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Castelos no ar

por Maria Dulce Fernandes, em 18.06.19

 As Minhas Casinhas*

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É muito vaga a minha recordação da Casa Onde Nasci, mas tenho a certeza que ali morei durante muitos meses a partir do momento em que respirei pela primeira vez, fora do ventre da minha mãe.  

Sei que era uma casinha alegre e mimosa, um T1, pelos padrões de hoje, género de aconchego onde noivos vão noivar. Tinha flores coloridas nos parapeitos das janelas e muito sol incrustado nos umbrais. 

Não me traz recordações. Lembro- me de ir lá com a minha mãe ver a “Avó Augusta", a senhoria, que me levou a ver onde nasci e, melhor ainda, ofereceu-me um cartuchinho de papel cheio de rebuçados de alteia e mel com o carimbo do confeiteiro. Desses lembro-me bem. 

A Casa da Avó era antiga, de tectos altos e soalho esfregado. Havia o quarto escuro da Avó Júlia onde sobressaíam os verdejantes números e ponteiros de grande despertador com duas campainhasA cozinha era enorme, com imensas talhas de barro que lembravam sarcófagos e uma walk-in chaminé, por onde o Avô Américo fazia subir no Natal, por artes lá muito dele, um boneco que eu acreditei durante muito tempo ser o Menino Jesus. As escadinhas para o sótão, onde o sol brincalhão bailava por entre as telhas, eram um mundo encantado de mistério e um caleidoscópio de cor. Encravada entre a Memória e o Restelo numa zona de quintas, compõe o quadro mais vivo das minhas lembranças.  

Não me recordo de outro local onde, em toda a minha vida, fosse tão amada e tão feliz. 

Já a “Casa Velha" no número 21 da mesma rua onde moravam os meus avós e onde a minha mãe nasceutinha paredes grossas e pouca luz, um denso ninho de pássaros, tal qual o número 5 de Pollock, era como o quadro plena de texturarebuliço e contrastes. 

Foi ali que tive a primeira televisão e o primeiro irmão. Ambas ocasiões marcantes nos meus tenros 4 anos. Apesar de gostar mais da televisão e adorar a mira técnica e o Mascarilha, tenho que admitir que o meu irmão era um bebé encantador. Primeiro da sua espécie numa longa linhagem de fêmeas, fez as delícias da mãe, do pai e do avô, era o ai jesus de todas as anciãs genitoras, mas sem nunca ter chegado a atingir a entronização que me pertencia  

Numa época em que se criava um mundo com paus, pedras, folhas, papéis e terra, o meu irmão descobriu uma pequena fresta entre duas tábuas do soalho e pedia tostões para lá meter à laia de mealheiro. Nunca entendi bem qual a sensação de realização infantil em ver desaparecer dinheiro, tampouco porque é que tanta gente lho dava e achava aquilo o máximo. 

Pelos meus 6 anos mudámos para a “Casa Nova", um terceiro andar acabadinho de estrear no número 37 da mesma rua. Tinha - e tem ainda - uma das mais belas vistas sobre o Tejo, como um fantástico postal, da Ponte à Torre de Belém.  

A minha vista daquela varanda transbordou de confidências de estudante de primeira classe, irmã pela segunda vez, estudante de preparatória, de liceu, de faculdade, criança, menina, namorada, mulher, esposa e mãe. 

Casei cedo. A Casa do Cacém, comprada em 1980, num local com um ribeiro junto ao qual pastavam cabrinhas, tinha arvores frondosas e muito sossego, um verdadeiro cenário idílico para se criar um filho. Os fantásticos primeiros dois anos enovelaram-se num pesadelo de trânsito sufocado num inferno de betão. Foram 19 anos de muita luta. Era a minha casa. Foi lá que criei as filhas. Nunca foi mau, mas não me deixou saudades. Trocar Belém e Tejo por uma selva de pedra, claustrofóbica e poluída foi necessário, mas nunca definitivo. 

A Casa de Alfragide, actualmente, é o meu castelo no ar. Não tem prédios que enclausurem o olhar  que se perde até ao horizonte, no mar. Vê-se céu até fartar e pores do sol de arrepiar. À noite, lua e estrelas acenam para me saudar. Ao longe tem mil luzes a brilhar. Dá-me paz. Deixa-me respirar. 

Casei uma filha, tenho outra quase a casar. Tenho uma neta, e um neto quase a chegar. Dois gatos e salas imensas, prenhes de céu, serra e mar. Se será o meu derradeiro ninho, não sei, mas não anseio mudar. É o aconchego perfeito para poder descansar.  

 

*Repto deixado pelo Pedro Correia para escrevermos sobre as casas da nossa vida

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20 comentários

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De Anónimo a 18.06.2019 às 23:03

Perdoe a indiscrição : Liceu de Oeiras?.
É que...

Cpmts.



JSP
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De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2019 às 00:37

Liceu Rainha D. Amélia 71/76.

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De Anónimo a 19.06.2019 às 11:33

Andei lá dois anos, mas ainda no tempo da outra senhora, quando se chamava Rainha D. Leonor.
O que eu gostava de ter aulas na sala do fogão, aquela que dava para o terraço.
E aquele recreio, onde as contínuas não permitiam que olhássemos para os rapazes do Liceu D. João de Castro que nos assobiavam lá do Alto de Santo Amaro.
Tantas proibições, uma tristeza!
Os jovens agora são felizes e nem sabem...

Maria
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De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2019 às 11:57

A Sala do fogão era aquela da varanda que dava para o recreio? No meu tempo estava adaptada a laboratório de ciencias naturais. Abri muito bicharoco por lá.
Nem sei se os jovens são mais felizes. Não precisam de grande imaginação. Há sempre uma app que imagina por eles. São muito mais livres? Por um lado, sim, por outro são escravos do digital.
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De Anónimo a 19.06.2019 às 13:16

O terraço dava para a Rua da Junqueira e, talvez sim, também para o Recreio; e claro que não podíamos ir para o terraço... era proibido!

Dulce, conheço muito adulto que também é escravo do digital, isso não é exclusivo dos jovens.

No meu tempo tínhamos aulas ao Sábado de manhã. Um dia, o meu irmão (4 anos mais velho) foi-me esperar para irmos para casa juntos. Quando me viu sair, atravessou a rua e deu-me 2 beijos na cara, como fazíamos sempre de manhã e à noite.
De imediato, fui agarrada por um braço e levada à Reitoria, onde ninguém quis acreditar que era meu irmão - e ainda que fosse, era proibido ter contactos com qualquer rapaz a menos de 200 ou 300 metros (já não recordo) do Liceu.
Os meus pais tiveram que ir lá confirmar, para eu não ficar com nota de mau comportamento.
Era assim, Dulce, nunca esqueci esta triste cena.
E não havia nexexidade, penso eu de que...
Não tenho saudades desse tempo, meninas para um lado, meninos para o outro, a vida não é assim, isso não é natural.
E há coisas que nos marcam para a vida, quer queiramos, quer não.

Maria
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De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2019 às 13:36

Não me referia ao terraço, Maria. À balustrada da Rua da Junqueira só cheguei uma vez na vida, a seguir ao 25 de Abril, que vivi lá, no Liceu. Falava da sala da varanda com as três portas-janelas que dava para o pátio.
Os primeiros anos vivemos sim, uma espécie de apartheid, mas era engraçado, com códigos secretos e bilhetinhos, tudo muito arriscado e misterioso. A seguir ao 25 de Abril foi uma autêntica choldra, fazia-se tudo menos estudar, plenários, sessões de esclarecimento, comícios...
Professores homens e meninas grávidas.
Os professores tinham medo de serem fascistas. O Prof, José Hermano Saraiva deu 3 aulas à minha turma. Soubemos depois que foi saneado. Em 76 as coisas acalmaram um bocado, mas já nada foi igual.
Ums das recordações mais gratas foi o Maestro José Atalaya apresentar a Tetralogia de Wagner! Depois levou-nos a ver o Ouro no Reno e a Valquíria no Coliseu , e Sigfried e o Crepúsculo dos Deuses no S. Carlos.
Se tenho saudades? Muitas!
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De Anónimo a 19.06.2019 às 14:24

Acredito, Dulce, e eu também fiz algumas amigas por lá, mas não tenho saudades daquele regime, até porque sempre fui uma pateta bem comportada e detestava que me proibissem de fazer coisas inocentes (still do ).

E no seu tempo ainda usavam aquelas batas cinza claro com as cores do ano na cintura?

Eu ainda participei num daqueles festivais de ginástica do 10 de Junho, que eles faziam no Estádio Nacional - com uns ridículos fatinhos de saia-calça (pena não ter fotos do evento).
Enfim, lá sobrevivi.

Maria
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De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2019 às 14:39

No meutempo já eram azuis claras, as batas, mas obedeciam a um modelo, qe vonha com o material escolar que se comprava no início do ano lectivo. Mais para a frente os modelos já eram mais ad lib, e depois de 25 deAbril, usar bata era quase sacrilégio.
Os festivais de ginástica ia apenas ver. Nunca fui fã. Gostava de Basquete, mas tive a Madalena Canha quando estive no polo da antiga Rua da Creche e tinha educação física no Pavilhão da Tapada, e aí, passei a gostar também de vólei.
Foram tempos memoráveis.
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De Anónimo a 19.06.2019 às 15:21

Eu também não era fã, Dulce, mas não era opcional.
Lembrei-me disso, muito mais tarde, ao ver os filmes da Leni Riefenstahl.
Como também não foi opcional ir cantar já não recordo o quê ao Colégio de S. José no Restelo (corrija-me, se estiver errada, podia ser outro santo).
O meu pai recusou comprar-me um fato da Mocidade Portuguesa, pois no dia do recital lá me mascararam e lá tive que ir. Havia imensos rouxinóis no grupo coral do Liceu, mas poucas alunas da 3a. voz , e eu era uma delas...
E foi a minha única performance on stage 🤗
Apesar de tudo, foi bom recordar, já lá vão cinquenta e muiiitos anos.

Maria
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De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2019 às 15:48

Comigo, era obrigatório ir ver e apoiar, mas só participavam as melhores.
O Colégio de S. José ainda está no Restelo, no mesmo sítio , passo lá praticamente todos os dias há mais de 40 anos.
A farda da Mocidade Portuguesa não usei,apenas a camisola e calção de ginástica tinham o emblema. A saudação só mesmo nos dois anos na Escola Preparatória de Paula Vicente.
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De Bea a 19.06.2019 às 07:43

Seja ou não definitivo, é bom ter casa que lhe agrade e dê espaço. Desejo que nela seja feliz e recupere um pouco do bem estar que viveu na casa da avó Augusta.
O último parágrafo rima:)
Bom Dia
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De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2019 às 08:22

Viva Bea, bom dia!
Pois rima. Fui escrevendo e quando reparei achei um bocado pimba. Mas como me arrancou um sorriso escancarado, não alterei.
Beijinho para si
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De Pedro Correia a 19.06.2019 às 09:04

Muito bem, Dulce. Gostei deste sugestivo exercício memorialístico e desta partilha de recordações.
Espero que outros colegas de blogue façam o mesmo.
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De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2019 às 09:24

Obrigada, Pedro, por todos os incentivos
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De Teresa Ribeiro a 19.06.2019 às 19:52

Gostei muito de ler o texto, mas também a conversa com a Maria na caixa de comentários, feita de postais vívidos daquela época. Beijinho para as duas :)
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De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2019 às 21:09

Obrigada Teresa. Beijinho para si também e bom feriado
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De Anónimo a 19.06.2019 às 21:52

Obrigada, Teresa.
As memórias estavam guardadas nem sei onde e foi vê-las saltar todas em catadupa.
Entretanto fui espreitar à net e fiquei em estado de choque: o palacete está uma completa ruína.
Inacreditável!
Beijinho e bom feriado.

Maria
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De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2019 às 22:42

Esteve sim, Maria, durante muitos anos.
Agora está a ser reconstruido pra ser reabilitadove recuperado como hotel museu


https://www.facebook.com/groups/258710823859/

https://www.oturismo.pt/oturismo/36978-palacio-dos-condes-da-ribeira-grande-em-lisboa-sera-um-hotel-de-cinco-estrelas.html

No grupo de antigas alunas, tem muitas fotos de visitas antes de começar a obra.


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De s o s a 19.06.2019 às 23:15

uma casa sao dois coisa : o interior e aquelas que tambem tem horizonte.

Claro que tambem a visao da mulher e do homem sobre o espaço interior nao sao iguais.
Ou seja , e de outro modo, existe quem nem sinta a falta de horizonte, nem se aperceba do muro ( predio ) que tem logo ali do outro lado da rua.
E quem se deite com a escuridao da luz das estrelas, e deitado esteja debaixo delas.

No fundo o horizonte é como o mar, e ter um ou outro ou os dois , nao seria a mesma coisa nao te-los.
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De Maria Dulce Fernandes a 19.06.2019 às 23:57

Lar pode ser morar numa palhota, se lá se for feliz.
Eu fui feliz em todas as casas que chamei minhas.

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