que na legislação em vigor o limite máximo é de 60 utentes. Todavia, conheço eu dois desses estabelecimentos que têm o dobro desse número de internados. E, se não erro, existirão por esse país fora Lares onde vivem centenas de velhos.
E agora, pergunto eu, haverá sítio mais triste para um idoso acabar os seus dias?
O certo é que não existe outro lugar mais perigoso para internar um ser em idade avançada, onde o justificado medo aprisiona as pessoas e, seguramente, lhes antecipa a morte natural, por coronavírus ou não.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 16:34

Então mas quatro meses depois de a pandemia chegar a Portugal, e com tão competentes normas sanitárias em vigor, permite-se que alguém do exterior contamine um "lar" de velhos ao ponto de ali morrerem 16 pessoas (para já) e a sociedade aceita isto com um encolher de ombros resignado ou indiferente?

Há uns anos levantou-se um imenso clamor de indignação contra o abate dum cão que tinha morto um bebé.
Isso pareceu ter mobilizado muito mais as pessoas do que estas 16 mortes de seres humanos - gente vulnerável, indefesa, portugueses humildes à mercê das circunstâncias que nunca viram nem já verão os respectivos nomes nos telediários.

Como cantava o poeta, "a dor da gente não sai no jornal".
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 13.07.2020 às 20:40

"Há uns anos levantou-se um imenso clamor de indignação contra o abate dum cão que tinha morto um bebé.
Isso pareceu ter mobilizado muito mais as pessoas do que estas 16 mortes de seres humanos - gente vulnerável, indefesa, portugueses humildes à mercê das circunstâncias que nunca viram nem já verão os respectivos nomes nos telediários."

Os velhos não fazem parte da narrativa jornalista.
Ontem uma mulher foi assassinada por ter dito All Lives Matter, apareceu nas notícias de "referência"?

lucklucky
Sem imagem de perfil

De Tiro ao Alvo a 13.07.2020 às 22:21

Porventura, caro Pedro, a contaminação aconteceu não por alguém do exterior, mas por alguém da casa, ou seja, através de um/a colaborador/a da instituição.
Como sabe, foram proibidas as visitas aos velhos internados em Lares e, quando depois permitidas, as visitas tinham duração muito limitada e foram feitas, a meu ver, com excessivas cautelas, enervando e prejudicando os idosos. Sei de um caso em que uma visitante teve apenas direito a uma "conversa" de 15 minutos, em que a idosa internada, com dificuldade de audição, quase só chorou, não lhe sendo possível trocar mais do que meia dúzia de palavras, pois estavam ambas com máscara e separadas por um vinil.
Creio que concordará comigo quando defendo que não se pode chama "Lar" a um sítio onde moram centenas de pessoas velhas, muitas das quais em estado de demência. A um inferno desses devia ser proibido chamar lhe "Lar".
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.07.2020 às 22:38

Concordo inteiramente consigo: é uma afronta chamar "lares" a estes depósitos de velhos. E uma chaga social da qual ninguém fala. Um tema tabu que só as mortes sucessivas provocadas pelo vírus veio parcialmente destapar.
Sem imagem de perfil

De jo a 14.07.2020 às 10:21

A velhice é lixada, mas a alternativa é pior.

Talvez conheça alternativas para isso.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.07.2020 às 16:58

"A velhice é lixada."

Uma das frases mais segregacionistas e estigmatizantes que tenho lido nas caixas de comentários do DELITO.

Comentar post


Pág. 1/2



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D