Clara Gema do Ovo (1) - A Clara
Tenho saudades da Clara.
Fomos boas amigas, colegas, companheiras de carteira e até cúmplices durante o liceu.
O meu pai chamava-a de Clara Gema do Ovo e sabia que era a melhor influência que naquela altura poderia desejar para mim.
A Clara era o que agora se chamaria uma “croma". Mediana de altura, cheiinha e com uns óculos redondos e grandes, tinha sorriso fácil, uma mente brilhante e uma acuidade artística fora de série. Qualquer tarefa para a qual a Clara se propusesse tinha a garantia da excelência da execução e do primor da conclusão.
As miúdas populares ressentiam-se com a atenção que os professores dispensavam à Clara pelo seu admirável desempenho a todas as disciplinas, com notas a alternar entre os 16 e os 20 valores. Eu não era uma miúda popular. Também não era uma croma. Balançava agilmente entre umas e outras; nunca tomei posição, mas sentia-me bem mais confortável com os cromos do que com a superficialidade que a popularidade confere.

Como todas as adolescentes, a Clara amou com ardor. Desenvolveu uma paixão platónica pelo grego Demis Roussos, exacerbada por uma possível falta de afecto paternal, de tal modo que lhe escrevia intermináveis cartas em tom de diário, contando cada segundo da sua vivência e do seu pensamento que não o abandonava nunca. Escrevia sempre que podia, em cadernos do liceu numerados que a acompanhavam para onde quer que fosse, aos quais acabei por perder a conta.
A Clara trazia consigo recortes de notícias, posters, tudo o que a imprensa nacional e estrangeira pré-revolução era autorizada a disponibilizar ao público jovem em Portugal. O meu primo Dietmar trabalhava na altura na editora da Revista Bravo e arranjava-nos muitas revistas com vários pósteres estupendos (cheguei a forrar a parede do meu quarto com pósteres, alguns de tamanho natural, como foi o caso do Alice Cooper e também do Mark Spitz, com as suas sete medalhas de ouro), muitos deles do Demis Roussos. Pelo liceu era normal ouvir o trautear de “We Shall Dance". Aos poucos conseguiu coleccionar-lhe toda a discografia. E assim a Clara era feliz.
Um belo dia em que levei para o liceu os meus fantoches feitos com colheres de pau, lã e restos de tecidos das costuras da minha mãe, nem sei bem a que propósito, prometi que lhe faria um Demis Roussous em pano, costurando o Titã lírico em escala reduzida, com um “colosso" bem microscópico. Foi uma risota pegada, mas nunca imaginou a Clara que eu cumprisse o prometido.
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