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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 30.01.17

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 Rita e Catarina Almada Negreiros com a avó, Sarah Afonso (1983)

 

1

Confesso-me cada vez mais farto do culto da banalidade, da apologia da irrelevância, da propagação do mau gosto em doses cavalares: o jornalismo anda a copiar o pior das redes sociais. Com o mesmo esquematismo, a mesma superficialidade, a mesma falta de memória.

Quantas vezes não vos sucedeu já, como sucede com frequência comigo, comprar jornais que não vos apetece ler por absoluta falta de matéria noticiosa digna desse nome?

 

2

Voltei a fazer o exercício este fim de semana ao comprar vários jornais num quiosque: encontrar lá assunto com interesse é quase como pesquisar agulha no palheiro. Deparamos com a despudorada invasão da privacidade das chamadas "figuras públicas", o boato travestido de notícia, a conversa de porteira armada em "análise política", o crime mais boçal erigido em matéria informativa de excelência, a sistemática tentativa de nivelar tudo por baixo.

Felizmente ainda existem inesperados oásis de qualidade, remando contra a maré dominante. Ao folhear a revista Magazine, adquirida com o Diário de Notícias, deparo com uma entrevista de rara qualidade às duas netas de Almada Negreiros, Rita e Catarina. Que evocam recordações do avô, uma das figuras mais relevantes da cultura portuguesa do século XX, e também da avó, a pintora Sarah Afonso. É uma entrevista longa, para ler devagar, saborear. Com revelações familiares, mas sem indiscrições. Uma entrevista com linguagem elegante, com emoção contida, como quase já não se usa. Estão de parabéns as entrevistadas e a jornalista Alexandra Tavares-Teles, que tão bem soube dialogar com elas.

 

3

Descubro no suplemento de outro jornal - o P2, do Público - uma crónica que me prende igualmente a atenção. É assinada por uma redactora deste diário, Maria João Lopes, e também vai contra a corrente, sublinhando a importância do olhar, insubstituível no percurso diário de um profissional da informação. O universo de um jornalista não pode confinar-se às quatro paredes de uma redacção, por maior que esta seja, nem a um ecrã de computador, por mais longe que pretenda conduzir-nos. Nada no mundo virtual substitui o mundo real. Com os seus ruídos, os seus odores, as suas rugosidades, as suas asperezas, a sua inesperada e estonteante fragmentação.

A cronista fala-nos um pouco de tudo isto. "Andar a pé conta-me tantas histórias como abrir o jornal todos os dias. Faz-me falta andar a pé horas, perceber que essa ideia dos tempos mortos afinal não existe, que esse tempo morto está vivo. Um repórter tem de andar a pé, sem medo de se perder e de perder tempo. Porque vai chegar muitas vezes (ou sempre) a lado nenhum. Mas aí vai haver, claro, uma história para contar".

Nada tão fora de moda, nada tão urgente. Valeu a pena comprar o Público só para ler este texto que incentiva os repórteres a caminhar.


6 comentários

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De Manuel S. Petro a 30.01.2017 às 19:52

Estou inteiramente de acordo consigo, sobretudo com o que diz em 1 e 2.
Costumo reparar nos jornais que se compram nas papelarias e nos que se lêem nos cafés. Fico espantado quando vejo senhoras de idade provecta e aspecto respeitável a darem a sua preferência ao Correio da Manhã. E com o deleite com que, enquanto tomam a bica, lêem notícias com tremendo detalhe de crimes, acidentes, violações, casos de pedofilia, assaltos a velhinhas etc. etc. Não há dúvida que isto agrada a muitas pessoas e lhes dá prazer.
Nos noticiários da TV passa-se algo de semelhante. O pormenor com que relatam desgraças espanta. Não há crime ou desastre que não seja descrito com um pormenor enjoativo. Em que não se interrogue o vizinho, o primo da vítima, a mirone, sobre o que viu, o que pensou e o que sentiu.
A mim enjoa-me. Mas tenho de reconhecer que a maioria gosta. Por isso estas coisas vendem-se e dão lucro.
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De Anónimo a 30.01.2017 às 22:10

Manuel, o que essas senhoras, de provecta idade, leem são as páginas do centro do CM: Brasileiro dotado, 25 beijinhos, Margem Sul
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De Anónimo a 31.01.2017 às 15:37

Com o Acordo, não é provecta, é proveta.
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De Luís Lavoura a 31.01.2017 às 10:46

A Rita e a Catarina na fotografia parecem dois rapazes.
Como as modas mudam. Naquele tempo pretendia-se um look unissexo. Hoje os ventos mudaram e pretende-se distinguir o look das raparigas do dos rapazes desde a mais tenra idade.
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De Anónimo a 13.01.2018 às 15:19

obrigada, pedro. descoberto apenas quase um ano depois, o elogio soube ainda melhor :)
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De Pedro Correia a 13.01.2018 às 16:35

Mais vale tarde que nunca... Reitero o merecido elogio.

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