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Com a casa às costas - 1

por Maria Dulce Fernandes, em 28.12.19

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Depois da Grande Viagem, o pai tomou o gosto pelos longos passeios, mas sem ser rico e com um agregado familiar de cinco pessoas, um cão e um cágado, era difícil marcar férias num resort à beira-mar ou num paraíso na montanha.
Tivemos o primeiro contacto com o campismo quando uma amiga da mãe deixou a tenda montada no Parque de Campismo da Foz do Arelho, para que pudéssemos usufruir de uns dias. Completamente ignorantes do conceito (e de tudo o resto), fizemos uma data de asneiras, mas é assim que se aprende. Aprendemos e gostámos tanto que voltámos nos anos seguintes, claro está melhor equipados.
A família em Amstelveen, quando veio a Lisboa de férias, trouxe consigo uns amigos holandeses, que se fizeram acompanhar de uma tenda nova, com três quartos, cozinha e avançado, que seria nossa sem necessidade de desalfandegar. Truques daqueles tempos.
Tínhamos como contrapartida uma tenda de dois quartos e sala preparada no Parque de Campismo da Costa da Caparica a pedido da família, e uma grade de cerveja Sagres para o Johann, que a bebia em todo o lado, fosse a dormir, no banho ou até mesmo às refeições, alternando com bom tinto português.
Eram alegres, musicais e despreocupados, recusando os “luxos" campistas que a mãe tinha instalado na tenda da Costa, pois não pretendiam sequer cozinhar. Este facto de os alemães e holandeses não serem dados a cozinhados, fomos constatando ao longo dos anos, principalmente quando estávamos de visita ao meu irmão em Geilenkirchen e a minha mãe fazia sopa. Sempre nos acharam complicados e trabalhosos com as refeições, mas apareciam sempre na hora de jantar.
Com a tenda que a família do Johann trouxe, passámos a campistas de segunda categoria no Parque de Campismo da Foz do Arelho. Não podíamos, claro, competir com a Lila e com o Rui, família afastada da Bela e do Fernando Pinto (grande virtuoso da guitarra portuguesa), os vizinhos e amigos do primeiro esquerdo da casa de Belém, porque eram veteranos do rio e da terra.
O Rui, filho do dono da Pensão Cristina nas Caldas da Rainha, onde ficámos algumas férias, tinha barcos e sabia tudo sobre o Arelho, sobre passar “a aberta" e navegar no mar. Sabia também como apanhar amêijoa no “lado de lá" . Munidos de um balde, prescutávamos o areal molhado em busca de dois furinhos próximos e aí enterrávamos a pá e com torção de alavanca fazíamos sair amêijoas, lambujinhas ou berbigão que guardávamos no balde, para depois serem despejados no grande alguidar e escolhidos para serem saboreados por todos.
Entre os “todos", estava o Tino. O Tino era um cromo. Entertainer no mundo do espectáculo, bom amigo do Pinto e da Bela e casado com a Nocas, era o cómico de serviço. Não havia ninguém na Foz do Arelho que à sua presença, não esperasse uma tirada tragicómica, como cavalgar uma vassoura pelo pontão de madeira com um balde na cabeça  e um garrafão vazio na mão, recitando Shakespeare em plenos pulmões e mergulhar de seguida no Arelho com grande espalhafato. Sempre pensei ser da sua autoria o bordão da carcaça e do garrafão de vinho.

Quando não apetecia cozinhar,  bastava agarrar um tacho grande e subir a rampa da FNAT. 

Não havia monotonia. Os domingos eram os dias mais aborrecidos devido à invasão de “leopoldos" com farnéis e rádios de pilha para ouvir o relato do futebol. Eram dias tristes também, porque invariavelmente o Arelho reclamava uma vida, aquela do incauto que, contra todos os avisos, se aventurava mais fundo no leito lodoso e não conseguia sair. Com os mirones a emparedar a desgraça, os bombeiros acabavam por retirar a vítima de afogamento, mas quase sempre demasiado tarde.
Foram anos bons. De longas férias, nas quais o tempo era pachorrento e dava tempo para toda a indolência do mundo. Ler, dormir, amalucar, viver sem medos.
Sempre que faz trovoada, recordo com ternura a imprudência e despreocupação da juventude que continuava a saltar daquele pontão de madeira num espalhafato de espuma e de água, entre gritos e trovões.


7 comentários

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De Anónimo a 28.12.2019 às 16:42

Está muito bem contado, tenho memórias de campismo algo semelhantes. Mas, a par dos hábitos de campismo que fomos ganhando, A Dulce não falou dos sustos enormes que apanhávamos ou dos riscos que corríamos.
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De Maria Dulce Fernandes a 28.12.2019 às 16:54

Talvez porque sou mais velha e os tempos eram outros. Talvez porque era miúda inconsequente e nunca me senti em risco ou assustada nos parques de campismo. Nesse aspecto, não tenho muito que contar, na realidade.
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De Anónimo a 28.12.2019 às 18:42

Depois da tropa em África, para mim campismo nunca mais.
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De Maria Dulce Fernandes a 28.12.2019 às 18:59

É diferente, aliás, nem tem comparação possível, mesmo para os dias de hoje. O meu genro mais novo é comando e esteve 6 meses na RCA. Faço, por isso, uma muito pequena ideia.
Para a trupe familiar a partir do ano um de ignorantes campistas de pé descalço, a actividade passou a ter cada vez mais qualidade e conforto.
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De Zé a 28.12.2019 às 19:49

" a actividade passou a ter cada vez mais qualidade e conforto." Pois e deixou de ser campismo. É glamping: uma maneira de estar num bom hotel fingindo que é campismo.
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De Maria Dulce Fernandes a 28.12.2019 às 20:11

Nem por isso.
Todo o "conforto" seguia na bagageira de tejadilho de um novíssimo carocha cor de areia. Apesar de ter N novidades que todos os anos engrossavam as checklists, sempre que chegâvamos à meta de cada etapa, tudo era retirado, montado, arrumado, experimentado e usado. Tínhamos tarefas e objectivos e tornava-se fácil e divertido.
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De Maria Dulce Fernandes a 28.12.2019 às 20:14

Excusado será dizer que o conceito de glamping , assim como outros tão naturalmente modernos, não existiam antes da revolução dos cravos. Estas memórias são de Julho/Agosto de 71, 72 e 73.

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