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Delito de Opinião

Cinema em tempos de pandemia

João Campos, 05.10.20

No Sound + Vision, João Lopes deixa-nos uma reflexão muito pertinente sobre o impacto da pandemia no cinema - em concreto, sobre o impacto no modelo de negócio assente em multiplexes e nas grandes estreias de origem norte-americana, que têm sido sucessivamente adiadas. Sobretudo após Tenet, de Christopher Nolan, ter dficado aquém das expectativas na bilheteira (sim: chegámos a um ponto em que 307 milhões de dólares de bilheteira global representam, se não um fracasso, pelo menos uma desilusão). Do artigo, destaco dois pontos:

Curiosamente, em alguns contextos, incluindo o português, as reposições de filmes clássicos, dos mais diversos períodos e origens, têm atraído um número considerável de compradores de bilhetes, proporcionalmente superior. Não generalizemos, claro. Trata-se de um circuito de dimensão reduzida, com um peso nas contas globais do mercado inevitavelmente menor do que a área dos multiplex.

Revejo-me muito nestas palavras: posso dizer sem exagero que nos últimos dois anos desloquei-me mais vezes a salas de cinema para ver reposições de filmes antigos (clássicos, se quisermos) do que para ver estreias. Acompanhei algumas, é certo, mas tenho frequentado menos as grandes salas dos centros comerciais (as grandes salas independentes desapareceram) e mais os circuitos alternativos da Cinemateca, do Nimas e de algumas iniciativas independentes como o Cinepop. Em 2020, julgo só ter assistido à estreia de Tenet, nas salas do El Corte Inglés; mas revi no Inverno Eyes Wide Shut, 2001: A Space Odyssey e A Clockwork Orange no Nimas, onde por estes dias tenho aproveitado para descobrir a obra extraordinária de Akira Kurosawa, num ciclo de grande qualidade que só é pena estar limitado a Lisboa e ao Porto (e sim, as três horas e meia - sem intervalo - de Seven Samurai valem bem a pena numa sala de cinema, mesmo com máscara). Em Janeiro e Fevereiro a pequena sala da Avenida 5 de Outubro, um dos últimos refúgios do cinema independente em Lisboa, enchia a cada uma destas sessões (aliás, lembro-me da enorme fila para Eyes Wide Shut a serpentear pelo passeio da avenida numa noite chuvosa); e nestes dias julgo só não encher porque, enfim, as normas da DGS não o permitem (e bem).

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O fenómeno nem é de agora - no ano passado vi com alguma surpresa e muita satisfação a esplanada da Cinemateca cheia de gente de todas as idades para assistir à reposição de The Night of the Hunter, o clássico de Charles Laughton com um dos papéis mais memoráveis de Robert Mitchum. Esgotadas as cadeiras, não faltou quem se dispusesse a sentar-se no chão para ver o filme. E duvido de que no final alguém tenha dado aquelas duas horas por perdidas.

Não estamos a falar de estreias, de filmes novos, promovidos pela enorme máquina comercial de Hollywood. No meu caso, até há dias nunca tinha visto qualquer filme de Kurosawa, mas tenho quase todos os filmes de Kubrick em DVD, e talvez os possa encontrar em algum dos serviços de streaming que subscrevo. The Night of the Hunter é um dos meus filmes preferidos, pelo que já o vi várias vezes no computador - mas não pude deixar passar a oportunidade de o ver no grande ecrã. O mesmo provavelmente poderá dizer-se da maior parte das pessoas que encheu a sessão de 2001 em Fevereiro ou de Yojimbo, o Invencível agora em Outubro - haverá quem nunca tenha visto os filmes mas saiba que Kubrick e Kurosawa valem o preço do bilhete, claro; no entanto, acredito que maioria daquelas pessoas tinha já visto os filmes, e estava disposta a pagar para os rever nas condições ideais para se ver um bom filme:  no grande ecrã de uma sala de cinema.

É certo que não será o público que vai ao Nimas e à Cinemateca - conhecedor, e por isso exigente - que irá salvar os multiplexes no pós-covid 19, seja lá quando isso for. Mas talvez se encontrem aqui algumas pistas para a recuperação do cinema nos tempos difíceis que se avizinham.

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