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Coisas que as estatísticas não revelam

por Paulo Sousa, em 08.11.20

No domingo passado regressei a um restaurante que visito desde que a nova gerência tomou conta dele.

Na primeira visita, há pouco mais de um ano, confesso que foi com esforço que entrei naquele sitio inventado há quase uma década por alguém que do alto do seu generoso orçamento autárquico e após várias semanas a vasculhar nos recantos do seu serôdio e escasso espólio de neurónios, inventou um restaurante para “rentabilizar” as piscinas municipais, de que é anexo. Infelizmente aprender a distiguir investimento de despesa não é condição de acesso a cargos autárquicos.

Olhando apenas pelo espaço que é, e sem ninguém competente para o explorar, talvez tivesse sido viável na versão inicial do Simcity, que nos anos 80 corria em Comodore 64. Como a realidade não funciona a 8 bits, acabou por andar de mão em mão, sem nunca encontrar a fórmula certa.

Ora como não é um espaço vazio que cria um negócio, mas sim alguém que o queira e saiba preencher, foram necessários demasiados episódios até que finalmente, e depois de correr meio mundo sempre à volta dos tachos, o Chef Nuno Ribeiro chegou a Porto de Mós.

Num raio de poucos quilómetros a oferta de restauração é respeitável, mas mesmo assim e desde a primeira hora que, pela elaboração e qualidade da sua oferta, o Pescatore marcou a diferença e conquistou o seu público. Se a identidade se refere a peixe, o mote – Mar à Serra – garante oferta para todos os gostos. O estacionamento cheio foi sempre um indicador do sucesso noutras paragens e também aqui se repetiu até a filha da mãe da pandemia ter entrado em cena.

Frequentar o mais possível restaurantes honestos é uma forma nobre de contrariar os nefastos efeitos do Covid. Essa é uma luta para a qual podem contar comigo.

Foi com a fúria dessa batalha em mente que no passado domingo regressei ao Pescatore. Observar a carta exige sempre uma capacidade de escolha de impulso, pois só assim se pode abdicar de Chanfana de bocheca de porco com puré de castanhas ou de Cabrito à padeiro, por outra coisa qualquer. Abracei-me ao arroz de lingueirão, e acertei pois estava divinal.

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Triste foi saber que a nossa era a segunda mesa a ser servida naquele dia.

Tendo já lançado para trás das costas a primeira vaga da pandemia, ninguém sabe o que aí vem.

Desde que os números voltaram a subir que a afluência de clientes caiu significativamente, e as medidas anunciadas pelo governo não auguram nada de bom.

Por detrás das estatísticas despejadas pela boca dos políticos e comentadores escondem-se as dores dos casos particulares, de negócios assentes em pessoas com valor e com a coragem necessária para fazerem pela vida, sem a rede que o estado dá apenas a alguns.


13 comentários

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De António a 08.11.2020 às 13:16

Os políticos trabalham em grandes desígnios, grandes visões. Coisas pequenas, como, bem, o mundo real, são-lhes insignificantes.
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De Paulo Sousa a 08.11.2020 às 14:46

Um grande desígnio, digno desse nome, é vir a Porto de Mós e visitar Pescatore...
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De António a 08.11.2020 às 18:12

Não está fácil para já, temo que talvez quando me for possível seja tarde demais.
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De Paulo Sousa a 08.11.2020 às 18:15

Esperamos que não.
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De balio a 09.11.2020 às 09:19

Um grande desígnio, digno desse nome, é vir a Porto de Mós

Cumpri esse desígnio há três meses. E não gostei, porque vindo pela autoestrada e tendo saído dela em Fátima, tive que fazer uma estrada horrível, cheia de curvas, e de subidas e descidas abruptas, para chegar. Ainda por cima, como é típico das estradas portuguesas, com escassa ou nenhuma sinalização para saber se estava no trajeto certo.

Chegado a Porto de Mós, comi num restaurante bem mais modesto do que o objeto deste post. Modesto e que não foi fácil de encontrar, porque era sábado de agosto e estava tudo fechado, de tal maneira que Porto de Mós, que eu julgara fosse uma vila, parecia uma cidade fantasma.
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De Paulo Sousa a 09.11.2020 às 21:26

Sabe que estamos aqui numa zona privilegiada entre o mar e o triangulo da Unesco (Alcobaça, Batalha e Tomar). As distâncias são reduzidas e num domingo de Verão Porto de Mós não é o epicentro dos acontecimentos, especialmente num ano de pandemia.
A estrada de curvas é uma delícia para quem gosta de conduzir, ou mesmo para quem não gosta mas sabe que vai almoçar ao Pascatore.
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De Carlos Sousa a 08.11.2020 às 15:37

Por muito que eu esteja receptivo não consigo compreender estas medidas de contenção do vírus. É como se o único remédio para a caspa fosse cortar a cabeça.
Ou será que temos de estar mesmo na merda para recebermos os subsídios da europa?
Alguém que me explique porque é que se tomam medidas atrás de medidas sem haver um registo, sem haver algo que confirme que a estratégia anterior não resultou.
A Espanha já adoptou a obrigatoriedade das máscaras, já adoptou o confinamento, nada melhorou. Porque é que estamos a seguir os mesmos erros?
O primeiro-ministro é advogado, a ministra da saúde é advogada, será que não há um médico que não pertença a nenhum lóbi que possa dar uma opinião sincera sobre a melhor forma de combater o vírus sem pôr em causa as liberdades individuais?
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De Paulo Sousa a 08.11.2020 às 17:13

É da natureza da actividade política anunciar medidas para combater malefícios. Muitas vezes, acho eu, a melhor medida é não tomar medidas, pelo menos quando baseiam em rasgos de gente entusiasmada com dinheiro dos outros como a que descrevi no texto.
Neste caso, perante a pandemia, a reacção baseou-se mais uma vez na infantilização dos cidadãos. Não podem sair, mas se saírem serão levados de regresso a casa, e presos por uma orelha, por um agente de autoridade.
Para eles foi mais um anúncio sonante com direito a conferência de imprensa. Para mim foi apenas sábado à noite.
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De Eduardo Louro a 08.11.2020 às 16:33

Sou cliente habitual ao jantar, mesmo neste tempo que corre. Na imensa maioria das vezes jantares de uma mesa só. É bom para o cliente, nesta altura. Mas também é desolador.
A resiliência, esse neologismo da moda, também faz parte do menu do Pescatore.
Uma abraço, Paulo.
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De Paulo Sousa a 08.11.2020 às 17:21

Sim Eduardo,
Dizem que a cozinha tem de ser feita com paixão, mas nestes tempos a essa paixão tem de se adicionar resiliência e capacidade de sofrimento.
A incerteza de quanto tempo isto ainda vai durar é o pior de tudo.
Um abraço
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De Anonimus a 08.11.2020 às 17:55

Tomara muito autarca ser obrigado a jogar SimCity antes de entrar em funções. Duvido que aguentassem 1 ano de jogo.
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De Paulo Sousa a 08.11.2020 às 18:19

Ja vi uma versão que incluía o lançamento de tomates contra o carro do mayor. As vezes parece que faz falta na vida real.
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De Elvimonte a 08.11.2020 às 23:33

"O contexto familiar e de coabitação é responsável por cerca de dois terços dos contágios pelo novo coronavírus, de acordo com dados hoje apresentados pelo primeiro-ministro, que revelam ainda que as escolas representam apenas 3% dos contágios."
https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/conselho-de-ministros-acompanhe-aqui-a-conferencia-de-imprensa-6

Como tal, mandam-se as pessoas... para casa. Como tal, em 121 conselhos, impõe-se recolher obrigatório aos fins-de-semana a partir das 13 h. Como tal, os restaurantes terão que encerrar a sua actividade às 13 h.

Faz todo o sentido. Em qualquer antologia de anedotas.

Se ainda se tiver em conta o que a literatura científica vai produzindo, com periodicidade semanal ou inferior, sobre os efeitos da carência de vitamina D, que a nossa pele sintetiza quando exposta à radiação solar, na percentagem de testes positivos à COVID-19, na percentagem de casos de maior gravidade e no seu desfecho fatal, ultrapassa-se largamente o nível da anedota, ficando-se ao nível da negligência.

Do mesmo modo para os efeitos reconhecidos cientificamente no aumento de "células assassinas naturais", primas das células T, que a exposição a parques e florestas induz no nosso sistema imunitário.

Faz todo o sentido: a ignorância mata e matará muito mais do que a COVID-19.

PS - A lista de artigos científicos - muitos deles já mencionados por mim neste blogue inúmeras vezes - sobre os temas referidos é extensa. Caso haja alguém interessado em conhecê-la, disponha.

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