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Centenários

por Isabel Mouzinho, em 08.01.16

Dois grandes nomes das letras portuguesas nasceram há cem anos, com cerca de seis meses de diferença. Vergílio Ferreira (um dos meus escritores portugueses favoritos) surge em grande destaque no último número do JL, que lhe dedica várias páginas com textos de Helder Godinho, Alberto da Costa e Silva, Lídia Jorge, Eduardo Lourenço e um notável artigo de Maria Alzira Seixo, intitulado "Vergílio Ferreira, cem anos de inquietação", do qual transcrevo um pequeno excerto, e que constitui razão mais que suficiente para comprar o jornal, apesar de ser quase escandaloso o preço a que é vendido.

(...)  Vergílio, sobretudo a partir de Aparição, 1959, prossegue uma via de criação direccionada muito própria, aureolada pela filosofia que sempre o acompanha: a meditação sobre o destino humano e modos descontínuos de o exprimir ("espantados", dir-se-ia pensando em Raul Brandão; "alarmados", é o termo próprio no léxico de Vergílio). E que ele vai, a par, desenvolvendo em escritos reflexivos, desde Do Mundo Original e Carta ao Futuro, passando por decisivos tomos de Espaço do Invisível (onde indagação filosófica e literária se interligam) e certos trechos do diário Conta-Corrente, bem como de outras obras teorizantes de que destaco o seu final Pensar, de 1992, conjunto de textos apologais, por vezes divertidos, sempre de profundo alcance. (...)

A inquietação com que se elabora a obra de Vergílio decorre da sua temática mas está patente, antes de mais, no modo como estrutura os seus romances e a sua frase, no tipo de vocabulário que selecciona, do qual certos termos passaram a reenviar, directa ou indirectamente para o seu discurso típico. É uma inquietação que toma também o leitor, o que se deixa prender pelo seu fascínio; e que dará longo e diversificado caminho a quem pecorrer a obra que nos legou. Inquietação humana também, não apenas literária, mas fortemente literária. Porque a problemática do homem, sujeito da vivência das coisas e do próprio discurso, vai nesta obra muito além do que acima sugeri: ultrapassa a questão do "eu" para o abordar em vários modos que esse "eu" manifesta.

Foi também pela mão e pela sabedoria da minha querida professora Maria Alzira Seixo que descobri em Mário Dionísio um escritor fascinante, apesar de injustamente esquecido, como outros: Abelaira, por exemplo.

Na comemoração do centenário do seu nascimento, o Projecto Sinestesia do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em colaboração com a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, o Museu do Neo-Realismo e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo organizam de 27 a 29 de Outubro um Congresso Internacional sobre a vida e obra deste ensaísta, crítico literário e de arte, poeta, romancista, pintor, pedagogo, dando a conhecer as múltiplas facetas de uma das personalidades mais marcantes da cultura portuguesa do século XX.

Para quem não conhece, vale a pena fazer uma visita à Casa da Achada, também designada Centro Mário Dionísio, situada na Lisboa mais típica, entre a Mouraria e o Castelo, mesmo por trás da Igreja de São Cristóvão, onde está reunido o espólio do autor, tanto de pintura como de literatura, o arquivo pessoal e a sua biblioteca privada.

De todas as actividades e celebrações previstas para 2016 a propósito destes dois centenários, destaco ainda o ciclo de conferências: "Vergílio Ferreira e Mário Dionísio: Literatura, pensamento e arte", que terá lugar no CCB já entre 15 de Fevereiro e 14 de Março, sempre às segundas, das 18 à 19h, e que certamente contribuirá para nos dar a conhecer um pouco melhor o pensamento e a obra destes dois autores e para nos fazer ver de forma ainda mais clara a importância das palavras, da literatura e da poesia; e como elas podem fazer-nos pensar, modificar-nos, mudar a nossa vida, ajudar-nos  a viver melhor. 


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