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Cine-Espanha (2) - El Lobo

por Diogo Noivo, em 23.02.16

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Baseado na vida de Mikel Lejarza, também conhecido como Gorka ou ainda pelo nome de código Lobo. Foi a primeira “toupeira” infiltrada pelos serviços de informações espanhóis na estrutura dirigente da organização terrorista ETA.

Os factos históricos de interesse são muitos, mas podem ser resumidos com alguma simplicidade. Vivia-se a primeira metade da década de 1970, o estertor final do regime de Francisco Franco. A radicalização da sociedade basca em torno do nacionalismo separatista atingia uma dimensão inédita e a ETA engrossava as suas fileiras. O serviço de informações SECED (predecessor do CESID que, por sua vez, antecedeu o actual CNI) envia para o País Basco um conjunto de operacionais com avultados “fundos reservados” destinados a recrutar informadores locais. Mikel Lejarza, um jovem apolítico sem preparação militar ou policial, foi um dos alistados. Respondeu pelo nome Gorka na ETA, sendo o Lobo para a espionagem espanhola. Em 1975, por resultado directo das suas actividades, mais de 150 terroristas acabaram detidos, entre os quais Ezkerra e Wilson, dois dos mais procurados pelas autoridades. Lejarza é condenado à morte pela ETA, que inunda o País Basco com cartazes onde se vê a sua fotografia titulada pela frase “Se Busca”. O estrago causado na organização terrorista foi de tal ordem que desde então os comandos etarras levariam sempre consigo uma bala de reserva destinada a matar o Lobo. Finda a Operación Lobo, Mikel Lejarza muda de identidade, submete-se a várias cirurgias plásticas e exila-se algures na América Latina, onde ainda viverá.

 

Embora inspirado em factos reais, o filme não é exactamente uma biopic. À personagem de Mikel Lejarza é dado o nome de Txema Loygorri (interpretado por Eduardo Noriega). O guião prestou-se a esta e outras liberdades criativas. Porém, enquanto relato histórico, filme tem méritos. El Lobo é suficientemente fiel aos factos, sendo inatacável na atenção dada à reconstituição cénica da época. E, tratando-se de um thriller de acção com declaradas ambições comerciais, louva-se o zelo com que o enredo é enquadrado no momento político vivido na altura.

A este respeito é de destacar um diálogo entre Lejarza/Loygorri e Ricardo (José Coronado), o agente que recruta e cria o Lobo. O agente das informações espanholas argumenta que o terrorismo é necessário, se não essencial, face à mudança política que se avizinha. De facto, para os sectores franquistas instalados no aparelho de Segurança e de Defesa de Espanha, o terrorismo etarra foi um dos argumentos evocados para tentar atrasar – e descarrilar – o processo de transição democrática. Ao desferir um golpe tremendo na estrutura da ETA, o Lobo foi um dos responsáveis por retirar importância e apelo a esse argumento. Portanto, ainda que a acção se desenrole com o ritmo frenético dos filmes de acção e o personagem principal cumpra todos os clichés do herói solitário e perseguido, o guião evita o facilitismo de uma história isolada, asséptica e monocromática.

A melhor forma de resumir Lobo está nas palavras do seu produtor executivo Melchor Miralles:Pretendíamos una narración fiel a lo ocurrido, pero que dispusiera de los elementos de ficción necesarios, imprescindibles para que el espectador pueda divertirse viendo un thriller político con acción y contenido, podríamos decir que con una concepción de la narración cinematográfica más americana que española.” Na opinião de espectador, missão cumprida.

 

Curiosidade: Dois anos depois de El Lobo, o realizador Miguel Courtois reincide na ficção baseada em histórias verídicas relacionadas com a ETA ao dirigir o filme GAL. O actor José Coronado também regressaria ao universo ficcional sobre a ETA com o filme Todos Estamos Invitados – está longe de ser uma peça cinematográfica de excelência, mas creio ser dos melhores retratos feitos a um País Basco subjugado ao autoritarismo etarra.

 

Realizador: Miguel Courtois

Elenco: Eduardo Noriega, José Coronado, Silvia Abascal, Mélanie Doutey, Patrick Bruel, Jorge Sanz

Ano: 2004

Prémios Goya: 5 nomeações na 19ª edição dos prémios Goya (2005). Venceu em duas categorias – Melhor Montagem e Melhores Efeitos Especiais.


1 comentário

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De Antonio Pereira a 23.02.2016 às 14:33

Este filme por acaso passou-me ao lado, mas em breve tratarei de o ver.

Como lhe tinha sugerido no 1º post do Cine-Espanha, aconselho o "No habra paz para los malvados" também com José Coronado no principal papel. Aborda o tema do novo terrorismo pos-ETA - o terrorismo islâmico.

Em 2013 (salvo erro), o filme "Vivir es fácil com los ojos cerrados", trata-se de um road-movie à espanhola, que (no meu caso foi assim) só entendemos o titulo nos últimos minutos do filme.
Bom cinema de "Espanã".

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