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Coisas que valeu a pena ouvir em 2014

por José Navarro de Andrade, em 07.01.15

Só oiço jazz, género que me deixa musicalmente saciado. De vez em quando, se bem orientado, faço tímidas incursões no espesso território da música dita clássica ou oiço na rádio uma canção a que não fico indiferente. Afirmar de modo tão taxativo este meu gosto pelo jazz não me faz especialmente refinado, assim como alguém que radiantemente despeite o jazz não se torna mais irónico. Convém, portanto, não contribuir para essa deplorável forma de arrogância que presume o seu gosto pessoal como mais interessante e inteligente que o de outrem.

Para o leigo ou desinteressado, o jazz é monótono; uma infindável repetição de acordes digressivos em cima de uma base harmónica por vezes insólita, outras vezes modesta. Por ter prescindido da palavra, também parecerá inexpressivo e melodicamente rudimentar. No entanto, esta pequena ilha musical habitada por aficionados grisalhos é um pouco como o nó da gravata: há bastante tempo que não está na moda, mas há muita gente que o faz todos os dias.

Em 2014, tal como noutros anos, produziram-se no jazz gravações de gabarito, mesmo que ninguém esteja em condições de assegurar que daqui a 10 anos ainda sejam recordadas. Tal imprecisão reflete-se nas escolhas dos melhores trabalhos do ano. Rever as diversas e prolíficas listas enunciadas pelos patriarcas da crítica por esse mundo fora, resulta na constatação de que não existem duas selecções iguais, todas fascinantes e nenhuma despropositada. Esta que abaixo se compõe será, assim, mais uma entre tantas, maculada (afinal como as outras…) por um gosto pessoal e por um inapelável alinhamento com o pós-modernismo marsaliano dos anos 80 a que os prosélitos do vanguardismo chamarão de conservador (se não percebeu o significado da frase anterior não se preocupe, é apenas uma private joke jazzística).

(Salvo se o leitor for psicanalista, considere-se a ordem aleatória):

“Road shows, volume 3” de Sonny Rollins, provando que os deuses ainda falam connosco.

“Magic 201”, em que Frank Wess demonstra qualidades equivalentes às do vinho do Porto.

“The art os conversation”, um diálogo que dura há 30 anos entre o pianista Kenny Barron e o contrabaixista Dave Holland – finalmente sós…

“Trip” em que o idiossincrático Tom Harrell (clinicamente esquizofrénico, Harrell só encontra paz mental na música) vai de viagem com o tenor Mark Turner para um lugar que só eles sabem.

“The Imagined savior is far easier to paint” o terceiro passo do trompetista Ambrose Akinmusire confirma-o com o “ai jesus” do actual momento do jazz. Que ele debique noutros géneros musicais (como fez Jason Moran em “All rise”) é caso para se ficar atento ao destino destas direcções.

“Habitat” de Christien Jensen Orchestra. Longe vão os tempos das grandes orquestras de jazz, não há dinheiro para tais aventuras. E no entanto Christine Jensen logrou juntar um ensemble de 20 elementos, prescindiu do clássico swing e obteve uma inigualável textura lírica.

“Quiet Pride: The Elizabeth Catlett Project” de Rufus Reid. Transfigurar esculturas (de Elizabeth Catlett) em música é a conseguida ambição desta obra. Mas o melhor é ouvir como um contrabaixista que sempre foi complementar (o que no jazz não é defeito, apenas modéstia), atinge semelhante grau de requinte e primor aos 70 anos.

“Landmarks” de Brian Blade. Ao terceiro compasso já se sabe de olhos fechados que se está a ouvir Brian Blade. O jazz mais melódico e sentimental dos dias de hoje. Um pouco de doçura só faz mal a diabéticos.

“Mise en Abîme” de Steve Lehman e o seu octeto. Jazz de fusão, mas não dessa dos anos 70. Fusão entre as técnicas de composição espectralistas (faça o favor de ir ver à wiki, porque agora não há tempo para explicar) e electroacústicas, com as harmonias do jazz. Primeiro estranha-se e depois torna-se a estranhar antes que se entranhe. Talvez demasiado cerebral, mas nunca desinteressante.

“The great lakes suite” de Wadada Leo Smith. O freejazz já tem meio século mas ainda julga que é novo. Poucos dos seus mestres resistiram à repetição ad nauseam das dissonâncias e da des-construção, ou seja, ao seu próprio academismo. Como todos os cardeais, Wadada Leo Smith às vezes tem pensamentos heréticos, mesmo que não cheguem para renegar de todo a fé no free – este foi um deles. Quem não for aficionado aproxime-se com cautela.

“Fuzzy logic” de Taylor Haskins. Nem o trompetista é muito conhecido, nem o disco deu muito que falar, mas foi das coisas que me deram mais prazer ouvir em 2014.

Se me perguntarem daqui a meia hora, fornecerei uma lista de certeza diferente, pois não é verdade é que há mais jazz do que orelhas para ouvi-lo todo? Haveria de sair deste mundilho porquê?

(11? Sim, porque haviam de ser 10, ou 12? Ide agora por essa net fora à procura deles.)


2 comentários

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De António M. P. a 07.01.2015 às 05:57

E não é que eu vou mesmo à procura?!
Gostei da "definição" de Jazz.
amp
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De Luís Lavoura a 07.01.2015 às 09:33

Só oiço jazz

Houve tempos em que eu só ouvia música clássica indiana (tanto hindustani como carnática).

Convido o José Navarro a ouvi-la. Tem (sobretudo a hindustani) em comum com o jazz o facto de ser quase totalmente improvisada.

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