Clara Gema do Ovo (5) - Regresso às aulas

A 7 de Outubro de 1974 voltámos ao liceu. Foram cerca de três meses de férias grandes, as mais alegres e emocionantes até então. Era a liberdade recém-adquirida em todo o seu esplendor a aveludar o calor do verão e a trazer música e cor ao nosso pensamento, ao nosso comportamento e, claro está, às cordas vocais. Não havia local de veraneio sem um pequeno comício, que terminava invariavelmente com música ao vivo e muita alegria.
No liceu, o ano lectivo começou com grandes novidades. O uso de bata era facultativo e tínhamos pela primeira vez professores homens.
O professor Franquelim, que leccionava a nova disciplina de Introdução à Política, era feio. Era barbudo, era cabeludo, mostrava pouca higiene, tinha os dentes estragados, fumava nas aulas e não só permitia que as alunas fumassem, como era ele próprio a fornecer os cigarros, alguns enrolados à mão e de proveniência duvidosa. Tinha a sua própria entourage feminina e achava-se um autêntico D. Juan, defendendo o amor livre, até mesmo entre professores e alunos. Ninguém estranhou, portanto, quando em Maio de 1975 a Margarida apresentou uma proeminente barriguinha e lhe foi permitido continuar os estudos no liceu.
Foi o primeiro e único professor que detestei visceralmente.
A Clara voltou mudada. A mudança saltava à vista desarmada em dois pormenores fundamentais: não trazia o mono do Demis Roussos a tiracolo, mas em contrapartida ostentava uma boina preta com um pin do Che Guevara.
Tendo sido eu própria recrutada pelo tio Marcelino, pelo tio Simões e pelo Dr. Adelino Cabral - tudo gente interessante e íntima do João Lopes Soares que muitas vezes ajudaram a esconder da PIDE na tulha do carvoeiro - para as fileiras do Partido Socialista, fiquei agradavelmente surpreendida, até porque em 1974/75 éramos todos socialistas. Até mesmo o PCP era socialista, já que a URSS se definia como república socialista e a “direita" que havia era social democrata.
Estranhei a mudança na Clara, da personificação da alegria à muda introspecção. Deixou de ser expansiva e nas poucas palavras com que nos presenteava denotava-se alguma tristeza, que associei a problemas familiares, pois tinha a noção de que o dono da casa era altamente conservador.
Sendo uma aluna de quadro de honra, a Clara não deixou que a sua actividade político-partidária interferisse com os estudos e continuou a dar cartas, caindo nas boas graças do corpo docente pela forma eficiente como se dedicava a todas actividades lectivas, lúdicas e políticas no liceu, numa brilhante forma de multitasking. Ao princípio, participei nessa azáfama, mas calhando em conversa numa reunião do núcleo do PS de Belém no pátio da Junta, foi-me energicamente dado a entender que me devia demarcar das actividades políticas da UEC. Foi a minha primeira farpada do Partido Socialista.
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