Cadernos de um enviado especial ao purgatório (34)
Também ouvi com espanto a frase que João Gonçalves reproduz. Segundo Marques Mendes, em política “não existem lealdades passadas, só há lealdades para o futuro”. Com extrema candura, este oráculo define toda uma elite, toda uma época.
Torna-se penoso assistir a este espectáculo trágico do “segundo apurei”, a política de comunicação governamental mais desastrosa de sempre, na verdade única no mundo. Como refere Sérgio de Almeida Correia, em post anterior, em vez de serem anunciadas pelas autoridades ou aparecerem nos jornais, onde têm a devida credibilidade, as notícias importantes são reveladas por um comentador que é também político activo com ambições próprias e que finge ser jornalista de investigação.
A ligeireza tomou conta da paisagem mediática. Estamos rodeados de falsas narrativas e de omissões, vemos a hipocrisia geral dos que governam e dos que querem governar, assistimos impávidos às distorções da comunicação social transformada em espectáculo e ao radicalismo marciano dos partidos da oposição. A responsabilidade está em declínio, triunfa o oportunismo e a táctica. As elites portuguesas afundaram o país e vivem uma crise sem precedentes, mas para essas elites, sobretudo as políticas, é difícil compreender que o povo deixou de confiar nelas.

