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Brincar às independências

por Pedro Correia, em 21.09.17

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O actual mapa político da Europa regeu-se até 2008 por um princípio basilar da Conferência de Ialta: nenhuma independência unilateral deve ser reconhecida no Velho Continente ao sabor de conveniências de circunstância, sob pena de tornar cada vez mais instáveis as relações internacionais. Desenhar fronteiras de acordo com critérios étnicos, religiosos, linguísticos ou de tribo, com o aval de analistas politicamente correctos, pode ser uma tentação para alguns caudilhos regionais mas é um acto indigno de estadistas.

O perigoso precedente foi inaugurado nesse ano pela "independência" do Kosovo, caucionada pelos Estados Unidos para punir a Sérvia e estribada num inaceitável predomínio étnico que legitimaria - por exemplo - o imediato levantamento insurreccional no País Basco contra os estados espanhol e francês. Moscovo respondeu também em 2008 com o reconhecimento das "independências" da Abcásia e da Ossétia do Sul, protectorados russos na Geórgia. A criação destes "bandustões" no Cáucaso demonstrou uma brutal incoerência: os russos, aliados da Sérvia, tinham estado na primeira linha dos protestos contra a "independência" do Kosovo, já para não falar na asfixia do movimento secessionista na Chechénia.

 

Aberta a caixa de Pandora em pleno século XXI, parece que recuámos duzentos anos na história. Eis-nos reconduzidos ao início do século XIX, nacionalista e fragmentário.

Com a Bélgica sempre prestes a implodir devido ao interminável conflito entre flamengos e valões.

Com os húngaros que não deixam de agitar-se na Voivodina e na Transilvânia.

Com galeses e escoceses, sem falar de parte dos irlandeses do norte, de costas viradas para Londres.

Com as eternas clivagens regionais no frágil estado italiano, onde se elevam vozes radicais pela independência da Padânia, capitaneadas pela Liga Norte.

Com as crescentes aspirações dos autonomistas corsos em clivagem aberta com o centralismo jacobino do Estado francês.

Com as reivindicações históricas germânicas, ciclicamente renovadas em círculos extremistas, à restituição da Alsácia e da Lorena (em França) e de Trentino-Alto Ádige (na Itália).

Com fortes minorias étnicas aspirando à reconfiguração do mapa político em países como a Letónia, a Macedónia e a Croácia.

Com a guerra civil de média intensidade que se prolonga no leste da Ucrânia entre russófilos e russófobos.

Com os problemas territoriais mal cicatrizados entre polacos e alemães, finlandeses e russos, húngaros e romenos.

Com os conflitos seculares entre gregos e turcos, centrados na ilha de Chipre, dividida desde 1974.

 

Num mundo que se vai organizando em blocos regionais para enfrentar os desafios da globalização, a Europa caminha em passo trocado, separando-se em vez de se unir. Visto de outros continentes, aquele em que vivemos surge como um reduto cada vez mais frágil e bipolar, sedento de reavivar glórias passadas enquanto cede à permanente tentação da utopia.

Ressurge agora a pulsão nacionalista na Catalunha, que nunca foi um Estado independente. A região goza de órgãos políticos próprios dotados de amplos poderes, reconhecidos na Constituição espanhola de 1978. Mas isto não basta para alguns elementos mais extremistas, que sonham com uma "grande Catalunha livre", integrando o arquipélago das Baleares, parte do País Valenciano, uma parcela oriental do território aragonês, Andorra, a Alta Sardenha e o departamento francês dos Pirenéus Orientais, onde se integra  o Rossilhão. Tudo em nome de pretensos direitos históricos, mais que contestáveis.

Nenhuma sondagem atribui maioria pró-independência entre os cidadãos da Catalunha. É um dado muito relevante, que a gritaria dos secessionistas nos palcos mediáticos não consegue iludir: não existem declarações de independência quando apenas metade da população, no máximo, aspira a tal objectivo. A independência ou é um projecto colectivo ou não é nada. 

A Catalunha será sempre os que os seus cidadãos decidirem, mas num quadro de legalidade democrática. Não será uma minoria iluminada de catalães a decidir por todos, agitando bandeiras nas ruas e gritando palvras de ordem nas redes sociais. Muito menos os catalães "bacteriologicamente puros", que aliás são minoria na Catalunha. As famílias catalãs e castelhanas ou andaluzas ou valencianas ou aragonesas estão misturadas há séculos. E ainda bem.

 
A Europa - cada vez mais interdependente - não deve brincar às independências, dando lastro aos nacionalismos. Sempre redutores, sempre identitários, sempre com traços xenófobos centrados no ódio ao "estrangeiro".

Não esqueçamos: no século XX os nacionalismos exacerbados, postos em confronto, provocaram 80 milhões de mortos no Velho Continente. Tudo quanto contribua para o seu arrefecimento - e já nem falo na sua diluição - será sempre uma boa notícia para a Europa.


1 comentário

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De SemioZeus a 21.09.2017 às 14:59

Afinal de contas, quem é que andou a "Brincar"?

Por acaso houve algum Referendo para nos perguntar se queríamos entrar na U.E.?
Houve Debates?
Não houve Referendo, precisamente, para não haver Debates.

Perguntaram se queríamos trocar a nossa moeda baseada em ouro por uma baseada em coisa nenhuma?
Informaram-nos que o nosso Banco de Portugal passaria a sucursal do BCE, um Banco Privado?
De 800 toneladas de ouro, nem sequer saber bem o que existe e, por "portas e travessas", passou a propriedade de "accionistas" privados. Alguém nos Perguntou se queríamos uma Dívida Impagável que consegue escravizar, não só agora mas, também, as Futuras Gerações?
Todos os Países Europeus estarem a aumentar as Dívidas, incluindo a Alemanha, o país onde sobrava dinheiro, Coincidência?

Brincar?
Não brinque com coisas sérias, a Liberdade tem sido esmagada com palavras, manipulações e Dívidas e com esta do "Brincar", só pode estar a Brincar.
Quem está pronto a ser preso pela Liberdade, está a brincar?
Muitos, nunca se arriscariam a isso, ficam acomodados nos seus "direitos adquiridos e garantidos" e, quem vier depois que "feche a porta" e sofra as consequências. Dívida é Dependência e, esta, a um credor externo, serve apenas para controlar os Países.

"Não será uma minoria iluminada de catalães a decidir por todos".
Decidir por Todos?
Qual Todos?
Tem sido precisamente o contrário, uma minoria a decidir por todos ou tentando usar aquela "matemática", de um Presidente dizer representar 52% dos portugueses com 2.413.956 votos, onde Abstenção e Brancos nem entram nas contas?
Um Partido como o Bloco de Esquerda, dizer que representa 10,19% dos Portugueses com 550.892 votos?

Brincar tem sido "massajar" números até eles parecerem aquilo que não são.
Nos Tempos que Correm, nunca se precisou tanto de Honestidade, Transparência e de parar de brincar com as Palavras.
Essa do "Brincar" até me deu volta ao estômago.

Está a falar da Europa ou da União Europeia?
É que são duas coisas Completamente Diferentes que, a "alguns" convém, muito, misturar.
Como se tem visto com a U.E., a seguir à Manipulação vem a Censura ou não sabe que, na Europa, já começaram a prender quem usa, apenas, a Liberdade de Expressão?

Mas pode estar descansado, como temos visto com o Brexit, parece que já conseguiram agrilhoar Países e prender pessoas isto, no caso de só se preocupar em não perder as tralhas, nesta breve passagem chamada Vida mas, se calhar, devia estudar Física, especialmente Quântica.

Energia não pode ser criada nem destruída, apenas transformada e, como dizia Tesla, quem quiser descobrir os segredos do Universo, pense em termos de energia, frequência e vibração. Curiosamente, hoje com a ciência onde se pode passar para além das nanopartículas, aquilo que imagina ser sólido, não passam de partículas a vibrar numa frequência tão baixa que, os nossos sentidos, apenas preparados para ver uma ínfima fracção do que existe, imagina serem coisas "sólidas" aquilo que, na realidade, não é.
O CERN querer ver outras dimensões?
Matéria Negra, afinal tem massa e peso portanto, temos dois tipos de energia.

Entrelaçamento quântico "dois ou mais objetos podem estar de uma forma tão ligados que um objeto não pode ser corretamente descrito sem que a sua contra-parte seja mencionada - mesmo que os objetos possam estar espacialmente separados por milhões de anos-luz."
Não acredito em Deuses criados pelos Homens mas, há muito mais do que aquilo que os nossos sentidos enxergam. Tanta ciência e continuamos a viver mais preocupados com coisas virtuais, do que tentar viver Conscientemente e com a energia que queremos nesta dimensão que só pode passar através de cada um de nós.

Se eu não tiver razão não perco nada mas, se eu tiver, teremos o resto da Eternidade para o confirmar. Entre Luz e Matéria Negra, energia positiva ou negativa, não há muitas opções de escolha.
Suponho que a matéria negra não goste muito de Transparência, nem Verdade, nem Liberdade mas, como nascemos com Livre Arbítrio, cada um, pode escolher.
Por mim, garanto que já escolhi e só usarei palavras para informar, nunca para manipular as escolhas dos outros. Podem rabiscar milhares de Leis mas, cada um, só tem o Direito de mandar em si próprio e, se assim fosse, o Mundo não estaria nesta contínua degradação.

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