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Delito de Opinião

Catalunha: os meus argumentos contra este referendo

João André, 29.09.17

A L. é uma amiga minha catalã. Até aqui nada de especial, não sou o único, nem ela é a única amiga catalã. Só que a L., apesar de nascida na Catalunha e lá ter crescido a vida inteira, tem as raízes na Galiza. Os pais mudaram-se para a Catalunha antes de ela nascer em busca de melhor vida. A L. (e irmãos) nasceram e cresceram em democracia e ao abrigo da Constituição de 1978. Entre eles fala o catalão. Com os pais o castelhano (ou espanhol, quem quiser que use o termo preferido). A L. vai várias vezes por ano à Galiza. É também a favor do referendo e, parece-me, da independência da Catalunha. Só que neste aspecto tem menos certezas: «sinto-me também espanhola» respondeu ela na única vez que entrei na discussão pelo lado dos afectos.

 

Já conheci outros catalães que são acérrimos defensores da independência. Outros são a favor de manter as coisas como são, aumentar a autonomia ou, já me aconteceu, reduzir a mesma. Se tiver que estimar, penso que haverá mais gente a favor da independência que contra ela. Mas raro é aquele que tem uma ideia do que acontece depois. Claro, isto é a amostra que tenho ao meu dispor e nada representativa de nada na Catalunha.

 

A melhor forma de avaliar a presente opinião, à falta de um voto real, é a ferramenta das sondagens. Apresento em baixo a que a Economist publicou na edição da semana passada. Não se trata de ver se há ou não maioria para a independência (não há). Para mim o mais revelador é como o apoio à independência subiu de cerca de 15% em 2006 para quase 50% em 2013/14 (depois de uma subida fortíssima a partir de 2009) e agora caiu novamente para cerca de 35%. É obviamente tentador atribuir este apoio à recessão económica: os catalães viram a sua vida piorar, culparam um dos governantes (entre os dois à escolha) e o outro aproveitou para fazer o mesmo. O mesmo mecanismo que leva ao crescimento de forças anti-democráticas.

 

economist_polls catalonia independence.png

 

É simples e algo simplista. Muitos outros factores terão influenciado este apoio à independência. Até poderia apontar o pico da equipa do Barcelona FC quando treinada por um catalão favorável à independência e a jogar com múltiplos jogadores formados "na casa", muitos deles também catalães. Isto é ainda mais importante quanto o Barcelona foi, no passado, um foco de reunião dos catalães.

 

Só que o crescimento rápido também aponta para uma população com opiniões algo efémeras. Não é um crescimento sustentado, resultante de uma ou mais gerações a serem expostas aos malefícios da nação espanhola. É uma mudança que surge ao sabor dos posts no Facebook, Tweets e manifestações que são festas. É um crescimento que deveria fazer parar para pensar. É um crescimento obviamente resultante de um período de propaganda intensa dos partidos independentistas que tentaram (e não conseguiram) controlar a Generalitat.

 

Significa isso que um referendo estará fora de questão? Obviamente que não. Todas as populações devem ter direito à sua independência se o desejarem. Só que o "povo" catalão não é exactamente oprimido. Tem uma autonomia enorme e poucas são as áreas em que não tem autodeterminação. A sua língua é inclusivamente protegida e pode ser usada nas escolas sem problemas (há muitos outros países onde isso não sucede com línguas regionais). Ainda assim apenas 36% da população aponta o catalão como língua de identidade (47% fá-lo com o espanhol/castelhano). Contribuirão mais do que recebem, no balanço total, em termos fiscais. No entanto, sendo uma região mais rica, isso sucederia sempre, como sucede noutros países ou na UE. Aquilo que não têm é independência. Querem alcançá-la? É legítimo. Só que tal deve ser feito por meios legítimos.

 

A Espanha aprovou a sua actual constituição, que proclama o Estado como indivisível, no referendo de 1978. A Catalunha também votou nesse referendo e um total de 61,4% dos eleitores aprovaram a mesma (90,46% a favor com abstenção de 32,09%). Não se pode dizer que a Catalunha não tenha sido ouvida na discussão ou que a tenha rejeitado. Ora, se assim foi, o resto do país pode e deve ser ouvido na discussão sobre a independência da Catalunha, dado que foi isso que aprovaram há 40 anos. Não o fazer, como pretendem os governantes catalães, é de facto ilegal e um atentado aos direitos daqueles, maioria ou minoria, que preferem manter as coisas como estão.

 

Está mais que visto que, se o referendo de 1 de Outubro for avante, o resultado será esmagadoramente a favor da inependência. Sê-lo-ia mesmo que Rajoy, com o seu estilo de touro raivoso, não tivesse quase militarizado a situação. Isto porque, sendo visto como ilegal, os catalães contra a independência não iriam comparecer. Aquilo que resultará será um aumentar das tensões de forma desnecessária.

 

A melhor forma de resolver o problema teria sido simples: o Estado espanhol aceitaria dar mais algumas concessões aos catalães (inclusive a simbólica de aceitar a língua catalã como parte da identidade) em troca de um referendo organizado pelo país. Se esse referendo, que deveria ter discussões esclarecedoras e as consequências de qualquer independência bem claras, desse na independência, então assim fosse. Só que essa independência deveria ser tão clara como o voto em favor da constituição de 1978. Caso contrário deveria ser rejeitada.

 

O Reino Unido, sem grandes alaridos nem pesos legais, assim procedeu em relação à Escócia. Os escoceses acabaram por preferir ficar no RU. Pessoalmente penso que os catalães acabariam por perceber que, por muito que possam pagar à Espanha, o facto de nela estarem integrados trar-lhes-á muitos outros benefícios. No caso da L., penso que traria também paz de espiríto.

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