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(Longa carta, intimista, para os amigos - e conhecidos - reais que botei no meu mural de FB e no meu blog. Deixo-a também aqui, pode ser - presunção e água benta ... - que a algum leitor DOfilo possa interessar.)

 

A "nova" "narrativa" já aí está, anuncia-a o Expresso, nada demoraram: Sócrates como vítima de uma cabala da direita jurídica. Ao que se juntará, muito em breve, outra alínea, a de Salgado como grande banqueiro que tentou tornear os malévolos constrangimentos induzidos pela crise financeira internacional.

Todos os regimes, todos os sistemas políticos, são permeáveis à corrupção e ao nepotismo. Só alguns evoluem para o patrimonialismo e menos ainda para a pura criminalização do Estado. Nestes últimos casos muito pelo silêncio, oprimido às vezes, timorato e/ou corporativo outras, dos cidadãos.

Estou-me a lembrar que há anos o reitor de Lisboa criticou o governo de então. Li um coro de elogios (e de partilhas) oriundo da classe profissional ligada à academia (entre a qual alguns amigos e muitos conhecidos meus). Então havia uma carga fiscal enorme, e tantos deles protestavam (até em conversas pessoais quando eu ia a Lisboa). As críticas à privatização da saúde, objectivo do governo, eram constantes e até preocupadas (envelhecemos, todos nós). Nisso muitos saudaram Sócrates no seu regresso de Paris, feito especialista de Rimbaud e teórico da repressão estatal, até prefaciado por Eduardo Lourenço. Haviam-se apressado a recuperar a excelência do PEC4, maldizendo o demissionismo do governo de então. A ideia de que se pavimentava o seu caminho para Belém era evidente.

Voltei em 2014 a Portugal. Esse meio socioprofissional, os detentores de "capital cultural", estava activíssimo nas "redes sociais". Pouco depois foi efervescente o caso de uma edição da revista académica "Análise Social", dada a tentativa de controlo tentada pelo presidente do instituto editor. E por aí fora: vieram as eleições, legislativas e presidenciais, a formulação inédita de uma coligação governamental à esquerda, o final do troikismo. Bem como atentados na Europa, as polémicas com Brexit, Catalunha, refugiados. E Trump ou o movimento metoo. Bem como situações domésticas, para este meio verdadeiras majordências, como as leis "do piropo" ou da mudança de género para menores. Olhar para a sociedade portuguesa e para a sua "classe de trabalhadores intelectuais" (que não é sinónimo da velha definição de "intelectuais") desta época exigirá um dia (como?) vasculhar o FB (e o twitter), tal como para a década passada exigirá o mesmo para os blogs. Não só, claro, mas também - e lá está a velha questão, como fazer o arquivo das práticas sociais inscritas na internet?

O que vejo agora? O reitor de Lisboa critica o governo. Silêncio neste meio. Correia de Campos, ex-ministro socialista da Saúde critica a deriva do SNS. Silêncio neste meio. A carga fiscal é compatível com os piores anos do troikismo. Silêncio neste meio. A substituição da PGR (a "candidata da direita" como lhe chamou o grão-apparatchik Seixas da Costa) teve os contornos que teve e envia a mensagem que envia, para a corporação jurídica (esta é interpretação minha, claro) e para a sociedade (esta, francamente, é objectiva). Silêncio neste meio - nem sequer um, a la um tardio João Soares, "se a mulher está a fazer um bom trabalho é deixá-la ficar".

Alguns continuam a apontar os críticos do "estado da arte", dizendo-os "ressentidos" (ou "invejosos", "ressabiados"). Um argumento que colou, tanto que é nitidamente um fenómeno social. Eu estou a falar (a olhar, míope que seja) para gente das ciências sociais. Que vêm reproduzindo esta linha de "argumentação". Mas é evidente, no conteúdo dos textos, que não estão a aludir a um "ressentimento" sociológico (um tema na sociologia, e lembro umas belíssimas páginas de Bourdieu, esse sim um "intelectual" como dantes se dizia). Estão constantemente, porque se tornou um mote comum, a aludir aos putativos estados psicológicos alheios, a dar-lhes estatuto explicativo. Ora a gente passa a vida a criticar o economicismo. E o que vemos é a adesão generalizada de "profissionais intelectuais" a discursos psicologistas, ainda mais deficitários do que aquele, ainda mais incompetentes. E fazem-no sem rebuço, sem auto-crítica. E, dada a sua condição profissional, surgem assim como se desnudados e disso impudentes.

Mas, de facto, o que eu vejo, neste meu canto de tomada de pontos de vista, é uma redução gradual do frenesim da opinião politizada neste meio. É limitada, claro, a minha abrangência, mas é o que vejo. Mas mantém-se, ainda e mesmo que gradualmente minorada, a solidariedade com isto. Pelo conforto identitário (a "esquerda" está no poder, dizem). E por derivas corporativas (o governo cria algumas centenas de empregos na área, em modalidades menos precárias).

Mas é evidente que tem que haver mais. O silêncio conivente corporativo durante a década passada pode ter muitas explicações. A adesão no princípio desta década pode ser remetida para a terrível crise de então. Mas, raisparta, que razões objectivas, e mesmo subjectivas, é que sustentam que núcleos socioprofissionais particularmente informados e expectavelmente com um ethos crítico possam continuar a apoiar este enorme sindicato do crime que é o PS? As tradicionais características similares que o PSD apresenta? Não chega para tamanha adesão, para tanta conivência, para, inclusive, muita cumplicidade.

Enfim, este lençol vem a este propósito. Os próximos tempos aí estarão destinados à sedimentação destas "novas" "narrativas" e à da continuidade deste belíssimo e "inovador/reformista" governo. Para mim é machamba que deu mandioca. A pedir pousio.

Ontem inscrevi-me na rede de bibliotecas comunais, uma colecção de BD que faz (e fez-me) salivar. Continuarei a blogar (no meu blog, às vezes aqui no Delito de Opinião e no sportinguista És a Nossa Fé). Sobre esses livros (tipo bloguista "intelectual" e chato) ou minudências que me possam vir a ocorrer.

Sobre o resto, o Portugal que adoro? Deixo. Até pela consciência, óbvia e de sempre, que o que digo nada afecta, nada importa, a não ser como explanação, vaidosa até à encenação, do meu "eu". Associada à consciência que a nós, emigrantes de longo prazo, não nos faz bem nenhum estarmos fora a olhar para o país, que aquilo que nos cumpre e nos é saudável é irmos vivendo o que no nosso cá d'agora nos vai acontecendo. Que dele falem os antropólogos do BE, os sociólogos do PS, os historiadores maçónicos, os estudiosos culturais sei lá o quê, alguns psicólogos etc. e tal e todos eles em vice-versas enrodilhados. Os tais psicologistas.

Apenas uma nota final: aquilo que estes todos vos vão vender agora, em troca do apoio a Sócrates & Salgado, Ltd. - como há uma década o fizeram em troca da lei do casamento homossexual -, é a racialização da sociedade, a criação de categoriais raciais para discriminar os cidadãos. Vejam lá se pelo menos isso, essa javardice, conseguem evitar.

Eu vou ali para a BD. E para a vida.

Como sempre, abraços, beijos, cumprimentos, conforme preferirem.

Zézé, Flávio, José Teixeira


5 comentários

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De Pedro a 22.09.2018 às 23:50

Esperemos pelo Rosas e pela Pimentel....Esperemos também pela BD. Quanto à Antropologia recomendo -lhe este. Fundamental para se entender a Biologia do Antropos.

Behave - The Biology of Humans at Our Best and Worst.pdf - wonder-woman ...
PDFwonder-woman.info › Behave - The Biol...

Até breve...
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De lucklucky a 23.09.2018 às 11:52

O único objectivo é o Poder e para o obter uma das tácticas é forjar uma nova linguagem.

"Como há uma década o fizeram em troca da lei do casamento homossexual -, é a racialização da sociedade, a criação de categoriais raciais para discriminar os cidadãos. Vejam lá se pelo menos isso, essa javardice, conseguem evitar."

Ora bem , o jornal Publico já começou a dar os tiros de partida para esse futuro político racialista.

Deve dar pelo menos para criar umas dezenas de observatórios, centro de estudos, claro violência de "activistas" que será "compreendida" pelos jornais.
Tudo claro pago com os impostos dos "deploráveis".

E depois dizem que estão contra o economicismo quando não pode existir aquilo a que chamam socialismo, sem dinheiro.

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De lucklucky a 23.09.2018 às 12:17

E este é o estado da cultura do jornalismo de esquerda americano.
Uma jornalista elogia os colegas masculinos no escritório por estes aceitarem que as mulheres lhes atirem coisas...e depois ainda consegue ficar pior...

https://twitter.com/LEBassett/status/1043195783548465152

Laura Basset
HuffPost women & politics reporter. Commentary on CNN and MSNBC. PulitzerCenter grantee. Consultant on Netflix The Keepers.
Perfil Facebook

De João Avelar a 23.09.2018 às 21:36

Não estará a fazer a vontade aos meninos? Nunca, como agora, foi tão necessário estar atento e denunciar.
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De V. a 24.09.2018 às 09:47

Sócrates não deve ter consciência de que toda a gente consegue ler por trás do seu discurso mentiroso, falsamente filosófico. Uma sociologia da justiça da mesma especialidade do seu "curso" de engenharia: casas de banho.

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