Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Carta para Eduardo Prado Coelho

por Patrícia Reis, em 25.08.18

Querido Eduardo
Sobrevivemos mais um ano e as histórias são múltiplas, impressas numa vertigem que te encantaria e, depois, seria pretexto para te sentires derrotado. Existem poucas pausas. Não te faria sentido esta velocidade e, embora possa perceber que tivesses a tua página aqui ou em outra rede social, serias mais voyeur do que participante, creio. Tu gostas de observar, bem sei, de ver como se vai de A para B e que atalhos puros ou conspurcados farão esse caminho. Darias muitas gargalhadas com as enormidades recheadas de pensamentos pequenos, pequeninos, minados de inveja - ah, esse sentimento tão português!. E pasmarias com a quantidade de imagens e comentários sobre a perfeição de uma vida para consumo alheio. A intimidade é aterrorizadora, arranjámos uma montra para disfarçar as pregas, os buracos, as bainhas descaídas de uma vida que se entende cada vez menos. O planeta tem gestos políticos cada vez mais fortes, cada vez mais, mas pasmamos e fazemos pouco, fazer implica um movimento de auto preservação que parece que só teremos na iminência de um ataque daqui a doze horas. Até lá empurramos com a barriga. Ficarias desgostoso com as politiquices e com a política fria e pouco humanista que parece crescer e multiplicar-se pelo mundo fora. Não é o Trumpo, é tudo, são todos. É assustador como a banalidade do mal de que falava Arendt não prescreveu, como não conseguimos melhorar. Sim, tenho de te dizer que não melhorámos em nada. De resto, querido Eduardo, a tua morte parece estar calada nas coisas da cultura, quem se lembra de quem? Seria bom estares aqui para explicar o conceito: cultura, o que é? Porquê a sua importância? Rumores e boatos temos em fartura, conquistas poucas, egos mexidos em excesso. Infelizmente, o tempo traz a idade e a idade as limitações - quantas vezes falámos sobre isto? - e, também por isso, a nossa mm escreve com a sua velocidade de cágado e protege-se numa cápsula protector que tem uma porta invisível, apenas reconhecida por ela. Não a vejo como gostaria. Não falamos ao telemóvel, bem sabes como odeia essa coisa de falar para dentro de uma pequena caixa que vai aquecendo na pequenez das mãos. Not even the rain has such small hands, não é assim? Das mãos da mm nasce uma rede de apoio e de afecto que se estende por mim, pelos meus. Embora longe não existe distância. E de ti, querido, mantemos a proximidade, em pensamento, em saudades. Já te disse que não deverias ter ido tão cedo? Sim, eu sei, é tarde. Beijo-te daqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Bea a 26.08.2018 às 08:34

Uma carta bonita e sentida. Parabéns à Patrícia Reis. Também porque já ninguém as escreve; esta não é bem do género em desuso, é pública e não tem o destinatário por destino, mas enfim, é alguma coisa: a lembrança de um homem que a merece, posta a nu e no palco. Pouca gente olha e vê com os olhos que tem para ver.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.08.2018 às 00:16

PORTUGAL É AGORA

A grande diferença entre ser-se uma pessoa -- ou povo culto --não está no dinheiro, está na cultura geral. Dito isto, frase que ouvi uma vida inteira de um tio autodidata que nunca teve a oportunidade de ir à escola, mas que aprendeu a ler e sabia distinguir as suites de Bach, posso ser acusada de falta de originalidade já que a ideia que trago é quase -- reforço o quase -- banal.

Este ano o meu filho mais velho foi, com 17 anos, para a universidade e, como todos os adolescentes, detesta e não compreende por carga de água é que o sistema de ensino o anda a castrar há anos. É a versão dele. Não me admira, eu tive o mesmo sentimento.

Agora, quase a fazer 43, posso dizer sem qualquer sentimento de amargura : abençoada a educação que tive. Tudo se resume a isto. À educação.

Querem mudar o país? Força.
Mas temos que mudar a forma como a educação está integrada nas famílias e nas escolas. Começo pelas famílias por saber que a maioria dos miúdos não tem os suportes que deveria ter, nem as possibilidades que eu tive.

O meu tio-avô, por se achar, por ventura, em desvantagem achou por bem enfiar-me num caldo de educação e cultura semelhante à sopa da pedra. Sim, porque a educação, ou a cultura, não se resume a saber um canto dos Lusíadas ou a conhecer Bach ou a não responder , como sucedeu no início deste ano lectivo, à porta das universidades, que Leonardo di Caprio pintou a Mona Lisa. A educação implica saber que os gestos de cidadania são uma forma de estar em sociedade e que podem contribuir para mudar o mundo. …

(…)


In Delito de Opinião - Patrícia Reis

Comentar post



O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D