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Coisas que nunca mudam

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.06.15

Não sei qual será o resultado da crise em que a Europa está mergulhada. Não sou bruxo. Como em qualquer ruptura, creio que há culpas de parte a parte. Uns porque prometeram o que não deviam, outros porque impõem o que não devem, esquecendo que se a Europa chegou ao beco em que se encontra isso se deve à distância em relação aos cidadãos e à intransigência em que assentou a construção daquilo que temos hoje. Um referendo nunca fez mal a ninguém. E parece-me fazer mais sentido perguntar aos cidadãos se querem agora o que não estava no contrato de governo, no programa eleitoral, do que apresentar-lhes como consumado aquilo que à partida rejeitaram e que quem os governa se comprometeu, demagogicamente ou não, a rejeitar.

É certo que, perante as circunstâncias em que a consulta terá lugar, a decisão que venha a ser tomada será tudo menos ponderada. As condições para a realização do referendo são sofríveis. Mas aí, como uma personagem de um filme que fez sucesso há uns anos dizia à sua paixão, parafraseando Faulkner, há gente que quando se vê numa situação de desespero é confrontada com a escolha entre a dor e o nada. Os gregos estão nessa situação. Porque quem não tem nada já nada tem a perder. Porque já teve dor que chegue. Porque já está para tudo. 

Não sei se na segunda-feira o euro continuará a cair, nem se a Europa algum dia irá recuperar, mas há coisas que nunca mudam. E é com elas que temos de contar.

Uma é confirmar-se que para os agiotas é sempre preferível correr o risco de esticar a corda e deixar que o devedor agonizante se enforque com ela, não reavendo os juros nem o capital, do que dar mais cinco dias para que esse mesmo devedor tome uma decisão final e se recomponha para voltar a pensar. No final, as culpas poderão ser imputadas ao devedor mas estarão todos a arder. Ou melhor, no fundo.

A outra são as sempre rigorosas e felizes declarações de Cavaco Silva. Enquanto a chanceler Merkel, quando questionada sobre um eventual fracasso do euro e uma saída da Grécia, dizia que "se o euro falha, a Europa falha", em Portugal, questionado em termos similares sobre o mesmo assunto, o Presidente da República fazia contas de somar e subtrair para concluir que "se a Grécia sair ficam dezoito". 

Perante isto que mais se pode dizer? 


24 comentários

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De Anónimo a 29.06.2015 às 19:32

"Um referendo nunca fez mal a ninguém". Bem, o problema é que a Europa não gosta dessas coisas.
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De Jorg a 29.06.2015 às 19:50

Podemos dizer que atribui ao Prof. Cavaco uma importância que ele não reconhece a si mesmo.
E por outro lado, omite o que a Sra. Merkel disse (e não disse) sobre uma eventual saida da Grecia.
Por outro lado, se fosse por cá a tralha da direita - o Passos, o Portas e companhia bela - a convocar este "referendo" tão serôdio para disfarçar cobardias e enxaguar a tromba das demagogicas promessas que, no tutano, se resumiam a governar com dinheiro que nâo tinham, mas que iriam cravando com "teorias de jogos" aos outros paises do Euro não faltariam os toques a rebate sobre derivas populistas, nacionalistas e "neo-fássistas".
Tenho muito respeito pelos provações da população grega, mas não vou muito em conversas de lorpas caritativas - como escreve FNV hoje no seu blog
"A ingenuidade é tão enternecedora como a canalhice. Por que motivo temos todos os ex-maoístas e pós-estalinistas da Europa a orgasmizar com um Syriza apoiado por nacionalistas de direita anti-europeus e pelos nazis do Aurora Dourada? Por solidariedade com a crise humanitária grega, não é?"
E já agora, os agiotas, nas ultimas semanas, em especial o BCE, disponibilizou créditos para a banca grega de 80 k milhões de Euros - o que equivale ao financiamento português no memorando após o descalabro Socretino. São um pouco ineptos como agiotas....
Jorg
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De Anónimo a 29.06.2015 às 19:58

Que comovente. Os portugueses, que não têm nada a ver com a Grécia, tinham de ser solidários com um (des)governo de comunas, ao qual temos a "agradecer" a súbida dos juros da dívida portuguesa a 10 anos para 3% no dia de hoje, porque uma cambada de aldrabões resolveu dar o calote em toda a gente mas queria mesmo assim continuar a receber empréstimos. Ainda podia ter algum respeito por aquela cambada se eles dissessem que não podem pagar o que devem, mas que não precisam do dinheiro dos outros países para aguentar o país. Agora anunciar que não pagam mas ao mesmo tempo pedir uma extensão do segundo resgate é uma desfaçatez! Pudera, desbarataram o excendente que os outros deixaram por isso já nem têm dinheiro para pagar salários...

Já não posso ouvir falar na Grécia. É um escândalo que um país da União Europeia, e que por isso tem tantas condições, seja a bandalheira que é a Grécia. Não admira que os países da Europa de Leste, que tanto passaram no século XX mas aproveitaram com as duas mãos a adesão à UE, estejam pelos cabelos com a questão grega. É ridículo que se continue a desculpar a incompetência e o desleixo dos gregos, pondo em causa a continuidade do euro só porque um dos países da zona euro é ingovernável.

Se a Grécia sair o euro continuará enquanto os outros países quiserem que o euro continue, ponto final. Era o que faltava que tivéssemos de ir todos para o galheiro por causa da experiência falhada do Syriza. Quem apoiou isso que não tivesse falado de mais. É o que dá os socialistas serem cata-ventos.
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De V. a 30.06.2015 às 03:26

Nem mais!
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De Anónimo a 30.06.2015 às 11:26

Este anónimo é da escola de Cavaco Silva: 19 menos 1 são 18.
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De Anónimo a 30.06.2015 às 14:26

Não, sou da escola PORTUGUESA. Tens penas dos gregos, muda de nacionalidade.
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De Anónimo a 30.06.2015 às 13:24

Ora nem mais. Isto sim, verdadeiro democrata que ainda não entendeu que a seguir à Grécia vamos nós.
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De João Carlos Reis a 30.06.2015 às 15:17

Prezado Anónimo,
eu não sou da esquerda nem tenciono ser, mas uma coisa lhe digo: antes de "agradecer" a um «(des)governo de comunas», tem que agradecer primeirissimamente aos anteriores governos de direita gregos (os tais adultos engravatados responsáveis). e a quem nós emprestámos o dinheiro (não foi ao Syriza), o facto de já nos terem reembolsado...
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De Hugo Char a 30.06.2015 às 17:19

imbecil, não foi o governo "comuna" (na realidade não é comuna, mas é óbvio que és demasiado ignorante para perceber isso) que pós a Grécia no actual estado. Foram mais os governos anteriores, de direita e socialistas, idênticos aos de cá, corruptos, covardes e incompetentes ... e também à que dize-lo a crise financeira de 2008, crise essa iniciada pela especulação dos mercados e das finanças, que agora os mesmos querem obrigar o povo (que "apenas" teve culpa em votar nos ps e psd's lá do sítio) a pagar.
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De Messias disse a 29.06.2015 às 20:08

António Costa: Syriza tem combatido a Europa “de forma tonta”.
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De lucklucky a 29.06.2015 às 20:14

A palavra agiotas que provavelmente incluí as autor diz tudo sobre a esquizofrenia da Esquerda.
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De Fido a 29.06.2015 às 21:36

O Euro está a cair? Está a 0.89 para 1 dólar. 0.9 em média. Tem estado assim nos últimos 5 meses.
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De Santos da Casa a 29.06.2015 às 22:27

O grande problema foi não terem seguido as opiniões do Sr. Prof. Dr. Baptista da Silva.
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De V. a 30.06.2015 às 03:24

Who?
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De Vento a 30.06.2015 às 00:06

Essa afirmação está aí para confirmar a necessidade desse referendo. Espero que outros se sigam, na medida em que quem se afirma responsável de um país numa união, e não compreende quem lhe confere tal responsabilidade, com tal afirmação só confirma que sua acção tem sido uma mera equação de subtracção. A todos os níveis.
É isto que esta Europa tem em abundância; e os Gregos com suas acções obriga-os a revelarem-se.
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De cristof a 30.06.2015 às 03:53

Depois de cinco meses sem uma proposta estruturada usar o argumento de só mais cinco dias , parece-me uma narrativa só logica em contos ou romances. Na vida real há adjectivos que me parecem mais apropriadas : incompetência parece-me a propósito dos resultados que os liricos de Atenas têm para dar ao seu povo após cinco meses do seu comando!!?.
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De Exactamente a 30.06.2015 às 08:49

Quem, como o autor do post, é absoluta e radicalmente incapaz de exprimir uma simples opinião sobre os resultados das políticas do Syriza, isto ao fim de mais de cinco meses, refugia-se em tretas. Táctica velha e muito rançosa.
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De João Carlos Reis a 30.06.2015 às 15:27

Prezado Exactamente,
concordo inteiramente consigo... tal e qual as tácticas velhas e muito rançosas daqueles adultos engravatados, respeitáveis e muito responsáveis que fizeram com que a Grécia chegasse ao estado a que chegou...
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De Exactamente o Tanas a 30.06.2015 às 18:10

Desconversar e atirar para canto também é uma técnica velha, rançosíssima e mal-cheirosa.
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De João Carlos Reis a 30.06.2015 às 15:27

Prezado cristof,
não podia estar mais de acordo consigo... tal e qual as propostas estruturadas daqueles adultos engravatados, respeitáveis e respeitadores que fizeram os gregos viverem num conto de romance durante décadas...
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De Anónimo a 30.06.2015 às 14:37

o Presidente da República fazia contas de somar e subtrair para concluir que "se a Grécia sair ficam dezoito".
Perante isto que mais se pode dizer?
tudo, ora vejam 19-1=18, agora vamos fazer a prova dos nove (nove fora de 18 fica 0 ZERO)

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