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Bolsonaro e o clima

por jpt, em 16.11.18

bolsonaro-araujo.jpg

Bolsonaro apresentou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Araújo, assim mais explicitando o seu enquadramento ideológico. Para o novo ministro as questões ecológicas, e a preocupação com o mais que provável processo de alterações climáticas, são reduzidas a uma ideologia ("climatismo"), fruto de um "marxismo cultural" cujo objectivo é transferir o poder económico do ocidente para a China (ler este seu texto de blog do mês passado). Ou seja, os "inimigos internos" já não são os comunistas, esses que serviam para tudo justificar em décadas passadas, são os "pró-chineses", avençados dos neo-Ming que por lá mandam. É este o novo poder do Brasil do Amazonas. 

Antes das eleições o projecto político-económico fora explicitado pelo candidato Bolsonaro: incrementar a utilização da floresta (entenda-se, o desmatar). Em concordância com interesses terratenentes nacionais e industriais internacionais. O projecto político-ideológico? Explicita este Ernesto Araújo, a luta contra o tal "marxismo cultural", esse "sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.”. Isto no âmbito de um "ocidentalismo" (às três pancadas), de uma superficialidade pungente ainda que glosando Heidegger (um resumo respeitoso da verve de Araújo está aqui), enquanto se alimenta de Spengler. É este o estado a que aquilo chegou. Com impactos ambientais que serão terríveis, articulados com a política americana nesta matéria, em que Trump canta a mesma boçal melodia (após Obama, que trauteava diferente mas pouco ou nada fez de relevante sobre as questões ecológicas). 

Há mesmo um "marxismo cultural", na pobre definição do agora ministro. Um neomarxismo, comunitarista, que coloca no centro da discussão pública o "género dos anjos", um identitarismo que se tornou uma verdadeira "maré negra" na discussão política. O processo eleitoral que catapultou Bolsonaro é mostra dessa poluição: as suas ligações agro-industriais mal eram afloradas, os seus propósitos ecológicos ignorados. As (ineficazes) acusações que contavam para a oposição eram o seu machismo (e ele não legislará contra as mulheres) ou o seu racismo (e ele não legislará sobre raças). De facto, o que essas suas diatribes anunciavam era a recusa de políticas estatais de discriminação positiva, e foi isso que se tornou a questão central, devido aos grupos corporativos a elas ligadas, quando se tratam de meros epifenómenos.

Esvaizamento do debate que se mostrou nas acusações de racismo (que com toda a certeza correspondem aos seus preconceitos): vi ene vezes partilhadas declarações do candidato sobre a sua visita a um quilombo (habitado por negros). Disse o homem que lá só encontrou "gordos", que o mais magro ia tão obeso "que nem para cobridor servia".  As pessoas ficam agarradas à linguagem provocatória, e perdem o fundamental, caem na esparrela: pois o relevante não é que os "negros" sejam isto ou aquilo ("gordos", "preguiçosos"). O relevante é a oposição à demarcação de terra (protecção ecológica por via de fundamentações histórico-culturais) e o radical confronto com políticas assistencialistas. Mas, claro, a omnipresente questão do "género (e raça) dos anjos", imposta pelo neomarxismo, venda os olhares sobre as dimensões relevantes deste rumo, no Brasil e alhures. Neste caso, a ecologia, e a protecção desenfreada à agro-indústria.

Uma questão paroquial (porque o relevante é o impacto ecológico das políticas de Brasília): leio gente integrante deste novo partido (um partido-birra, de facto) de Santana Lopes a defender Bolsonaro. Leio membros e adeptos do CDS a defender Bolsonaro. Não leio ninguém do partido-Ventura porque presumo que não consigam escrever, mas também se deliciarão com estas bolsonarices. Alguns deles gozam com os "moderados", os não-esquerdistas que não aderem a este bolsonarismo, como se em frémitos anais os gritassem emasculados. Isto levanta uma questão até porque, como aflorei acima, não vivemos na Guerra Fria, onde as piores tropelias eram justificadas pelo omnipresente comunismo. Como se relacionam, como simpatizam, estes quadros (intelectuais, pois vivem da escrita, como funcionários ou da comunicação social) com este trogloditismo intelectual? O que resta da herança filosófica liberal nestes putativos liberais, onde pára o esqueleto da democracia-cristã, diante desta trapalhada bolçada? Onde reside o pensamento ecológico, estruturante do conservadorismo (nacionalista) europeu, romântico ou deste sucessor ? Em lado nenhum, parece, pois os tais frémitos anais destes santanistas, perdão, santanettes e dos assunções, só aceleram mesmo face a este boçalismo. 

Nota: aos hipotéticos comentadores que aqui apareçam a bolçar que o "aquecimento global" não é algo científico, pois não há certezas sobre o fenómeno mas apenas previsões, proponho que se poupem ao trabalho de teclar. Eu não aceitarei os comentários. Pois para quem me venha em 2018 dizer que a ciência se resume ao que é comprovadamente certo eu respondo desde já: as aulas do ensino secundário eram más, os explicadores que os papás vos pagaram eram maus, as aulas das universidades eram más, não ganham o suficiente para comprar livros, não têm vagar para irem às "novas oportunidades" ou à Universidade Aberta ou à da Terceira Idade, não têm capacidade para aceder ao youtube e ao vimeo, que a ligação à internet em vossa casa é má, não percebem línguas estrangeiras, como o português de Portugal ou o do Brasil? Lamento. Mas não é agora, tarde e más horas, que um bloguista, ainda para mais à borla, vos vai ensinar que a ciência não é o que as vossas cabeças mui relapsas julgam.


17 comentários

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De Bea a 16.11.2018 às 08:12

Parece haver um complô das chefias contra a natureza e o mundo em geral, como se estes loucos tivessem para onde ir se ele rebenta e não haja da parte do homem a obrigação de, ao menos, preservar o que lhe foi dado. É criminoso.
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De jpt a 16.11.2018 às 14:54

É demencial
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De WW a 16.11.2018 às 08:26

" onde pára o esqueleto da democracia-cristã " ?

No bella ciao digo eu...

WW
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De Vorph Valknut a 16.11.2018 às 08:49

WW num mundo de loucos os sãos passam por malucos. Eu já começo a fingir - vou de chanatas e de robe ao Continente
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De Vorph Valknut a 16.11.2018 às 08:44

Belo texto. Apenas desejo que o governo de Bolsonaro seja um desastre, ao contrário de alguns , que afirmam que o capitão moderar-se-á no exercício do poder. É para mim inconcebível que um político ganhe umas eleições, de um país como o Brasil , tendo baseado o seu discurso na violência. Aliás o seu putatitvo sucesso poderia alimentar discursos semelhantes noutros países uma vez provado a sua eficácia triunfadora. A política entraria num"quanto pior melhor ".

PS: parece ser o ministro dos negócios estrangeiros um híbrido dos comentadores Luck e Vento, sem qualquer desprimor para os últimos, que muito respeito
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De Vorph Valknut a 16.11.2018 às 08:46

Orban também está sempre a invocar deus...razão tem o Richard Dawkins, no livro Desilusão de Deus.
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De jpt a 16.11.2018 às 14:55

À falta de homem fala-se de deus
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De Vorph Valknut a 16.11.2018 às 18:48

Veneram Deus, renegando o Homem. Amém
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De jpt a 16.11.2018 às 23:03

Oxalá
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De Anónimo a 16.11.2018 às 09:54

É dos textos com mais insultos por decímetro quadrado que tenho lido ultimamente. Ideias poucas.
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De Anónimo a 16.11.2018 às 10:59

Caro jpt, não terá sido, sobretudo, por virtude das propostas políticas económicas em torno da agro-industria que Bolsonaro ganhou as eleições, mas lá devem ter pesado alguma coisa! Não foi por falta de tempo e meios que os restantes candidatos não o expuseram às inquietações que aqui adianta!
Sobre o lançamento da infâmia sobre a agro-industria brasileira apenas dois pontos históricos!!
A agro-industria brasileira é, sem dúvida e destacada, o sector de actividade económica que detém o maior contributo para o produto brasileiro (PIB). É, simultaneamente, o maior contribuinte líquido para a balança comercial brasileira. (Os números andam aí, facilmente compulsáveis e falam por si)
Que um responsável político brasileiro promova a indústria base da economia do seu país não é, em nada, estranho. Estranho seria que alimentasse a infâmia sobre esse mesmo sector da actividade económica do brasil, à guisa de tiro no pé! Para esse papel já existia o PT!!
Todavia é necessário que o Brasil tenha a inteligência suficiente para conseguir compatibilizar a agricultura com o ambiente, evitando práticas predatórias e sobre-extractivas do meio ambiente!!
Quanto às reservas étnicas do território brasileiro. Não sou favorável à partição sub soberana do território português, mas concedo que democraticamente se possam estabelecer pertinências a regiões insulares ou de especial isolamento, mas nunca baseado em critérios étnico-compensatórios tributários de um ressentimento identitário histórico. O mesmo argumento empregaria para o Brasil.
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De Justiniano a 16.11.2018 às 12:46

Esqueci-me de assinar o comentário.
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De Sarin a 20.11.2018 às 12:08

"Critérios étnico-compensatórios tributários de um ressentimento identitário histórico"? Não será, antes, a atribuição de um pequeno espaço para que alguns povos possam manter o seu modo de vida e garantir a sobrevivência da sua cultura? Não compensação pelo passado mas possibilidade de futuro?
Nações ao lado de Estados dentro de uma República Federativa - a qual inviabiliza transposições de leituras sobre "partições sub soberanas do território".
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De Octávio dos Santos a 16.11.2018 às 11:40

«Aos hipotéticos comentadores que aqui apareçam a bolçar que o "aquecimento global" não é algo científico, pois não há certezas sobre o fenómeno mas apenas previsões, proponho que se poupem ao trabalho de teclar. Eu não aceitarei os comentários.»

Isto é dito, escrito, por alguém que se insurge contra alegados fascistas, intolerantes, reaccionários (e racistas). Pois, a projecção mental é um exercício notável, e há hipocrisias melhores do que outras... ;-)
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De João Campos a 16.11.2018 às 12:25

Excelente texto, jpt. E um grande aplauso para a nota final.
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De Anónimo a 16.11.2018 às 13:09

Aos preocupados com ambiente:

Comecem por comprar a Sanita ecológica do Bill Gates... Não precisa de água, entra merda sai adubo... Eu já comprei e aumentei o consumo do feijão.

Haja merda com fartura.

Am
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De Vento a 16.11.2018 às 13:20

Bolsonaro é o Presidente que o Brasil necessitava para gerar equilíbrios. No entanto, uma retrospectiva necessita ser feita para a importância que as coisas de Deus mereceram para as transformações no Brasil e em outras partes da América Latina.

A teologia da libertação, que não é uma novidade introduzida por Leonardo Boff, e em grande medida apadrinhada pelo Bispo brasileiro D. Hélder Câmara, serviu como contraponto às ditaduras latino-americanas. Tem como ideia base que o Pão (Jesus) partido só faz efeito quando repartido.
A reboque deste movimento, que não é só da Igreja Católica, pois contou com a participação das igrejas cristãs latino-americanas, não faltou a tradicional colagem dos partidos oposicionistas ao statu quo.

O marxismo institucional brasileiro, que ocorre após a queda da ditadura, demonstrou que não representa os sem-terra, sem-voz e sem-vez, mas sim um grupo de boca aberta no ninho esperando que a comida escorregasse até ao papo.
Não faltou, como se esperaria, que o discurso perante as massas fosse no sentido de um completo relativismo social e cultural, pensando que este seria o alimento adequado a essas forças da sociedade.
Portanto, o "ressurgimento" de Deus na vida política brasileira não é um fenómeno Bolsonaro, pois Ele já aí se encontrava.
O que é novidade é a apresentação desse mesmo Deus perante o relativismo anteriormente mencionado.
Em conclusão deste capítulo: importava que à ecologia fosse introduzida a ecologia do Ser. Ecologia esta que não se pauta por valores e princípios relativistas, mas de condições muito concretas e expressivas.

Avancemos agora para os aspectos ecológicos. Todos nós sabemos que a ciência não ofereceu nada de novo a esta matéria. Ela somente constata o óbvio, aquilo que o cidadão comum observa e não trata de modo dito científico.
Portanto a ciência, até agora, demonstrou-nos através da realização de estudos que a terra sofreu várias alterações climáticas mesmo antes de existirem desmatações e do veículo a combustão ter sido introduzido no mundo.
O que se coloca perante as questões ecológicas deve ser visto sob uma perspectiva económico-social, isto é, de desenvolvimento.
Porém esta questão económico-social pretende criar excepções a países como a China, a Índia e outros mais, através de períodos de carência por mais de 30 anos.
Período este que procura funcionar através da subsidiação do atraso no desenvolvimento de outros países para que outros também, como é o caso da Europa, se apresentem com o monopólio tecnológico e submeta essas outras potências ao seu passo no desenvolvimento do sector, pois encontra-se mais adiantada e não tem outro modelo que não este para reconverter a economia.
Para que assim aconteça nada mais nada menos que apresentar a ciência e os ditos cientistas como os peões propagandistas desta nova cultura.

Na caso brasileiro em concreto, a máxima que se apresenta traduz-se da seguinte forma: "Queremos que o Brasil negoceie com a China mas não queremos vender o Brasil à China".
Finalmente, quer os USA quer o Brasil pretendem usar do mesmo período de carência para atingir o necessário breakeven por forma a não oferecerem uma dependência do seu desenvolvimento aos restantes países, em particular à Europa.
E nesta matéria os cientistas não têm ciência alguma.

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