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Cine-Espanha (1) - La Isla Mínima

por Diogo Noivo, em 16.02.16

La-isla-minima-2014.jpg

 

La Isla Mínima foi uma das grandes apostas do festival de cinema de San Sebastián e a grande vencedora dos prémios Goya de 2015. No entanto, o filme prometia pouco.

O enredo é básico e está estafado: dois polícias atormentados investigam um assassino em série. A crítica baixava ainda mais as expectativas ao descrever o filme como uma “adaptação” ao grande ecrã e à realidade espanhola da série norte-americana True Detective – os menos polidos falavam até em “cópia descarada”. O ruído provocado pelas semelhanças levou o realizador Alberto Rodríguez a esclarecer – com notória irritação – que nunca viu a série protagonizada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson e, por isso, as comparações eram mal-intencionadas. Esclarecimentos à parte, o ambiente, a dinâmica entre os dois personagens, a crueldade dos crimes e a época retratada em La Isla Mínima tornam impossível não estabelecer paralelos entre o filme e a saga policial da cadeia televisiva HBO.

Contudo, a crítica inicial não prejudicou o filme. Ajudou-o. Fez com que um filme bom fosse também uma surpresa muito agradável. Com as margens do Guadalquivir em pano de fundo – tão presentes que acabam por assumir o estatuto de personagem – e ambientado em plena Transición, o filme adquire uma identidade própria e sobressai pela qualidade das interpretações, pelo rigor da recreação cénica e política da Andaluzia pós-franquista e, principalmente, por pegar num argumento simples e impor-lhe um ritmo que agarra o espectador do princípio ao fim. Outro aspecto digno de registo, que muito contribui para a identidade própria do filme, é a influência discreta do contexto social espanhol da década de 1980 na composição dos personagens, especialmente dos criminosos e das vítimas. A fotografia é exemplar e presta uma justa homenagem ao trabalho de Atín Aya, mestre do fotojornalismo espanhol, recordado no El Confidencial como o fotógrafo “en blanco y negro en un país que no conseguía coger color”.

Depois de 7 Vírgenes (2005), de After (2009) e de Grupo 7 (2012), La Isla Mínima consagra o cineasta sevilhano Alberto Rodríguez como um realizador obrigatório do cinema espanhol.

 

Realizador: Alberto Rodríguez

Ano: 2014

Elenco: Javier Gutiérrez, Raúl Arévalo, Antonio de la Torre, Jesús Castro, Nerea Barros.

Prémios Goya: 17 nomeações na 29ª edição dos prémios Goya (2015). Venceu em 10 categorias, entre as quais Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Fotografia e Melhor Guião Original. É o terceiro filme com mais galardões na história dos Goya, lugar partilhado ex aequo com Blancanieves (2013).

 

NOTA: No dia 6 deste mês foram entregues os galardões da 30ª edição dos Prémios Goya, os Óscares do cinema espanhol. Aproveito a ocasião para iniciar uma série de posts sobre filmes nomeados. Não seguirei qualquer ordem. Bons ou maus, escreverei apenas sobre aqueles que vi.


9 comentários

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De Antonio Pereira a 16.02.2016 às 14:39

Excelente ideia! Divulgar o cinema espanhol.
Aconselho-o, se ainda não viu, 2 filmes nomeados aos Goya deste ano (um premiado, outro nem por isso)

- "Felices 140" - sobre uma mulher que ao cumprir 40 anos reúne os seus amigos e lhes anuncia que ganhou 140.000.000 € no Euro milhões. não foi premiado

- "A cambio de nada" - filme simples que retrata a amizade entre uma idosa e um adolescente que fugiu de casa.


De Goyas passados não se pode perder o "No habrá paz para los malvados" e o duro (e agora atual - por causa da eutanásia) "Camino".

Bom cinema.
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De Diogo Noivo a 17.02.2016 às 22:43

Agradeço o incentivo e as sugestões, António. Não vi a maior parte dos filmes que sugere. Aliás, candidatos este ano apenas vi La Novia e B. Mas tentarei corrigir essa falha a tempo de os incluir nesta série. Bons filmes!
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De Teresa Ribeiro a 16.02.2016 às 14:42

Parece troca de galhardetes (acabei de ver o comentário no meu post sobre Spotlight), mas juro que não é esse o espírito. É que fiquei mesmo com vontade de ver o filme depois de ler este texto :)
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De Diogo Noivo a 17.02.2016 às 22:46

Ainda bem, Teresa. Era essa a minha intenção. ;)
Este foi o primeiro filme que vi em 2015, logo em Janeiro, e foi uma excelente maneira de começar o ano cinematográfico. Tentarei que as próximas sugestões sejam igualmente interessantes.
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De Luís Lavoura a 16.02.2016 às 15:44

E este filme onde é que se pode ver, para aqueles que não foram a Donostia?
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De Diogo Noivo a 17.02.2016 às 22:49

Reparei hoje que foi disponibilizado no videoclube MEO com o título "Terras Pantanosas". Mas tem sempre o DVD, Luís.
PS - Eu sou daqueles que vai a San Sebastián. E nunca a Donostia.
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De Pedro Correia a 17.02.2016 às 22:01

Boa série que inicias aqui, Diogo. Promete.
Espero que sirva de incentivo aos nossos distribuidores, que ignoram quase por completo o cinema espanhol e não fazem um esforço mínimo em torná-lo apelativo junto dos espectadores portugueses. Isto apesar de haver fortíssimos nichos de mercado entre nós, com público garantido - desde logo os filmes do Almodóvar, mas também os do Amenábar ('Os Outros', por exemplo), os do Guillermo del Toro ('O Labirinto do Fauno') e Fernando León de Aranoa ('Às Segundas ao Sol').
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De Diogo Noivo a 17.02.2016 às 22:56

Obrigado, Pedro. Tentarei corresponder às expectativas.
De facto, é uma pena a fraca aposta dos nossos distribuidores. Tanto mais que a oferta é vasta e muito diversificada, havendo filmes para todos os públicos (comédia, drama, terror, comercial, erudito, etc). E a qualidade média é muitíssimo boa.
Os realizadores que referes são notáveis - estão, aliás, entre os meus favoritos. O "Lunes al Sol" é dos filmes da minha vida e prova que houve um tempo em que o Javier Bardem era um actor a sério.
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De Pedro Correia a 17.02.2016 às 23:17

Sim, concordo. Infelizmente tornou-se um cabotino de então para cá. E desencaminhou a Penélope Cruz, algo que nunca poderei perdoar-lhe.

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