Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Catar - o rescaldo

jpt, 11.12.22

neymar.jpg

(Postal no meu mural de Facebook)

1. O plano para ontem era assistir ao Portugal-Marrocos e ao França-Inglaterra. Logo adveio o infausto destino luso - algo imerecido, insisto, pois a equipa "das quinas" criou um punhado de hipóteses de golo ultrapassando o autocarro de Rabat, jogando muitíssimo melhor do que a vice-campeã mundial Croácia, a celebrada Bélgica e a mui convencida Espanha o haviam feito diante daquele antipático e infértil catenaccio berbere.

Acontecido o desastre pátrio foi patente o acabrunhamento da nossa pequena comunidade, sanguinolento neste vosso "amigo-FB" letrado e patente nos restantes presentes. Após o (longo) estupor inicial decidi ultrapassar a minha abissal vertigem suicidária através de trechos de uma bôla de carne (de Lamego) acompanhados de um tinto de Setúbal apresentado em vasilhame de cartão a 3 euros o litro, de marca esquecível e de sabor bem bebível. Fui nisso ombreado por uma das ali teleespectadoras, gentil o suficiente para aturar as algo engrandecidas memórias de vida aventurosa que fui então desfiando, nisso tentando esquecer o vazio existencial desde agora feito definitivo - o meu artificial "daqui a 4 anos há mais Mundial!" fora acolhido com evidente fastio, algo que li como uma ali generalizada descrença de que eu ainda por cá ande nessa época.

Nisso começou o conflito (de séculos) França-Inglaterra, o qual por todos foi ignorado, sem qualquer azedume pois apenas um desinteresse fruto do torpor desesperançado. "The Show Must Go On", pensámos - em réstias do recente apoio aos pupilos do cidadão Kane -, e refugiou-se o contingente num restaurante da planície vizinha, que tem os defeitos de parecer "Lisboa", em cardápio, confecção e ambiência "classe média" local. Lânguido, rebaixei-me a um hamburguer (com lâmina de queijo industrial) num pão - ao qual ali dão o patusco nome de caco, correspondente ao estado em que me sentia - acompanhado de mais um par de copos de vinho da região. E nesse longo entretanto, horas decorridas, fui ignorando a miríade de mensagens recebidas, algumas iradas (com o engenheiro Santos e avulsos jogadores), outras mesmo humorísticas. Para além das condolências recebidas de amigos moçambicanos, nas quais viria a detectar algum ligeiro e risonho sarcasmo, malévolo.

2. A alvorada de hoje recebeu-me nebulosa e chuvosa. Estou de viagem, cumpre-me percorrer cerca de 20 kms até à serra defronte ao mar, para almoço em casa amiga. Mas o pior já passou, percebo que encontrei em mim mesmo forças para enfrentar os anos vindouros mesmo sem a taça almejada no bojo. Será, é certo, uma vida triste. Mas é o fado, como antevi ontem.

3. Que retirei desta última experiência havida? Isto, o filho do jogador croata a percorrer o campo para saudar/animar o seu ídolo Neymar, este choroso após a derrota eliminadora. Em radical contraposição com o acontecido no mesmo dia, os energúmenos jogadores argentinos (encabeçados pelo benfiquista - tinha de ser - Otamendi) gozando os também devastados eliminados holandeses. E o ídolo Messi, insultando o derrotado adversário que esperava para o cumprimentar... Ocorre-me aquela piada que me contam há pouco: "o melhor negócio possível é comprar um argentino pelo preço que vale e vendê-lo pelo preço que ele julga valer!". Não, não é apenas a voluptuosa Miss que me faz torcer, com a diminuta energia que me restou, pela Croácia.

4. É geral - vê-se nos "memes", percebo-o no que leio entre os meus amigos austrais - a saudação aos bons "africanos" marroquinos, representantes dos "vencidos", de África, do "Mundo Árabe", reconquistadores do Al-Gharb, o pérfido "ocidente". Para além do meu incómodo com estas politiquices da bola, mas porque elas "fazem parte", respondo em dois fascículos: 1) "Poitiers" (ou "Tours") - sim, eu sei que a batalha é muito mitificada, e terá sido menos relevante militarmente do que diz a lenda, mas é um bom símbolo; 2) para os mais políticos pan-africanistas, com pitada de revanchismo até nisto da bola (e para os "decoloniais" que se comoveram com a bandeira palestiana nas mãos de um jogador marroquino após uma vitória), deixo apenas, e nisso com uma implícita citação do agora celebrizado José Milhazes, "Saara Ocidental". Ou seja, deixem-se de tretas...

5. Tenho as minhas ligações de FB apinhadas de postais de portugueses (e de partilhas de postais de jogadores internacionais) louvando o ídolo e grande campeão Cristiano Ronaldo. Ou seja, não exageremos, há muito ressabiamento por cá, entre doutores comentadores, jornalistas, painelistas e anónimos vis. Mas, de facto, nós-plebe adoramos o CR7!

Vou então ao almoço. Com uma garrafa de tinto de Palmela debaixo do braço.

5 comentários

Comentar post