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Delito de Opinião

Com a voz embargada de emoção

Pedro Correia, 28.10.16

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Os enviados das mesmas televisões que preenchem o tempo a perorar sobre os presos de consciência em Angola desembarcam em Cuba e desdobram-se em salamaleques perante o "líder histórico" que ali instaurou uma das mais ferozes e persistentes ditaduras do planeta, denunciada em todos os relatórios de organizações como a Amnistia Internacional e os Repórteres Sem Fronteiras. Nem um aludiu à existência de dezenas de presos políticos na ilha-prisão, governada há quase 58 anos por dois irmãos que controlam com mão de ferro o aparelho do Estado, submetendo ao seu ditame todas as instituições políticas, a magistratura e as forças armadas. Nem um fez o mais remoto reparo à inexistência de partidos políticos, de uma imprensa livre, de manifestações contra o Governo e de qualquer outro direito cívico e político - começando pelo épico direito à greve tão idolatrado pelos émulos castristas cá do burgo.

A palavra ditadura foi banida do discurso jornalístico dominante. Ou só é utilizada quando dá jeito, com uma chocante duplicidade lexical em função de indignações muito selectivas. Quando tanto se fala em crise de jornalismo, eis mais um factor que a justifica: a persistente incapacidade dos jornalistas de chamar as coisas pelos seus nomes.

Imaginam um repórter estrangeiro a visitar Portugal nos anos 60, embargado de emoção, a chamar "líder histórico" a Salazar? Pois. É precisamente isso.

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