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Chapeau!

por Luís Menezes Leitão, em 30.03.16

 

Infelizmente muitas vezes tenho que dar razão aos que dizem que Portugal tem a direita mais estúpida do mundo. Na verdade, imensas vezes vemos à direita serem praticados actos gratuitos, que irritam profundamente as pessoas comuns, e que nem sequer trazem qualquer benefício para o país, resultando apenas da teimosia dos governantes. Infelizmente muitas vezes não há, porém, espírito crítico para evitar esses disparates, acabando por produzir o afastamento dos partidos da área do poder durante muitos anos.

 

O governo de Cavaco SIlva já no seu estertor foi um perfeito exemplo disso. Uma das medidas mais loucas que adoptou foi fazer Portugal seguir o fuso horário de Berlim em ordem a facilitar os contactos com os nossos parceiros europeus. Só que isto obrigava os portugueses a levantar-se de madrugada, sair dos empregos no pico do calor, e ter sol até depois das 23 horas. E mesmo depois de se ver isso, o governo foi incapaz de emendar o disparate, não querendo saber da irritação que estava a causar nas pessoas.

 

Outro exemplo dos disparates do governo de Cavaco Silva foi ter abolido a tolerância de ponto no Carnaval, gesto que ninguém entendeu. Nesse dia, o PSD perdeu vinte pontos nas sondagens, e ficaria arredado do governo por sete anos, sendo que o próprio Cavaco perderia as presidenciais, só regressando 10 anos depois. Há gestos que custam caro a quem os pratica.

 

Passos Coelho não resistiu a fazer um disparate semelhante com a abolição dos feriados, neste caso com a gravidade de mexer com símbolos nacionais importantíssimos para a comunidade, como a implantação da República a 5 de Outubro ou a Restauração da Independência a 1 de Dezembro. Mais uma vez, tratou-se de um gesto gratuito, sem qualquer benefício e que só poderia trazer custos eleitorais. Mas Passos Coelho comportava-se como um iluminado e tinha o fanatismo próprio dessa estirpe. Por isso foi incapaz sequer de reconhecer o erro e repor os feriados no final do seu mandato. Se o tivesse feito, talvez não existisse hoje um governo de esquerda. Mas, como Passos Coelho sempre disse que se estava a lixar para as eleições, acabou por se lixar a ele próprio e ao PSD no seu conjunto.

 

António Costa é que percebeu muito bem o valor dos símbolos nacionais e não hesitou em repor imediatamente os feriados, nem sequer querendo saber do período de transição que a lei estabelecia. Mas fez mais do que isso. Aproveitando as hesitações de Marcelo Rebelo de Sousa resolveu referendar o diploma, o que é uma simples formalidade, em cerimónia pública no Palácio da Independência. Com isso, não apenas capitalizou o erro de Passos Coelho a seu favor, mas deu-lhe um tiro mortal no seu autoproclamado estatuto de primeiro-ministro no exílio. Isto é a política pura e dura. Chapeau!

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16 comentários

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De ali kath a 30.03.2016 às 09:31

gostei da sua ironia
sobre um 'local mal frequentado', o rectângulo do monólogo e monótono sucialismo
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De Anónimo a 30.03.2016 às 09:42

É um exercício de cinismo, porque não há gente mais vendida a interesses estrangeiros do que os socialistas, mas a estupidez do Passos Coelho permitiu que o Costa vestisse a pele do "patriota" que "restaura" os símbolos nacionais. Não foi por acaso que o socialista, precisamente para envergonhar o PSD, escolheu o Palácio da Independência, e não algum sítio relacionado com a esquerda e com a instauração da I República, pois o 5 de Outubro foi o outro feriado reposto.

E isto vem à "boleia" da polémica com a banca, em que o Costa, depois de praticamente oferecer o Banif ao Santander, se permite agora fazer de "defensor" dos interesses dos portugueses, enquanto o PSD se mostra indiferente à questão do "controlo" da banca. É uma posição coerente, mas também os comunistas são coerentes e não gosto deles nem pintados.
Para além dos socialistas, só cá faltava um PSD internacionalista também. Deixem-se de tretas, devemos ser liberais no que nos convém, que é o que os outros fazem também.
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De ali kath a 30.03.2016 às 11:59

'nunca se perturba o inimigo enquanto comete'
atribuida a Napoleão

até à próxima falência ... se não for antes
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De AntónioF a 30.03.2016 às 13:11

Não estou a ver, caro «anónimo», sítios históricos relacionados com os feriados que sejam de esquerda ou de direita.
Os feriados são sim nacionais.
Claro que a direita, neste assunto, é mais facciosa que a esquerda: pois acarinha uns feriados... outros não: uns não gostam do 5 de Outubro (ou melhor não gostam do que se celebra nesse dia, pretendiam outro acontecimento), outros não gostam do 25 de Abril (por certo prefeririam o 28 de Maio), outros não gostam do 1º de Maio, outros encaram mal 10 de Junho como dia de Portugal (acham-no o dia da Raça), etc., etc.
A esquerda não, acha os feriados nacionais como isso mesmo: nacionais na sua plenitude.

Quanto ao facto de haver sectores da sociedade portuguesa que revêm na medida do anterior governo (PSD-CDS/PP) de direita de abolir estas duas datas, nomeadamente o 1º de Dezembro, isso não causa estranheza alguma. Se reparar nos momentos chave da nossa história enquanto país nunca houve consenso:
1- Havia quem estivesse com Dª Teresa e quem estivesse com D. Afonso Henriques
2 - Havia quem estivesse com D. Sancho II e quem estivesse com D. Afonso III
3 - Havia quem estivesse com Dª Beatriz e quem estivesse com o Mestre de Aviz
4 - Havia quem estivesse com D. Afonso V e quem estivesse com o Infante D. Pedro
5 - Havia os Velhos do Restelo
6 - Havia quem estivesse com Filipe II de Espanha e quem estivesse com D. António Prior do Crato
7 - Havia quem estivesse com a Duquesa de Mântua e quem estivesse com D. João IV
8 - Havia quem estivesse contra e quem apoiasse o Marquês de Pombal
9 - Havia quem estivesse com D. Miguel e quem estivesse com D. Pedro IV
10 - Havia quem estivesse contra a Implantação da República
11 - Etc., etc., etc.
Como deve compreender, eventualmente por certo, o anterior governo respondia aos anseios dos primeiros... por isso aboliu o 5 de Outubro e o 1º de Dezembro como datas celebrativas da identidade de Portugal
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De JgMenos a 30.03.2016 às 13:11

Não há vigários sem talento!
E sempre há quem compre banha de cobra...
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De Octávio dos Santos a 30.03.2016 às 17:08

O feriado de 5 de Outubro foi bem abolido: comemora(va) um golpe de Estado perpetrado por uma minoria de fanáticos e de terroristas (regicidas, assassinos) que derrubou um regime democrático (pelos padrões da época, e em consonância com o que existia em outros países).

Neste assunto Pedro Passos Coelho não mostrou «fanatismo» mas sim incompetência e inépcia. Além de que PSD e CDS poderão ser partidos «estúpidos» - a manutenção do AO90, e não só, demonstra-o - mas não são de direita.
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De lucklucky a 30.03.2016 às 19:07

Muito bem a critica à Direita que temos.
Sim é de facto estupida, gosta muito de aparências. Aparência de esforço, aparência de produtividade.

Em vez de ir ao que trava a produtividade dos portugueses prefere ir a fait divers que irritam e não mudam nada de fundamental.
Mas atenção ir ao que trava a produtividade implica atingir os privilégios aristocratas do Regime do 25 de Abril. Isso já não queremos não é?

Só discordo do elogio a Costa. Não tem nada que e ver com respeito, tem que ver com eleições.

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De BELIAL a 30.03.2016 às 19:50

PANDITA COSTA - there is no substitute !

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De antónio a 30.03.2016 às 21:05

Isto de compreender e manipular as massas não é para qualquer um. Contudo há uma enorme diferença entre um estadista verdadeiramente preparado para governar uma nação e um "politico" de segunda apanha que é no fundo o que melhor caracteriza Costa. Esta aventura de Costa terá consequências ainda imprevisíveis para Portugal e a isso ninguém dirá chapeau !
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De WW a 31.03.2016 às 09:29

Concedo que Costa é de segunda apanha, já o Passos deve ser de que categoria ?
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De Anónimo a 30.03.2016 às 21:42

Sou antissistema.
Logo não posso ser por Costa.
Mas reconheço que Costa se tem revelado um estratega político de mão cheia.
Fez um autêntico segundo 25Abril ao levar a esquerda ao poder.
Negociou o OE com mestria extrema.
Mantém o difícil equilíbrio entre as forças que sustentam o governo.
O seu ministério da educação, que inicialmente só disse e fez asneiras, tirou agora um enorme coelho da cartola: protocolar com as instituições formação dos alunos do ensino básico em áreas da vida concreta, como, por exemplo, primeiros socorros. Finalmente!
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De Vento a 30.03.2016 às 22:10

Creio que vou ver o Luís votar no Costa. Junte-se aqui ao clube. Ultrapasse aquele trauma sobre a rotunda do Marquês e tudo fluirá naturalmente.
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De Luís Menezes Leitão a 31.03.2016 às 08:43

Cruzes, canhoto! Em caso algum votaria em Costa. O que não me impede de reconhecer quando ele faz uma coisa bem feita. A política é precisamente perceber e avisar quando o partido que apoiamos está a perder terreno.

Quanto ao meu trauma da rotunda do Marquês, ele todos os dias se repete quando tenho que passar por lá. Amaldiçoo sempre a absurda invenção que me obriga a ficar engarrafado numa rotunda que não anda. E tenho reparado que os acidentes são cada vez mais frequentes. Ainda ontem assisti a um. Esse é também um exemplo da estupidez, desta vez da esquerda. E também me parece que não vai ser corrigido atempadamente. Mas Costa já rumou para outras paragens mais verdejantes. Quem ficou na Câmara que se amanhe.
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De Anónimo a 31.03.2016 às 14:07

Isto é grave. Quando se afirma que em caso algum se votaria em António Costa quer dizer que mesmo que ele fosse ou seja um político excepcional, isso não interessa, o que interessa é o partidarismo. Tal afirmação, reflecte o mal da nossa sociedade que nada aprendeu com a história e a história nada lhes ensinou.
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De lucklucky a 01.04.2016 às 06:42

A maneira bizarra como muitos portugueses pensam e se expressam mostram que qualquer coisa não funciona.
Começando por sequer nem pensarem no que o outro diz.

O post do Anónimo a 31.03.2016 às 14:07 é um bom exemplo. Não há lógica nenhuma naquilo que que diz. António Costa é um lider do partido socialista com determinada características e comportamento.

E para o fim demonstra coisa pior ao falar de político excepcional, como se tal fosse coisa boa.



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De Nuno a 31.03.2016 às 01:08

"Passos Coelho não resistiu a fazer um disparate semelhante com a abolição dos feriados, neste caso com a gravidade de mexer com símbolos nacionais importantíssimos para a comunidade, como a implantação da República a 5 de Outubro ou a Restauração da Independência a 1 de Dezembro."

Diga lá, oh Luís, quais seriam os feriados que podiam ser abolidos sem a gravidade de mexer em símbolos nacionais importantíssimos para a comunidade?

Enquanto outros países têm um dia nacional em que celebram a independência, a constituição, e/ou o regime, Portugal tem, além do seu dia nacional, outros 3 onde celebra 3 dos últimos 5 ou 6 regimes. Cada revolução, mais um feriado.

E todos são símbolos importantíssimos para a comunidade, no sentido em (e.g.) que há mais portugueses a festejar a restauração da independência passando férias em Espanha do que participantes em todas as comemorações do dia somadas.

Os feriados são populares e aboli-los é impopular. Os partidos não devem fazer coisas impopulares sem um motivo forte, sob pena de perderem votos. "News at 11."

PS: era igual ou mais popular aumentar os dias de férias, equiparar o dia de aniversário a feriado, dar mais dias à volta do Natal, Páscoa, ou até o Carnaval. Coisas que as pessoas realmente festejam, que não é o caso dos nossos dias nacionais. Excepto o 25 de Abril, que é o único que ainda tem alguma adesão popular.

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