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Delito de Opinião

Cabo Delgado

jpt, 14.06.20

mw-1280.jpgFotografia de Marco Longari/AFP Via GETTY IMAGES

O artigo de Lázaro Mabunda  "Cabo Delgado, o paraíso infernal", hoje publicado no Expresso, é reservado a assinantes daquele jornal (trata-se de um "ponto da situação"). Mas é significativo: nos últimos meses, já após o início da era Covid-19, a imprensa portuguesa começou a reparar nesta guerra. Nuno Rogeiro tem abordado o tema na televisão e publicou agora um livro - entretanto entrou numa espúria polémica com a imprensa moçambicana, o que é estranho dada a magnitude do fenómeno que abordam - que circulou em pdf, recebido com grande apetência (um amigo disse-me que recebera 4 num só dia). Antes disso apenas recordo escassas referências, um artigo de Morier-Genoud na Visão, no ano passado.

Também em Moçambique (em Maputo, principalmente) o silêncio vingou até há pouco. Resmunguei isso em finais de Março e início de Abril. Como se a incredulidade social convocasse o nojo, o evitamento. Alguns, escassos, textos de investigadores procuraram as causas mas pouco mais havia.

A situação é complexa, as versões sobre o que se passa são várias. Mas há um ponto: a população é paupérrima mas tem telemóveis. Ou seja, as redes sociais ultrapassam a imprensa estrita como fonte de informação, ainda que esta chegue muitas vezes sem ser editada. O silêncio não é local. Ali há discursos, apelos.

Tenho alguns amigos no Cabo Delgado e outros logo abaixo, em Nampula. Algumas vezes falamos (o gratuito whatsapp) ou trocamos mensagens. Mas não são "fontes", são amigos a quem se abraça. Eu não tenho "fontes", não sou "observador" nem "investigador". Mas todos os dias no FB leio (e muitas vezes vejo) coisas tétricas, dramas horríveis. Não partilho, nem notícias das desgraças, nem fotografias dos cadáveres, nem filmes de populações. Não é o meu papel. Não é para mim.

Eu adoro o Cabo Delgado. Vivi lá. Há dias mais melancólicos em que gostaria de regressar. Se possível antes de todas as árvores terem sido arrasadas e vendidas para a China (sim, sei que para alguma intelectualidade nacional apoucar a bondade chinesa é coisa das campanhas dos pérfidos "ocidentais" mas é o que eu sou ...). Não ambiciono terra ou um ter lodge, ou mesmo uma consultorias quaisquer. Só para estar ali, entre Montepuez e Balama, na terra vermelha em dia de chuvadas. E talvez morrer por lá. Por isso ainda mais me dói tudo isto.

Não sei exactamente o que se passa. Não sei o que se poderá fazer. Mas talvez, imagino, que alguma ajuda internacional possa ser útil. Ajuda estatal. Estatal, friso.

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