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Delito de Opinião

Cavaco e as causas do eclipse laranja

Pedro Correia, 13.06.22

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Dizia alguém que somos escravos das nossas frases e donos do nosso silêncio. Aníbal Cavaco Silva bebeu desta sabedoria: evita desgastar-se em alocuções diárias, sabendo de antemão que será mais escutado nas raras ocasiões em que decide intervir no espaço público.

Voltou a acontecer há dias, num serão televisivo. Cavaco não decepcionou aqueles que o ouviram na entrevista exclusiva à CNN Portugal. Falou de forma clara e acutilante, sem rodriguinhos nem entretantos. Mostrando ao seu partido de sempre, o PSD, como se deve fazer oposição. A ocasião escolhida para prestar estas declarações não surgiu por acaso, coincidindo com o final do mandato de quatro anos de Rui Rio à frente dos sociais-democratas e a eleição, ainda sem tomada de posse, do novo líder, Luís Montenegro.

É o momento propício para lançar avisos à navegação. Cavaco não mandou recados por “fontes próximas”, ao contrário do que costumam fazer outras ilustres figuras do palco político: falou em discurso directo, o que confere valor reforçado às suas palavras.

 

Furo jornalístico, sem sombra de dúvida. Ciente disso, a CNNP apressou-se a exibir em oráculo, logo a abrir: «Cavaco arrasa Rio.» Recorrendo a um dos verbos mais desgastados da comunicação social portuguesa. E pecando por precipitação: o telespectador ainda nada ouvira.

Mas, de facto, o homem que ocupou durante 20 anos o poder em Portugal – uma década como primeiro-ministro, outra como Presidente da República – não foi meigo com o líder cessante do PSD. Disse, no fundo, aquilo que quase todos os tradicionais eleitores sociais-democratas pensam destes quatro anos de eclipse laranja. Naquele seu jeito de comunicar em linha recta, sem procurar atalhos nem esbanjar vocábulos.

«O PSD não foi vencedor em nenhum concelho a sul de Alcobaça. Os eleitores não viram o PSD como um partido verdadeiramente nacional, como alternativa ao PS. Quase parecia um partido regional. Muitos eleitores viam um PSD que era suporte do PS e às vezes era humilhado em debates na Assembleia da República pelo PS.»

Bastaram quatro frases para demolir o desastroso legado de Rio, que sai de cena como o maior derrotado de que há memória na já vasta galeria de presidentes da agremiação política fundada em 1974 por Francisco Sá Carneiro. António Costa bem pode agradecer-lhe a maioria absoluta que o PS agora ostenta.

 

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Ficou a sensação de que a entrevistadora, Maria João Avillez, poderia ter permitido maior intervenção ao entrevistado. Algumas das suas perguntas continham considerações diversas, tornando-se mais extensas do que as respostas. E houve desnecessárias interrupções ao fio discursivo do economista de Boliqueime, que falava no seu habitual gabinete de trabalho. Numa das paredes, exibe-se uma gravura em grande dimensão com a imagem do próprio Cavaco Silva, ainda jovem, daquele tempo em que conquistou duas maiorias absolutas em São Bento. Meta inimaginável para o PSD de hoje.

Detecta-se ali um traço de nostalgia, que a realização soube destacar também com faro jornalístico. Em política, cada pormenor conta. Em televisão também.        

 

Texto publicado no semanário Novo.

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