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Delito de Opinião

Comer (1)

Pedro Correia, 22.05.22

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Há umas semanas, o José Teixeira falava aqui de um prato que vai servindo para desenrascar nos momentos de crise, baptizado aliás assim mesmo. Crise. Batatas fritas e um ovo estrelado. Popularizou-se naqueles anos da inflação galopante, em que expressões como "apertar o cinto" constavam do quotidiano português. Havia bandeiras negras a assinalar ilhas de fome. E pela primeira vez o terrífico conceito de "salários em atraso" se foi banalizando entre nós.

Somos muito daquilo que comemos. E temos hoje a certeza que não só pela boca morre o peixe: pode acontecer-nos o mesmo se abusamos da carne vermelha, dos doces e do sal, por exemplo. Há uns anos uma senhora foi crucificada nas redes ditas sociais só porque se atreveu a afirmar que não podíamos comer bife todos os dias. Credo, que horror, a desalmada senhora queria condenar os compatriotas à fome... Afinal limitou-se a proclamar o que qualquer dietista ou nutricionista perora de manhã à noite, entre acenos de concordância. 

Serve este intróito para dizer que ando a comer cada vez menos carne. Por opção própria. E dou-me bem com isso. Mas não só: cada vez cozinho mais em casa. Os benefícios financeiros desta opção são óbvios. E também para a saúde: sei sempre o que como e os ingredientes que utilizo. Morar perto de um dos melhores mercados de Lisboa facilita-me a aquisição de peixe e vegetais. Por ser frequentador assíduo do mercado percebo como os preços têm vindo a subir (a "escalar", como agora papagueiam os imbecis nas pantalhas). Peixe, portanto, também só de vez em quando.

 

No ano passado, falei aqui do que vou cozinhando. Nessa altura ainda não constava da minha ementa regular o menemen turco - exemplo clássico de comida de rua que encontramos em qualquer ponto de Istambul, por exemplo.

Este que invoco hoje: tornou-se um dos pratos que preparo com mais frequência. Simples, fácil, barato. Sem carne. E permite aproveitar pão com algum atraso.

 

Basta picar meia cebola - minha medida habitual - numa frigideira que começou por levar uma colher de sopa de azeite e outra de manteiga (prefiro creme vegetal, dos que servem para barrar o pão). A cebola refoga em dois minutos, com chama alta. Logo é reforçada por tiras de pimento vermelho, acrescidas de tomate em pedaços e duas colheres de polpa de tomate.

Baixo a chama, vai cozinhando durante sete minutos. Enquanto recebe temperos: pimenta moída, orégãos, meia colher de chá de paprica, umas gotas de molho inglês. 

Vou cortando fatias de pão - que pode ser de véspera ou de antevéspera - para ocupar a base do prato. E bato um ovo, que será envolvido na frigideira. Ali fica, abraçado à tomatada, durante três minutos. Convém ir mexendo. 

Depois é só derramar o conteúdo da frigideira no pão do prato. Salpico com salsa e acompanho com nacos de queijo feta: combina da melhor maneira com tudo o resto. Por vezes enfeito com azeitonas cortadas em metades.

 

Os ingredientes variam conforme os dias. Além dos pimentos, costumo juntar cogumelos laminados, por exemplo. Os indefectíveis amantes da carne podem adicionar raspas de chouriço.

Será prato de crise. Mas garanto que sabe sempre bem. E volto a manifestar a minha concordância com a tal senhora, outrora tão vilipendiada por aves canoras a pipilar no Twitter: não podemos comer bifes todos os dias. Nem devemos.

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