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Delito de Opinião

CNN apareceu, SIC em mobilização total

Pedro Correia, 01.12.21

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O aparecimento de um novo canal informativo devia justificar menção nos telediários que se ocupam «do país e do mundo», como apregoa um redundante jornalista, fazendo crer que Portugal está fora do planeta. Estranhamente, enquanto surgia a versão lusitana da CNN, às 21 horas de segunda-feira, nenhum canal da concorrência fez a menor alusão ao facto. Estranho silêncio, parecendo confirmar que o jornalismo é a actividade profissional menos escrutinada nesta nossa doce pátria.

A TVI24 faleceu nessa noite em que a Gata Borralheira se tornou Cinderela. Aliás já tinha desaparecido meses antes, quando alguém decidira baptizá-la apenas de “24” – título de uma popular série de ficção do início deste século. Desperdiçando recursos e sinergias (como agora se diz) a mudar-lhe rosto e nome.

O novíssimo canal tem caras já muito conhecidas de outras paragens. Com destaque para Judite Sousa, a quem coube o privilégio de ler a primeira notícia, e Júlio Magalhães, autor da primeira entrevista – ao foragido João Rendeiro, que garante não ter voado para Belize, revelando bom critério, pois não é país que se recomende para um banqueiro, mesmo oficialmente falido. Esta conversa por vídeo-chamada inaugurou também por cá a modalidade da entrevista retalhada às fatias distribuídas pelo bloco noticioso – antiga técnica novelística aplicada ao jornalismo pós-moderno. A mesma que terá levado uma voz off a debitar: «O amor no princípio de tudo, Maria e João casados há 40 anos.» De fazer chorar as pedras da calçada.

 

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Quem seguisse com mais atenção este telediário inaugural detectaria erros, mas apenas de pormenor – como chamar “social-democrata” a Adolfo Suárez, o chefe do Governo que liderou Espanha no regresso à democracia na década de 70. Seria conservador, liberal, democrata-cristão, ex-franquista, mas não social-democrata. Minudências que não ofuscam o brilho da renascida estação, a que se deseja vida longa e próspera. Porque a concorrência é necessária, para benefício de todos. Em qualquer actividade.

Que o diga a SIC, que se vinha aburguesando. Nesse dia, os serviços noticiosos do canal que já teve sede em Carnaxide deram atenção inusitada ao que ocorre além-fronteiras. Com enviadas especiais à capital austríaca e a Kuznica, na Polónia. Com o correspondente em Paris mobilizado para Calais e o correspondente em Londres mobilizado para Southampton. Com o correspondente em Israel a reportar de Doha, capital do Catar.

Outra mudança visível: a SIC passou a incluir peças assinadas por escrito, algo que raras vezes sucedia. E o Jornal da Noite dessa segunda-feira estendeu-se das 19.58 às 21.44. Quase duas horas.

Talvez seja mera coincidência. Ou talvez não.

 

Texto publicado no semanário Novo

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