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Capítulo VI

por Alexandre Guerra, em 26.09.18

No dia 17 de Junho de 2017, na região de Pedrógão, algo aconteceu de dantesco e em poucas horas as chamas do Inferno trouxeram a morte a 66 pessoas, das quais 47 morreram carbonizadas na EN 236-1. Foi o dia em que o País se confrontou com a sua impotência e incompetência, onde as estruturas do Estado falharam nas suas mais elementares funções. No fundo, todos nós, enquanto sociedade, falhámos na defesa dos nossos concidadãos.

 

Os fenómenos e as circunstâncias que rodearam tal tragédia tinham (e ainda têm) que ser compreendidas e explicadas e, como tal, coube ao especialista Domingos Xavier Viegas, professor catedrático de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, a responsabilidade de elaborar um relatório técnico sobre o que aconteceu naquele trágico dia. Esse documento, que será fundamental no âmbito do processo judicial em curso, foi entregue ao Governo a 15 de Outubro, mas houve uma parte do estudo que nunca foi divulgada ao público, o capítulo VI, por conter testemunhos dos sobreviventes e considerações feitas pelos técnicos que fizeram a investigação.

 

Compreende-se que, na altura, se quisesse evitar a exposição das famílias das vítimas e dos sobreviventes, que tanto já tinham sofrido, no entanto, aquilo que agora nos é dado a conhecer pelo jornal i, com a colaboração do próprio Xavier Viegas, através da divulgação do capítulo VI, tem uma tal dimensão trágica e humana que, por um lado, alimenta a revolta interior pelo que aconteceu, por outro, reforça a obrigação de cada um de nós, enquanto cidadão, ser cada vez mais exigente na defesa e protecção das nossas gentes e recursos.

 

Os textos publicados esta Terça e Quarta feiras no jornal i são de um realismo impressionante e mostram como homens, mulheres, idosos, famílias inteiras tomaram decisões de vida ou de morte em momentos de pânico, sem qualquer auxílio externo e totalmente entregues à sua sorte. Nos próximos dias serão divulgados mais partes desse capítulo VI que, no fundo, acaba também por ser o registo de um dos mais negros episódios da história do Portugal democrático.

 

Despender alguns minutos do nosso dia a ler estes relatos pessoais e dos técnicos não é apenas uma questão de informação, é também quase uma obrigação para com a memória de todos aqueles que perderam as suas vidas, para que possamos ajudar a construir um Estado que nunca mais deixe os seus ao abandono.   

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9 comentários

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De Pedro a 26.09.2018 às 16:17

Alexandre, pergunto. O que se tem feito de concreto para a deslocalização/descentralização com o intuito de combater as assimetrias territoriais? E a nível fiscal?

Falou -se no INFARMED e caiu a Carmo e a Trindade....todo este pessoal está muito mal habituado....trabalhem-se eles no privado. Aliás se são tão bons nem sei como ainda trabalham para o Estado.

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De Luís Lavoura a 26.09.2018 às 16:46

as estruturas do Estado falharam nas suas mais elementares funções
construir um Estado que nunca mais deixe os seus ao abandono

O Estado não é omnipotente. Não pode apagar todos os incêndios. Não pode proteger todos os cidadãos que estão colocados em situações perigosas.

O que o Estado poderia e deveria nos anos passados ter feito, está este ano a fazer: a ensinar as pessoas, através de anúncios na rádio e de outro material, como se devem comportar em caso de incêndio por forma a protegerem-se a si mesmas.

Porque são as pessoas quem se deve proteger a si mesmas, através de comportamentos adequados. O Estado está agora a ensinar às pessoas quais são esses comportamentos (por exemplo: tentar salvar-se a si mesma em vez de tentar salvar o automóvel, meter-se dentro de casa em vez de fugir dela), mas é às pessoas que cabe aprendê-los.
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De Pedro a 26.09.2018 às 17:35

https://www.parlamento.pt/Documents/2017/Outubro/RelatórioCTI_VF%20.pdf

Muito embora a atuação da GNR pareça, de acordo com as informações recolhidas, ter sido a correta, dentro de todos os condicionalismos, nomeadamente de comunicações, e tendo em conta a excecionalidade da situação, fica por apurar até que ponto o corte do acesso ao IC 8, terá tido alguma influência no relatado congestionamento de trânsito na EN 236-1 entre o cruzamento com estrada Várzea/Vila Facaia e o nó com o IC 8. Fica também por apurar a aparente contradição sobre o relato de não haver trânsito naquela via entre as 20h00 e as 20h15, e os relatos que referem a existência de um congestionamento de trânsito. Finalmente fica por apurar porque razão, perante a rápida aproximação da frente de fogo, não foi feito o corte da EN 236-1 na direção Figueiró dos Vinhos – Castanheira de Pera. A justificação de não haver ordens do COS nesse sentido, contrasta com a descrição de que os cortes de estrada foram essencialmente tomados por livre iniciativa dos militares da GNR, de acordo com a sua perceção do risco para a circulação do trânsito.

Tendo em conta que as mortes na EN 236-1 ocorreram na sequência da fuga a partir das aldeias localizadas a este desta via, poderia ter-se colocado a hipótese de proceder ao corte das estradas de acesso à EN 236-1. O desfecho de tal atuação teria sido provavelmente ainda pior pois teria eventualmente implicado a ocorrência de mais vítimas, incluindo os próprios agentes da autoridade.

Poderia ter sido ordenada a evacuação atempada das aldeias ameaçadas, ou poderiam ter sido tomadas medidas para que as pessoas não saíssem de casa. Qualquer das decisões deveria ter resultado de uma análise adequada da situação, de modo a prever o comportamento potencial do incêndio iniciado há mais de cinco horas. Esta ausência de alerta precoce, por não ter sido feita a leitura do incêndio às 18h00 (e mesmo antes) não permitiu impedir a maioria das fatalidades. Tal como é referido noutras partes do presente relatório, este trabalho de antecipação deveria ter sido feito no seio do comando e planeamento desta operação de socorro e deveria ter resultado na mobilização dos meios necessários, incluindo a GNR, para evitar que se tivesse verificado uma fuga para a morte, tal como veio a acontecer. Por sua vez, tal trabalho de antecipação só poderia ter sido feito com o apoio de analistas de incêndios e de meteorologistas especializados, que permitisse uma adequada avaliação da situação em tempo real. A verdade é que nenhuma destas competências existe na ANPC, apesar da enorme gravidade e frequência dos incêndios em Portugal
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De Luís Lavoura a 27.09.2018 às 09:24

fica por apurar

Pois fica. Não está apurado.

poderia ter-se colocado a hipótese de proceder ao corte das estradas de acesso à EN 236-1. O desfecho de tal atuação teria sido provavelmente ainda pior

Teria certamente sido ainda pior. Teriam morrido os militares da GNR no braseiro. Não passa pela cabeça de ninguém, a não ser de jornalistas, ir pôr, no meio de um incêndio, militares no meio de estradas florestais, sozinhos, a orientar o tráfego.

poderiam ter sido tomadas medidas para que as pessoas não saíssem de casa

Exatamente, o tipo de atuação que atualmente se procura, e muito bem, ensinar as pessoas a tomar. Atualmente (em anúncios na rádio e coisas do género) ensina-se as pessoas, e muito bem, que perante um incêndio se mantenham em casa, em vez de pensarem em ir dar uma volta no carro que está estacionado lá fora (e que vai arder).

Este tipo de anúncios poderia e deveriam ter começado a ser feitos há uns anos.

nenhuma destas competências existe na ANPC

Não existe na ANPC tal como não existe na Califórnia nem na Austrália nem em muitos outros países muito mais avançados que Portugal, mas nos quais também regularmente morrem dezenas de pessoas em incêndios. Não é somente o Estado português que é incapaz de proteger as pessoas dos incêndios.
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De V. a 27.09.2018 às 12:37

O que não passa pela cabeça de ninguém é cortar a única estrada que permite sair rapidamente para sul obrigando as pessoas a ir pela estrada a norte, precisamente por um vale que sobe a montanha e que já estava a arder há 6 horas sem ninguém ali a combater o fogo (dois erros crassos de uma só vez).

Quem não conhece o sítio, mais vale não abrir o bico — e sobretudo deixar de defender o governo porque toda a gente sabe que eles estavam completamente noutra e a protecção civil é um instrumento político, um embuste que só serve para dar emprego a boys. Só atrapalha. Deviam era acabar já com aquela fantochada antes que matem mais alguém e darem absoluta autonomia. Com o que se poupava em cabrões que moram na expo, dava para comprar um heli para cada concelho e apagar todos os fogos nos primeiros 5 minutos.
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De António a 26.09.2018 às 18:42

Criatura execrável.
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De V. a 27.09.2018 às 12:19

O que o Estado poderia e deveria nos anos passados ter feito, está este ano a fazer: a ensinar as pessoas

Pois, ensinar os velhinhos nas aldeias a fazer queimadas.

Tradução: dar dinheiro das ajudas aos "formadores" do Estado, vulgo, a gente do PS.

Já conhecemos o truque, mas prevenção não é canalizar o dinheiro para formadores. É limpar as matas e sobretudo plantar mais árvores para isto ficar mais celta em vez de ficar mais magrebino e a cheirar a alá uqbar. Ser de esquerda leva ao deserto.
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De Anónimo a 26.09.2018 às 17:33

Se os textos do i estiverem em acordês o nosso dever não é lê-los, é não os ler. Não há excepções.
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De Rão Arques a 26.09.2018 às 21:20

Costa à deriva ou a deriva a dar o Costa com vento favorável dos lados do Pastel.

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