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O centro-direita está basicamente tramado. Em 2011, pegou num país à beira da falência e sujeito a um programa de resgate mal negociado, num contexto de crise da zona euro que dificultou a flexibilização das metas orçamentais, que foram mínimas e arrancadas a ferro. Apesar do espartilho, este governo pagou dívidas, conteve a despesa e evitou a saída do euro, mas esteve sempre dividido e atraiu a hostilidade de sectores importantes da própria direita, que serão aliás os primeiros a entrar agora em pânico e a tentar abandonar o barco a tempo. Com péssima comunicação e insistindo no absurdo de querer ir além da troika (o que nunca fez), o lado governamental terá escassos argumentos a seu favor: as pessoas ainda não sentem a economia a dar a volta e a estratégia de credibilização funcionou apenas nos mercados. Foi a opção correcta, mas não foi a escolha popular. Ninguém come taxas de juro.

A História será provavelmente mais branda do que o eleitorado está disposto a ser na campanha para Outubro de 2015, mas isso é fraca consolação. O descontentamento geral só não é percebido por quem não quer compreender. Nas próximas eleições, as pessoas vão votar de forma emocional e isso será visível de imediato nas sondagens, com forte subida do PS. António Costa não terá pressa e dispõe de muito tempo para esmifrar os ministros mais fracos e para encostar o Governo às cordas.

Acima de tudo, Costa não quererá interromper os erros do adversário, sobretudo se a estratégia governamental for a de tentar diabolizar os ex-socráticos que esvoaçam à volta do novo líder socialista. Falhou em 2009 com o próprio Sócrates, mas esta direita é burra, aprende mal e vai querer repetir o número.

Para não perder por muito nas próximas legislativas, a coligação deverá trazer a discussão política para os temas que verdadeiramente contam: como é que o PS de António Costa tenciona cumprir o Tratado Orçamental e o que prefere na questão da dívida pública? A reestruturação? Não sendo o crescimento económico suficiente para o milagre das contas públicas positivas, que cortes e reformas estão os socialistas dispostos a fazer? O líder do PS só precisa de fintar estes temas, de não se comprometer, de insistir na mudança e na esperança, de mostrar preocupações sociais, de falar aos desempregados e aos que vivem no medo de perder os seus empregos. Nestes assuntos, o governo estará em forte desvantagem. Costa evitou com êxito mencionar o Tratado Orçamental nas primárias do PS, tentará fazer o mesmo nas legislativas.


26 comentários

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De José António Abreu a 29.09.2014 às 12:10

O "centro-direita"? Nah, é mais o país, sem o peso político da França para se poder permitir desenvolver políticas à francesa que nem na própria França são sustentáveis.
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De Pedro a 29.09.2014 às 12:26

Quando os próprios ilustres do PSD estão contra as politicas de austeridade excessiva do governo. Alguma coisa deve querer dizer, não?
O país sempre esteve á beira da falência. E quando é preciso consenso e cuidado nas medidas para o desenvolvimento, vem os penosos arrogantes com mania das direitas estragar o pouco que se tinha conseguido. Neste momento Portugal tem o dobro dos pobres que tinha em 2011. Mas isso o sr. não vê, pois não?
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De Luís Naves a 29.09.2014 às 13:49

Não consigo ver o que não existe
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De Anónimo a 29.09.2014 às 15:27


Consegue sim! Pelo que escreve, conseguiu ver redução da despesa - se puder documentar, agradecido.
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De Leandro P. a 29.09.2014 às 15:33

Ver até vê, mas pagam-lhe para fingir que não. E o que tem de ser tem muita força.
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De l.rodrigues a 29.09.2014 às 17:08

Diga antes "não consigo ver quando fecho os olhos".

Não é um facto que chegam cada vez mais pessoas com fome aos hospitais e escolas? Não é um facto que cada vez mais pessoas recorrem a ajuda alimentar?

Não é um facto o que o INE reporta?
http://www.publico.pt/sociedade/noticia/risco-de-pobreza-em-portugal-no-nivel-mais-elevado-desde-2005-1629498

E antes que diga que "risco de pobreza" nao é igual a pobreza... Pense duas vezes, dado que o risco de pobreza é um cálculo estatístico em função do rendimento mediano, que também baixou.

http://observatorio-das-desigualdades.cies.iscte.pt/index.jsp?page=indicators&id=39
"De sublinhar que a linha de pobreza relativa, definida nos 60% da mediana da distribuição dos rendimentos monetários líquidos por adulto equivalente, diminuiu entre 2009 e 2010, de 434 para 421 euros mensais."

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De Luís Naves a 29.09.2014 às 18:24

Respondi a um comentário que dizia erradamente ter duplicado o número de pobres desde 2011. E um disparate, ponto. Que houve aumento da pobreza relativa? Claro que houve. Portugal perdeu nesta crise 6 por cento da sua riqueza, seria um milagre que não houvesse mais pobres. Este ano talvez o pais recupere 1 por cento e só voltaremos ao nível de 2009 em 2019. Muitas pessoas perderam 6 por cento ou um pouco mais. Eu empobreci em cerca de 30 por cento em relação a 2011 e talvez 50 por cento em relação a 2001. Sou pobre? Por enquanto, ainda não.
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De Rui Esteves-Holz a 29.09.2014 às 21:33

Pobre de espírito sem dúvida que é.
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De Luís Naves a 29.09.2014 às 23:14

Aprovei este comentário, uma prova que sou pobre de espírito.
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De Anónimo a 30.09.2014 às 02:31


6% nesta crise que já leva 6 anos - 3 com estes, 3 com os outros. Bem podia ter escrito isto em 2011, quando derrubaram o governo. Por que é que não o fez?

Falta-lhe aí calcular quanto perdeu entre 2008 e 2011 (o pico da crise), já agora.
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De Diogo Moreira a 29.09.2014 às 13:32

Infelizmente, concordo com o essencial do texto: ao António Costa, basta fintar os pingos de chuva para ser aclamado como um Obama (e o seu discurso optimista, se bem que demasiado optimismo não funciona bem com o povo português) ou como um Hollande (que foi encarado como um D. Sebastião que regressava de entre as brumas para elevar a França à sua justa posição na Europa e no Mundo).

Ainda assim, tenho que chamar a atenção para pormenores que não deviam caber neste texto:

- "este governo pagou dívidas, conteve a despesa e evitou a saída do euro": se a dívida a que o Luís se refere é a Dívida Pública, a mesma tem estado em crescendo (Cf: http://www.pordata.pt/Portugal/Administracoes+Publicas+divida+bruta+em+percentagem+do+PIB-824); quanto à despesa, as principais medidas (que não o aumento de impostos) são temporárias e veremos dentre em pouco o equívoco que é afirmar que a despesa estava contida; e a saída do Euro nunca foi um assunto em cima da mesa (nem a Grécia saiu, apesar de haver vozes na Europa que a queriam obrigar a sair).

-"as pessoas ainda não sentem a economia a dar a volta e a estratégia de credibilização funcionou apenas nos mercados. Foi a opção correcta, mas não foi a escolha popular. Ninguém come taxas de juro": as pessoas conseguem perceber a forte contenção nos salários (os que trabalham) e a dificuldade em encontrar novo emprego (as que estão desempregadas); a recuperação é moderada e cheia de pontos de interrogação quanto ao futuro - «A recuperação moderada da atividade económica traduz o maior dinamismo da procura interna e a manutenção de um crescimento forte das exportações. A procura interna continuará a ser condicionada pelo processo de consolidação orçamental e pela necessidade de redução do endividamento do setor privado. Por seu turno, as exportações de bens e serviços deverão beneficiar da recuperação da atividade económica mundial, em particular na área do euro, prevendo-se que correspondam a cerca de 45 por cento do PIB em 2016 (mais 12 p.p. do que em 2008)» (Cf: http://www.bportugal.pt/pt-PT/OBancoeoEurosistema/ComunicadoseNotasdeInformacao/Paginas/compb20140611.aspx) [a minha opinião quanto à previsão da evolução das exportações é que ela é demasiado optimista, face à actual situação da Europa]. E o controlo dos juros da Dívida Pública deve-se à actuação do BCE e não por causa de um aumento da credibilidade da República Portuguesa.
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De Luís Naves a 29.09.2014 às 13:51

Pagou dívidas e também pagou mais divida pública. Se o mérito fosse fosse só do BCE as taxas de juro portuguesas seriam iguais as gregas.
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De Diogo Moreira a 29.09.2014 às 14:16

As taxas da Dívida Pública de Portugal nunca igualaram as da Dívida Pública da Grécia no dealbar e no decorrer da crise.

O mérito é do BCE porque os juros de todas as Dívidas Públicas da Zona Euro baixaram, incluindo as da Grécia.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 29.09.2014 às 14:18


Como já aqui escrevi várias vezes à primeira (1995) qualquer cai, à segunda (2005) cai quem quer, e à terceira (2015), caem os papalvos, como os que dizem que agora existem mais pobres que em 2011.
Acresce a isto que a divida portuguesa, estado+empresas+familias, já vai perto dos 800 mil milhões de euros, sendo que apesar de tudo, o estado é o menos endividado de todos, com cerca 225 mil milhões.
É por aqui que a corda vai partir outra vez, só que da próxima não sei se haverá troika para nos valer.
Quanto ao resto, penso que está a sobrestimar o Costa, e a subestimar os outros; a não ser que se queira passar um atestado de estupidez natural aos portugueses, ele vai ter de pôr a carne no assador, e explicar como é que vai resolver os problemas.
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De Diogo Moreira a 29.09.2014 às 16:55

Pode explicar qual é a sua definição de "pobreza" e se estamos a falar de «pobreza absoluta» ou de «pobreza relativa»?

E que medida é que utiliza para afirmar que existem menos pobres agora que em 2011, quando as organizações que lutam contra a pobreza no terreno se têm mostrado com inúmeras dificuldades devido ao grande aumento de requisições de ajuda e à diminuição das contribuições nas angariações (desde as instituições religiosas, como a Caritas Portuguesa, até às civis, como o Banco Alimentar)?
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 29.09.2014 às 18:59


Provavelmente o sr Moreira é dos que querem acabar com os ricos; eu sou dos que querem acabar com os pobres. Mas para isso é preciso investir, criar postos de trabalho e fazer crescer a economia para criar riqueza, que possa ser distribuída.
Mas por cá os que passam a vida a dizer que há muitos pobres, preferem fazer ao contrário: primeiro distribuem o que não há pedindo dinheiro emprestado, com os resultados que se conhecem.
Com esse sistema, nunca mais os pobres deixam de ser pobres, e os que não são, correm o risco de passar a ser.
Portanto os critérios para definir "pobreza absoluta" ou "pobreza relativa" interessam-me pouco, deixo essa discussão para quem nunca fez nada para criar riqueza e discute esses assuntos à mesa dos cafés ou das esplanadas.
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De Diogo Moreira a 30.09.2014 às 01:18

Fiz duas perguntas simples, as quais preferiu ignorar. Espero que não queira ser levado a sério com esse tipo de argumentação.
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De Luís Naves a 30.09.2014 às 11:02

Caro leitor. Não ignorei as perguntas. Acontece que não afirmei que existem menos pobres do que em 2011. Se o pais empobreceu, há mais pobres. O que contestei, pelo vistos ofendendo muitos, foi um comentário onde se afirmava que o número de pobres tinha duplicado, algo que e falso.
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De Diogo Moreira a 30.09.2014 às 11:08

Luís, o meu comentário anterior é dirigido ao Alexandre, que insultou toda a gente - em especial os que estão no terreno a trabalhar com os que mais necessitam - e que se orgulha da sua ignorância na matéria.

Quanto ao comentário da duplicação de pobres, não há números concretos sobre o assunto. Não vou discutir sobre essa dimensão sem nada em que me basear.
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De Luís Naves a 30.09.2014 às 11:21

certo. estes comentários são por vezes cruzados e um pouco confusos.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 30.09.2014 às 14:55

Sr Moreira queira fazer o osbéquio de ler o último parágrafo do meu comentário das 18:59, está lá a resposta às suas perguntas. E acredite que quando ouço falar de pobreza, não tenho vontade nenhuma de me rir. Mas por favor, e por uma questão de honestidade intelectual, não venha para aqui com estatisticas comparando a pobreza que existia em 2011 e a que existe em 2014. A diferença não é grande, e os pobres são sempre demais em qualquer circunstância, e se reparar bem, os que andam nos media a carpir com a pobreza (dos outros) que existe em Portugal, que em termos europeus nunca deixou de ser um país pobre, são os que nunca fizeram nada para acabar com esse flagelo, bem pelo contrário.
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De jo a 29.09.2014 às 14:56

Este governo gabou-se de ter negociado o resgate. Apresentou-o como a melhor coisa do mundo.
Anda-se a esquecer das fotografias do Catroga (o da EDP) e das afirmações do atual primeiro ministro.
Apresentaram-se então metas para os cortes e para as privatizações e objetivos a serem atingidos com o cumprimento dessas metas. Falharam miseravelmente.
Diria que anda muita gente com má memória se isso fosse verdade, mas não é - é só descaramento.
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De Luís Naves a 29.09.2014 às 18:27

Não digo que a direita não participou nas negociações do resgate, isso não esta escrito.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 29.09.2014 às 19:04

Tem razão: o PEC4 é que era. Mas descaramento e má memória é dizer que este governo, que nem sequer existia, é que negociou o resgate. Como todos o que comem pouco queijo se lembram, quem negociou, e mal, este resgate foi o governo do Sócrates. O Catroga só foi lá dar os améns, senão o guito não vinha, e em Julho de 2011, os amesentados do OGE já nem o ordenado recebiam.
Pobres e mal agradecidos...
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De Luís Naves a 29.09.2014 às 23:18

Os comentadores precisam de ter calma e ler o que esta escrito.
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De lucklucky a 30.09.2014 às 01:40

Um texto de quem não tem consciência do buraco onde Portugal está metido.
Mas isso parece ser mal geral da elite.

Este Governo aumentou a dívida e logo a insustentabilidade de Portugal.
Se se quiser fazer algum elogio é demorarmos mais tempo a bater na parede.

Quanto ao Costa ainda muita água vai passar debaixo das pontes.

Um coisa certa a Austeridade será chamada Rigor.

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