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Boris para o fim-de-semana

por jpt, em 30.08.19

boris.jpg

(Texto longo, muito mais com o registo de conversa para blog individual mas já que o botei aqui o replico, até porque vamos para o fim-de-semana)
 
Não tenho grandes vínculos com o John Bull. Algum, broken, conhecimento da sua língua. E poucos britânicos contemporâneos realmente me marcaram - Berlin, Leach, Naipaul, Page, Popper, Richards, nenhum deles, e por diferentes razões, um verdadeiro arquétipo appointed by Her Majesty, com a óbvia excepção de Sir Edmund (esta agora foi à João Carlos Espada ...). Mas atrevo-me a opinar, e justifico-o: há mais de uma década que lá tenho família mui próxima queridos amigos, daqui a semanas a minha adolescente filha ali irá cursar a universidade.
 
O que se passará não será uma desgraça para a Grã-Bretanha, e daqui a uns tempos nem se lembrarão das angústias havidas. Mas esta finta ao parlamentarismo é politicamente significante, demonstrativa do processo europeu actual, sinal que vivemos "tempos interessantes". E é ainda mais significante que tal não aconteça na Grécia, Espanha ou Portugal, recentes democracias, ou nas ainda mais recentes das ex-(quase)colónias do Urso Soviético, algumas um bocado trapalhonas. Brota exactamente no cerne histórico da democracia parlamentar. Sinto que isto terá muito mais impacto do que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. "Tempos (ainda mais) interessantes" aí vêm.
 
Para enfrentar este aparente futuro muito haverá para pensar, e definir. Primeiro do que tudo, perceber quais são os problemas. Entre estes estão as formas de recrutamento dos colectivos das lideranças políticas. Num momento em que as capacidades de influenciar o rumo das sociedades se esvaem, em que a soberania efectiva se esgarça, devido à economia mundial e não aos projectos políticos agregadores, quem surge na política? Para simplicar, o problema não é Boris Johnson, nem o "mágico" Steve Bannon. O problema é o tipo David Cameron (quem?). Estes pequenos projectistas de cabotagem  que são recrutados, ascendem, influenciam, e se impõem, gente às vezes sans foi ni loi (como diriam os normandos) mas sempre sem rumo. Grassam, por todo o lado. E não por uma qualquer "crise" de valores, mas devido ao funcionamento do espaço político.
 
Por cá leio vários a defender o gambito de Boris Johnson. Dizem, pressurosos, que é uma acção positiva, tendente ao respeito pelo voto, o resultado do referendo. Correcto. Mas o parlamento também foi votado, donde este argumento é uma óbvia contradição, um pensamento a la carte. É legal, aplaudem. É. Mas não parece nada legítimo. E os ilustres doutos deveriam saber a diferença nada ténue entre os termos. Não haja dúvidas, o encanto com que esta medida de Boris Johnson é acolhida mostra, grita, uma coisa: os seus apoiantes (lusos e não só) não gostam de parlamentos.
 
E o júbilo diante desta versão boreal da Jangada de Pedra do comunista Saramago mostra bem que os seus apoiantes não gostam da União Europeia, querem-lhe a pele. Não a querem melhorar (intensificar ou aligeirar, redireccionar ou estancar), querem-na finda. Nunca percebi qual a razão de portugueses defensores da economia de mercado e da democracia parlamentar tanto detestarem a União Europeia. Talvez tenha sido aquela legislação adversa aos galheteiros públicos. Ou talvez seja a questão da (i)migração. É sempre interessante, no sentido de espantoso, ver doutos portugueses insurgirem-se contra os direitos dos emigrantes. Pois mostra bem que não vêm para além da ponta da respectiva pilinha, perorando que vão num país de emigrantes. Mas não deve ser por causa desta temática da (i)migração. Pois se o fosse discutir-se-iam mudanças nas regulamentações europeias: o livre-trânsito interno, a apetência por mão-de-obra exógena, etc. Mas esse não é o motivo, é apenas o pretexto. 
 
Desde o anúncio da trivela Johnsoniana li vários locutores lusos aplaudindo-a. Insisto, é gente que, de facto, não gosta do parlamentarismo e não gosta da União Europeia. Um destes dias estarão a perorar contra a NATO - de facto já o fizeram quando Trump chegou ao poder e polemizou sobre a organização. Pode-se sorrir e dizer que têm uma agenda política parecida com a do BE e a do PCP! Ou podemos ser um pouco mais analíticos, na senda das teorias da conspiração, e pensar que são teclados putinescos.
 
Mas de facto não são nada disso. São apenas uns ultramontanos "à antiga", uns reaccionários do piorio. Lendo-os - nas redes sociais - vê-se que muitos defendem novas alternativas políticas, como a Iniciativa Liberal, o partido do comentador Ventura, o Aliança (do agora desnorteado Santana Lopes, a fazer tristes figuras de "ocupa"). Eu não estou a dizer que o Iniciativa Liberal (no qual se calhar votarei) ou o Aliança (no qual teria votado se estivesse em Portugal nas últimas eleições) defendem estas posições. Estou a dizer que no seu interior têm estes núcleos, que poderão ser pequenos mas são audíveis - doutos num país de "doutores".
 
Assim, no registo de conversa que é o deste postal (e, a bem verdade, o de todos os postais), o que é necessário é recrutar boas lideranças políticas nos partidos democráticos, gente com algum tino e cuja ambição não seja apenas voluptuosa. E que tenham algum tipo de projecto, nacional e internacional. Um "desígnio", para usar um termo que os seguidores do pensamento de Inês Pedrosa abominam. Seja nos partidos democráticos tradicionais, seja nestes novos. Que não venham Camerons. E cameronzinhos. Que se defenda a democracia parlamentar dos gambitos, trivelas e fintas adversários. E que se defenda a União Europeia, modificando-a, intensificando-a, aligeirando-a, imigrando-a ou não.
 
O que significa, também, refutar, pontapear, o comunismo identitarista, sempre empenhado na demonização da tradição democrática europeia, invectivando o "ocidente", propondo-se a "rever conteúdos culturais", querendo traumatizar para, de facto, apoucar, nisso desfazendo.
 
No nosso país o primeiro passo para isto é simples: arranjar alguém para liderar o PSD, que anda aí aos caídos, decerto que muito devido à tralha militante. Já agora, convém que seja alguém que não surja, a um mês e picos das eleições, em abraços sorridentes ao sucessor de José Sócrates. E em começando por aí continue-se, despertando o CDS da sua condição hospitalar. Ou, porque não?, desliguem-no da máquina. 
 
Pois o estertor dos partidos democráticos, que até pode ter piada para quem ande cansado dos tropeções e aleivosias correntes na política, só terá um desfecho. Piores partidos, piores gentes, piores soluções.
 
Vamos seguir o caso britânico. Ou, como já muitos anunciam, vamos ver o caso inglês. Wait and see ...


25 comentários

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De Vorph Valknut a 30.08.2019 às 15:24

Como sempre, um prazer lê-lo. Se me permite, julgo que a aversão pátria pela UE está relacionada com os milhares de milhões de euros recebidos e gastos, ao (des) barato, através dos fundos de coesão. É desanimador ver na longura do tempo, a distância perdida (ironia)

E depois há também a Todestrieb, de Freud. A paz em demasia entorpece, desmaia, decompõe, estranhamente a tintura da vida.

Jpt, lembra-se como a Europa celebrou a a inauguração da Primeira Grande Guerra? Em grande estrondo. Como se o sossego, a tranquilidade, desassossegasse as gentes. Tornasse estéril a Terra. Quem sabe se não é imperativo biológico, cósmico , geológico, os baptismos hemáticos?

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De jpt a 30.08.2019 às 17:18

A amor nacional não é um defeito, e o actual "europeísmo" (de facto um "unionismo"), esquece-o em demasia, algo que está a pagar -. e talvez exageradamente caro - devido a alguma prática e a uma evidente retórica "cosmopolita", a uma aparência federativa. E, já agora, acima de tudo, por um excessival afã de mão-de-obra barata, a implicar a demonização das fronteiras. Das externas, entenda-se, mas também das próprias internas. Talvez fosse avisado mudar a água do banho para evitar infecções no bebé.

A paixão nacional é um defeito, como deveríamos saber - e bem lembra a I Guerra Mundial, a espantar tantos, principalmente os crentes de então na "união proletária". E essa degenerada alimenta-se mesmo dos maus tratos ao precedente, como os políticos deveriam ter previsto, prever hoje e nisso actuar.

E tem razão também: a paz em demasia entorpece, como disse (esse) austríaco. E a democracia aborrece, não é sexy, não dá "pica". Por isso, e numa leitura psicanalítica da história (que continua muito respeitável em Portugal, veja-se o impacto do posfaciodor do antecessor de António Costa) eu diria que os opositores portugueses da UE têm, acima de tudo, questões ligadas à progressiva disfunção eréctil. Coisas que são naturais da idade, e ultrapassáveis, quando recebidas com sageza e alguma investigação. Trata-se assim, de um efeito articulado da ideologia de género (identidades sexuais) e do atavismo (incapacidade para aderir a novas práticas advindas dos saberes técnico-científicos).
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De Vorph Valknut a 30.08.2019 às 18:37

Jpt, alarguemos as laços de paixão. Somos capazes disso todos os dias. Os meus amigos, são meus irmãos. Amo a Inglaterra, como amo Portugal. Amo o Entre Douro e Minho, como o Alentejo. Numa Diáspora, que dura há décadas, nesta Europa já ninguém sabe de onde, ou de quem é. Como sabe, observe quem são hoje os londrinos. Latinos, indianos, árabes, portugueses, ingleses, escoceses ... E é precisamente por essa diversidade que, por lá, me sinto em casa.

A dicotomia nós /eles é muito permeável. Basta usarmos os critérios certos. Humano - Europeu- Português - Alentejano - homem - Panteista - sem clube futebolistico. Há uns que poem mais ênfase no singular, no miúdinho, na letra pequena, numa cor qualquer. E há outros que não ligam, sequer, ao penteado.
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De jpt a 30.08.2019 às 20:16

Isso não é verdade. As pessoas sabem quem são, e na maioria dos casos exercem-no. Essa utopia atópica é um, e nada paradoxalmente, inimiga do cosmopolitismo. E, pior, é um inimigo terrível da democracia e da paz.

Quanto ao resto, eu não sou um pinga-amor. Sou patriota. E "amo" Moçambique no qual passei o melhor da minha vida e muito bem tratado fui. Aprecio alguns outros países. Não tenho qualquer encanto pelo Burkina Faso ou a Birmânia, por exemplo. Nada me move contra, entenda-se, apenas desconheço. Só lhes desejo o bem. Mas não "amo", nem "gosto". E torço sempre, mas sempre mesmo, contra a França no futebol (e no raguebi). Excepto quando joga contra a mannschaft (no futebol, que no desporto-nobre eles nada pescam). E, friso bem, entendo que aqueles que vêm viver para o "meu" país e querem mudar-lhe as características, frutos de um dificílimo processo histórico, de forma a torná-lo compatível com os seus locais de origem (aquilo que tem os contornos daquilo que eu aprendi como "colonialismo") devem, pura e simplesmente, partir. Ser reenviados, para melhor dizer. Para alguns isto parece xenofobia. Para mim é democracia. Tópica, como deve ser.
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De Vorph Valknut a 30.08.2019 às 20:43

Não, não defendo lendas de paixão. Claro que num país árabe, muçulmano, na China, ou na Birmânia, ou mesmo em Moçambique, me sentiria, com toda a certeza, deslocado e tresloucado. Falo na civilização europeia e falo naqueles que não sendo atlantes o desejam ser. A história europeia difere unicamente nos mitos. Aliás os mitos das nações são invenções tardias, romantismos inventados pelos revolucionários jacobinos, propaganda republicana. Portugal nasceu muito antes dos portugueses. O que separa a França, da Alemanha? O Reno. O Reino Unido, da Normandia? O mar do Norte. Linguísticamente, geneticamente, somos arianos, atlantes, raça de gigantes. Pela federação europeia. Pela civilização ocidental. Alas.
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De jpt a 30.08.2019 às 21:35

Algumas fronteiras são de origem geográfica mas não são apenas geográficas. Quanto a isso da origem ariana é "chão que deu uvas". Agora que somos todos atlantes isso somos, saídos que somos de uma qualquer amiba.
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De André Miguel a 30.08.2019 às 20:51

O post já é bom, mas este comentário é enorme. Subscrevo.
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De jpt a 30.08.2019 às 21:35

A gerência agradece a gentileza.
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De Anonímo a 30.08.2019 às 16:36

Mamparra. Então referendo di nós vale menos kê pessoal maningue chibante nos Maputo?.
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De jpt a 30.08.2019 às 17:06

nunca fui apreciador do Parafusismo.
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De Anónimo a 30.08.2019 às 19:30

Correcto. Nem eu. Saudações respeitosas.
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De jpt a 30.08.2019 às 20:17

Ora ainda bem. Bom fim-de-semana.
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De Vento a 30.08.2019 às 20:35

O caso UK, jpt, revela algo de muito simples na complexidade em que a UE se tornou para uma vasta parte de sua população:
1 - Muda-se a Europa mudando-a primeiramente em casa própria;
2 - Se para isso é necessária a suspensão temporária ou faseada do parlamento, something that the british unwritten constitution allows (só para mostrar que esgalho bem em literatura estrangeira), preservando assim os interesses da soberania nacional, algo que quem vive do que vem de Bruxelas não poderá nunca entender, como é o caso português, então, faça-se;
3 - Um país que contribui, pagando, como é o caso do UK, não pode hipotecar a soberania e interesses, como também é o caso do backstop na Irlanda, quer a Bruxelas quer a um grupo dito democrático em seu próprio país.

Por último, as democracias parlamentares à volta do globo submetem os seus preceitos às diversas constituições; porque não o UK?

O que Trump e Bolsonaro demonstraram, ratificado pelos seus cidadãos foi exactamente isto: não permitiremos que outros continuem a governar-nos, seguiremos nosso destino por nossas próprias cabeças. Assim fez Putin.

Importa votar Aliança na medida em que a direita faliu em Portugal, à conta do neoliberalismo, e a esquerda tornou-se revisionista e reaccionária porque Bruxelas garante-lhes o pagamento de seus ordenados e os dos seus grémios politico-eleitorais. Os outros que vivam do assistencialismo, se conseguirem.
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De jpt a 30.08.2019 às 21:03

É verdadeiramente interessante o que escreve. Deduzo - entenda-se, tenho que deduzir - que para si Clinton, Obama, Bush e W. Bush, só para referir os mais recentes, não conduziram os EUA segundo as "suas próprias cabeças" (ou seja, os interesses americanos) mas em função de outrem. E não falo do caso brasileiro, que V. também refere, porque não conheço o que por lá se tem passado com um mínimo de detalhe - enfim, sei que nas últimas décadas foram um bocado atrevidos (entenda-se, defenderam os seus interesses de modo bastante ágil) em África, mas isso não será o cerne da vida daquele país.

Quanto aos pontos que elenca:
1 - sim. Mas do que falo não é da mudança da Europa, como V. diz, mas da mudança da União Europeia (ou do seu extermínio).
2 - o seu inglês vai muito melhor do que o meu.
2/3 - sim, mas eu digo-o no texto, a decisão é legal. A questão é da sua legitmidade (política). Eu não sou conhecedor da história parlamentar britânica mas fico curioso, em que momento relativamente recente é que a suspensão do parlamento foi utilizada para tomar decisões deste calibre? E esse é o meu ponto, não é a saída da G-B da UE - está no começo do texto, nada de grave acontecerá. E o povo votou nisso, pronto. A questão é mesmo esta estratégia de subalternizar os parlamentos e o impacto que um processo destes na GB (e não numa qualquer Sildávia) terá no ambiente político geral.
E eu sumarizo-lhe o impacto que vai ter. A propósito de um mero postal sobre esta questão V. fala já de um "grupo dito democrático" em Inglaterra. Qual? Ou seja, todos os que não concordam com este viés: Major, o sucessor de Thatcher, a actual lider conservadora escocesa, por exemplo. Esses, entre outros, já estão por si empurrados para esses "ditos democráticos" como se fossem as Mortaguas's Sister ou Louis Farm - eu sei que V. negará o que lhe digo mas de facto é mesmo o que está explícito e implícito no seu comentário.

E é esse viés que estamos a ver. Cheio de mitos, ainda para mais, como os da "soberania", coisa mais complexa de discutir numa caixa de comentários. E de historietas, como essa, até indigna, de que o traste Bolsonaro fez o Brasil dono do seu destino. Elenque sff os itens dessa supreendente afirmação. Sem retóricas, que a gente sabe que Lula isto e aquilo, e que etc e tal. Falo de assuntos com substância, não de patacoadas de mão na anca
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De Vento a 30.08.2019 às 21:38

Eu começo pelo fim: Lula, na realidade, devia ter entrado na corrida pela disputa da presidência; e a questão de Dilma não passou de um golpe. Portanto, sem ter a mão na anca como o meu caro fez, deixo claro que a minha questão não é pessoal.
Bolsonaro não fez o Brasil dono de seu destino, está a trabalhar para isto. E Isto é algo que só os trastes sabem fazer, porque os outros falam muito e não fazem nada; muitas vezes mostram o colapso de suas tretas.
O Brasil, quer em matéria económica quer em matéria estruturante - não obstante o bom desempenho inicial de Lula -, como é o caso da utilização dos recursos de seu solo e subsolo, vivia condicionado na sua emancipação pela submissão em políticas internas que permitissem o escoamento de sua produção (da agricultura ao sector extractivo). Como o comentário não é um testamento, deixo aqui matéria para que se interesse por ela e se informe.

O grupo dito democrático está escrito ironicamente na medida em que os democratas para V. são aqueles que se compatibilizam com seus ideais. E para que entenda o que pretendo dizer, informo Vexa. que esse mesmo grupo dito democrático enviou uma carta à Rainha, antes desta se pronunciar, para que não aceitasse a proposta de Boris. Ora bem, é matéria que V. deve estudar e pesquisar para perceber que são esses mesmos ditos democratas a reconhecerem o papel decisor da Rainha nesta matéria. E não só: não vê um único contestar a decisão da Rainha, mas somente criticar Boris. Portanto, a matéria é política e não de crise na democracia.
As decisões deste calibre não foram tomadas em outros tempos pela razão óbvia de que nesses tempos a matéria em causa não existia. E?

Por outro lado e de forma breve para responder ao demais: Se o meu caro entendesse a influência do grupo de Bilderberg na política americana e fora da américa não teria ficado surpreendido com as minhas afirmações.

Há alguma questão que eu não tenha respondido?
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De jpt a 30.08.2019 às 22:14

Sobre o Brasil desiludo-me, preguiçoso que sou nessa matéria. Francamente não tenho um interesse particular sobre o país, pouco sei e quase nada leio. Nem opino sobre o processo eleitoral anterior - não tenho qualquer simpatia por Lula. Já sobre Rousseff não tenho opinião formada, apenas me lembro, com antipatia, da sua mania de ser chamada "presidenta", uma patetice demagógica mas que não chega para aquilatar sobre a sua presidência. Mas como me manda "deveres" que não farei terei que fazer a disciplina num ano futuro. Quando, decerto, alguém faça uma suficiente resenha desses excelentes passos económicos para a soberania brasileira que V. augura. (Já agora, a mão na anca que referi traduzia a minha vontade de não estar aqui a receber ecos sobre as mariolices do PT e etc, que não eram o assunto. Obrigado).

Quanto ao que me diz de os democratas corresponderem aos meus ideias. Mas é claro que sim, considero que são democratas aqueles que se compatibilizam com alguns dos meus ideais. Eu não avalio como democratas a mole de guevaristas que pululam pelo meu país. Eles não o são. Eu não considero como democratas os que tanto elogiam Pinochet (que pôs os comboios chilenos a andar à hora certa, ou coisa parecida). Não o são.

Eu não referi que há uma "crise na democracia" britânica. Eu disse que é uma decisão que, exactamente por ser na G-B, terá efeitos alhures, no paradigma da prática política. Há um enorme hiato com o que V. diz (já agora, tradicionalmente, e já que V. conhece melhor do que eu a política britânica saberá bem isso, o monarca não é criticado politicamente - tanto pela estreiteza dos seus poderes facticos como por ser considerado noutro patamar, como corpo da soberania, daí que o seu argumento não colhe. E é obviamente o PM que tem que ser avaliado, positiva ou negativamente, por esta decisão, da qual é autor).

Julgo que o (longo) postal é claro: eu não apouco a decisão popular de partir. Penso que a historieta da soberania ameaçada é uma parvoíce, mas isso é apenas a minha opinião. Votaram, cumpra-se. Mas o que noto é a suspensão parlamentar - inusitada, e que causará efeitos. E que anima os efectivos adversários da democracia parlamentar. E isso vem na ligação de alguns postais que botei aqui, lá para finais de 18, sobre os encantados lusos com Bolsonaro. De facto, o que gostam nisto tudo, é da onda anti-democrática que tudo isto aparenta ser. É essa a questão.
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De Vento a 30.08.2019 às 22:32

Quer então dizer que concorda com o meu primeiro comentário.

Eu não sei se conheço bem melhor a política britânica que V., mas a tradução do termo inglês "prorrogue" - traduzido por suspensão -, que significa descontinuar a sessão, talvez induza "a efeitos alhures, no paradigma da prática política".
Mas a prática política inglesa é em si mesma um paradigma da prática comum. Não me estranha, portanto, que assim se pense fora do UK. Porém estranha-me que se leve a sério a reacção de alguns no UK.
Concluo afirmando que isto só seria da autoria de Boris se Boris tivesse inventado a prerrogativa.
Não há nada criticar na matéria, mas siga a política.
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De jpt a 30.08.2019 às 23:19

1. Não, e acho que a(s) minha(s) resposta(s) o mostram.
2. Eu não "traduzi". Usei "suspensão" porque semanticamente é o mais aproximado, em meu entender. Ao decidir actuar desta forma de facto o que passa é suspender os poderes parlamentares. Não estejamos com meneios, que são desnecessários numa conversa.
3. Não gosto de jogos de palavras para desconversar: a acção é uma iniciativa de Boris Johnson, pelo que é da sua autoria. É mais do que explícito. Julgo - sem saber de certeza - que há uma tradição de que o monarca não se opõe ao PM (a tal "constituição" intangível), o que implica ser a iniciativa da sua autoria e da sua responsabilidade. O preceito, periódico, de "interromper" (acho que é a melhor tradução) o parlamento terá uma origem (autoria) que desconheço, mas isso é falar de outra coisa. Ou seja, "isto" é mesmo da autoria de BJ. Quanto ao criticável (analisável), claro que há. Consoante a vontade de cada um, claro.
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De Vento a 31.08.2019 às 01:24

1 - A acção é de Boris, mas é uma acção legitima e democrática; e faz parte da denominada Prerrogativa Real a ratificação, a pedido do primeiro-ministro, que age em nome da Rainha ou do Rei (ponto final).
2 - Boris, como primeiro-ministro, só pode fazer uso de uma prerrogativa aceite e vertida em lei pelo parlamento (ponto final).
3 - Os poderes parlamentares não estão suspensos, é o processo deliberativo que está condicionado pela "prorrogue".

Tudo é criticável, mas só criticam a situação aqueles que sempre conhecendo as regras entendem não lhes ser favoráveis no momento. Se eles lá estivessem, em uma qualquer outra situação usariam a mesma prerrogativa.
Afinal o que está mal, a prerrogativa ou o uso dela?

Isto não são jogos de palavras, são situações concretas.
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De jpt a 31.08.2019 às 03:38

Bem, eu sou o dono da casa - não o proprietário, que esse é o Pedro Correia - mas digamos que aluguei este apartamento. E V. é convidado. Se me diz "ponto final", e se o repete, cumpre-me agradecer-lhe a gentileza da visita, e acompanhá-lo à porta, desejando-lhe um bom regresso a casa, e fazendo votos para que nos reencontremos em breve. Ainda assim, sabe-se que por vezes, ali à saída, já "fora de portas" ainda há um resto de conversa, até estendendo-se:

1. eu creio (será soberba?) que o postal é claro: "O que se passará não será uma desgraça para a Grã-Bretanha, e daqui a uns tempos nem se lembrarão das angústias havidas.". Ou seja, não vejo desgraça na sociedade e na política britânica. O que me é relevante é que esta "finta", como lhe chamei, " Brota exactamente no cerne histórico da democracia parlamentar. Sinto que isto terá muito mais impacto do que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. "Tempos (ainda mais) interessantes" aí vêm.". Esta prática política num país de tradições parlamentares tão arreigadas e com instituições tão fortes como a GB (e tão apegada às tradições estruturantes) não terá efeitos políticos gravosos. Insisto, o meu ponto é a influência que esta prática terá em países com democracias tão mais novas, mais frágeis, menos arreigadas, em particular na era actual de recuo da paixão democrática (basta comparar com os anos 90s, em que se acreditava na globalização da democracia). Como tal, eu não estou mesmo a dissecar o acto johnsiano.

2. O acto dele é legítimo? Sem jogar com palavras, isso é uma questão de ponto de vista. O que é legítimo? Convida o teu inimigo para jantar e depois da sobremesa mata-o, disse um teórico crucial da ciência política (eu não estou certo do cardápio que ele recomendava). No seu entender isso era legítimo, dizia-o a "razão de Estado" como se veio a chamar depois. [Há quem diga que o teórico estava a "denunciar" mas eu julgo que era mesmo no sentido instrutivo]. É legal? É. Se é legítimo já é uma questão de opinião. Eu julgo que não é. (Como também julgo que aquelas rábulas de repetir referendos para aderir aos tratados europeus não o foi, ainda que haja muitos que pensem o contrário). Mas também sei que muitas vezes não se deve ou pode governar preso à legitimidade (não falo de legalidade). Por vezes, e desde que os objectivos sejam virtuosos, não se pode usar meios virtuosos (e depois nós, bloguistas et al, escandalizamo-nos). Insisto, esta medida terá refracções onde menos se espera. E onde mais se espera também.

3 - Ao eximir a saída da UE do controlo do parlamento o tipo está a suspender os poderes parlamentares. Com mais pitada retórica ou menos pitada retórica, é isso que está a acontecer. É o John Bull, talvez não tão robusto como há umas décadas, mas ainda rijo, é um problema dele e não será gravoso. Mas cá fora, outros que abominam o controlo parlamentar, a concatenação de várias perspectivas, rejubilam. É esse o assunto.

Então até à próxima, volte sempre, foi um prazer tê-lo por cá.
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De Vorph Valknut a 31.08.2019 às 10:55

É antigo expediente. Em caso de emergência, encerra - se o Parlamento (por cá, sucedeu várias vezes). No Reino Unido não me recordo (talvez aquando da 2 grande guerra?) . Lembro - me apenas que em nome do Parlamento britânico se decepou um rei, e mandou - se embora um outro.
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De Vento a 31.08.2019 às 11:10

1 - O meu caro pode ser dono do que quiser, mas o ponto final é meu e está aí para indicar que uma norma aprovada pelo parlamento britânico finaliza toda uma polémica política. Se isto for oportunidade para me conduzir à porta, faça-o;

2 - Quanto ao seu nr. 1, não está na agenda de meu comentário. Sim, não é e não será nenhuma desgraça porque, como venho afirmando há vários anos, o Brexit jamais será exit. Pretendo com isto dizer que o uso democrático da "prorrogue" vem restabelecer um equilíbrio de forças nas negociações com a UE. UE esta que está inquinada de tiques nazis-estalinistas que, como exemplo, também conseguiram que os partidos portugueses ditos de esquerda - PS-BE-PCP-PAN - se tornassem em revisionistas reaccionários para garantir o pão nosso de Bruxelas para eles mesmos e seus grémios politico-eleitorais, à semelhança dos anteriores neoliberais;

3 - Quanto ao seu ponto nr.2, na matéria que se verte legitimidade e legalidade, produzida pelo parlamento e ratificada por este, com atribuição de Prerrogativa Real, determina a acção. O que não se esperava era que o princípio de uma União de países (a UE) se viesse a tornar em um diktat de alguns sobre todos;

Então até ao próximo fim-de-semana com mais matéria, de preferência sobre a importância do partido anti-nazista e anti-estalinista, o ALIANÇA, no quadro político nacional.
Viva os machos! Viva as mulheres femininas desta nação! Viva o Flamengo!
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De Anónimo a 31.08.2019 às 11:28

Sem dúvida um tema curioso e com reflexos por cá, no Portugal político e social.
Hoje, no "Express", esta opinião de um ex-Juiz do Supremo, do RU.

"...But it is politically and not legally shocking, and the courts are concerned with legal problems, they are not concerned with vetting the political judgements that are made by prime ministers.

“That is a matter for politicians to deal with, if they don’t like what the Government is doing they have to bring the Government down.”

A legalidade nos Tribunais, mesmo que Constitucional, e a apreciação política de uma decisão (de um político).


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De António a 31.08.2019 às 14:54

Uma democracia tão antiga tem buracos por onde passam manobras destas. É caso para desesperar da nossa, que é uma peneira furada.
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De José Carlos Menezes a 31.08.2019 às 18:29

Li por alto os outros comentários.

Aqui vai a minha opinião:
A maioria dos britânicos quer o Brexit, as eleições europeias confirmam-no.
Desesperam com impasses cujas burocracias não são nada interessantes, têm a sua vida e os seus interesses.
Boris John fez uma jogada de génio: quer o Brexit e quer eleições antecipadas para acabar com os impasses.

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