Bolhas?

Há dias estava sentado no café aqui do bairro, junto a bons vizinhos que ali se aprestavam a almoçar. Um deles, decano à mesa, recebeu uma mensagem telefónica, a qual leu enquanto esperava a sua meia-dose. E lamentou-se, partilhando ter sabido da morte de uma antiga amiga e colega. Ficara condoído - até porque a morte nos vem constantemente cercando, apesar das duas décadas que nos apartam. Também por isso nos proporcionou - sem a nomear - um breve resumo do rico percurso biográfico, pessoal e profissional, dessa sua amiga. Culminando num enfático mas sentido "era a mulher mais inteligente que conheci na vida".
A comida chegou. Eu, que ali apenas bebericava uma cerveja, deixei a mesa e fui fumar à esplanada, abrigando-me da implacável chuva sob o pequeno toldo disponível, pois recolhidos todos os outros devido às ventanias agora residentes. Nessa solidão puxei do telemóvel e dedilhei o Facebook. Ali encontrei algumas notas de pesar devidas à morte da nossa veterana consóror bloguista Joana Lopes, do Entre as Brumas da Memória. Provinham de vários (ex-)bloguistas, sendo significativo que proferidas por indivíduos de diferentes quadrantes, ideológicos e etários. Através dados biográficos profissionais nelas referidos foi-me evidente a coincidência. Voltei à mesa e o meu bom amigo olivalense confirmou-me, fora de Joana Lopes que ele falara.
Expliquei-lhe que não a conhecera, tivera apenas uma relação digital - típica daqueles velhos tempos da blogosfera, feita de interligações, comentários mútuos e, às vezes, de mensagens privadas -, que fora interrompida há já muitos anos. A qual se teria originado devido a então viver eu em Moçambique, onde escrevia no ma-schamba, o que decerto que lhe despertara o interesse por ser ela natural daquele país.
Também aqui o Pedro Correia lhe deixou homenagem. E o José Meireles Graça, explicitando o seu agrado quotidiano com o blog, para além das suas discordâncias ideológicas com a autora. Um interesse sedimentado, di-lo, por não gostar ele de se restringir a "bolhas". Convivenciais digo-as, essas nas quais nos recolhemos repousados, apenas entre aqueles com os quais concordamos.
Também a mim me interessara o seu blog. Por ser bastante activo, culto, opinativo. Mas ainda mais por saber eu - mesmo se então ainda não o lera - ser Joana Lopes autora de um livro homónimo ao blog ("Entre as Brumas da Memória - os Católicos Portugueses e a Ditadura"), pois a oposição católica ao Estado Novo tardio convocava a minha atenção. Por interesse geral, claro. Mas também pessoal, pois esse heterógeneo contexto abarcara não só o Graal, por onde haviam passado mulheres da minha família, para além de movimentações menos institucionais (também tantas vezes reduzidas à célebre "Capela do Rato") onde haviam participado vários pais de amigos meus. E, até mais, pelas ligações daquele catolicismo progressista às dinâmicas anticoloniais, tendo eu nesse âmbito particular interesse no historiador José Capela (pseudónimo de José Soares Martins), homem que em mim teve grande influência pessoal e intelectual.
E, tal como o Meireles Graça, também não gosto de "bolhas". Aprendi desde cedo, em casa, serem elas descabidas. O meu pai, o Camarada Pimentel foi durante décadas, e até à sua morte, arreigado militante do PCP. O seu cunhado, e meu único tio (o outro, seu irmão, morreu antes de eu nascer quando explodiu o caça que pilotava, um dos aviões recondicionados da guerra da Coreia que devastaram os nossos aviadores), foi deputado da Acção Nacional Portuguesa. Sempre se deram muito bem! Sendo o benjamim da minha geração bem percebi que as simpatias políticas dos meus três irmãos abarcavam os partidos que foram estruturantes do nosso regime. E agora vejo que as opções dos meus sobrinhos - e já alguns sobrinhos-netos - percorrem o eixo partidário actual. Também entre os meus amigos - desde a mais estreita intimidade com o eleitorado chegano até a uma íntima memória com o bloquista -, tudo me vem ocorrendo. Com alguns e algumas evito falar de política, mas isso quase independe das opções de cada um. Há tempos um vizinho, recente amigo, de pendor esquerdista, dizia-me "do que não gosto em ti é dessa tua mania de que és de direita". E tem ele razão, não se trata de ser de "direita" ou "esquerda", trata-se de ser democrata desenvolvimentista. E de não ter paciência para os ciosos de si-mesmos e das suas imbecilidades. E para as malevolências. Sendo nisso evidente que, em falando de política, se torna difícil conversar quando o interlocutor não sabe, nem quer saber, a diferença entre "igualdade" e "equidade" - casos, frequentes, em que é melhor discutir a vergonhosa ordem dada pelo Futebol Clube do Porto aos seus apanha-bolas, a de esconderem as bolas suplentes quando o seu clube estiver a ganhar...

Por tudo isto li, com prazer e atenção, o Entre as Brumas da Memória durante alguns anos. Um dia, no já tão longínquo Abril de 2011, Joana Lopes publicou (sem qualquer ressalva, assim subscrevendo o texto) uma "Carta Aberta a Otelo Saraiva de Carvalho", escrito pela investigadora do CES de Coimbra, Maria Manuela Cruzeiro. Aos críticos de Saraiva de Carvalho, a autora (e a bloguista acolhedora) chamava(m) ordinários praticantes de "batota" pois "Fazem já parte do jogo viciado da contra-revolução, que em vez de argumentos, usa o golpe baixo, o ataque pessoal, o descrédito dos homens para descrédito da obra". E sublinhava que aos executantes do 25 de Abril "Todas os defeitos se lhe podem perdoar, até porque de alguns deles a história se serviu para concretização dos seus enigmáticos planos." E a tudo isto associava o diagnóstico da situação política de então: "Este Abril que vivemos hoje [2011] é o tempo da comissão liquidatária do pouco que restava de um outro tão diferente de há 37 anos...". Ou seja, não só se equiparava a situação política de então ao regime do Estado Novo (era um tópico demagógico de então - os ditâmes impostos pela crise financeira e os partidos PSD e CDS eram constantemente ditos "fascistas"), como todos os que critica(va)m Saraiva de Carvalho eram soezes "batoteiros", adeptos da "contra-revolução", inimigos da democracia.
Ao ler o miserável texto saltei da cadeira. E lá comentei (os comentários estão no postal, confirmando que fui ríspido mas curial). Considerei ser uma atoarda demagógica comparar a situação do Estado Novo com a da democracia de XXI, em última análise constituindo uma elisão das características do chamado "fascismo", até paradoxal se oriunda de gentes que assenta(va)m muito do seu prestígio de cidadania e legitimidade intelectual na sua trajectória oposicionista ao anterior regime. E clamei contra a evidente indignidade do referido sobre Saraiva de Carvalho, apagando/escondendo um vector fundamental do seu trajecto político. Ainda por cima chamando "batoteiro" a quem se recusava a isso esquecer.
Joana Lopes respondeu-me suavemente. Depois, em mensagem privada, solicitou-me que não voltasse eu a comentar no seu blog. Anuí, claro. Nos dias seguintes deixou-me (em blog ou no meu mural de Facebook, já não recordo) dois ou três comentários simpáticos. Tive de lhe enviar uma mensagem, lembrando-lhe que o "evitamento" teria de ser recíproco. Concordou, em silêncio. Nisso fui deixando de frequentar o seu blog. Voltei lá agora. Para encontrar entre um dos seus últimos seis postais um típico exemplar de demagogia. Falsária. Daquela que se abomina nos "populares" (agora ditos "cheganos") mas que tantos respeitam se oriundos dos que surgem com património "intelectual" e "biográfico", nisso sobranceiros. Numa usual evidente altivez das gentes que se revêm como de "esquerda", daquele estrado altivo a que Cunhal chamou "o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista".
Joana Lopes, a amiga do meu querido amigo, a respeitada bloguista - e militante antifascista e mulher de letras - morreu agora, aos 84 anos. É evidente que o lamento. Espero (e acredito) que tenha tido uma vida feliz. E um passamento indolor.
Mas lembro também que viveu mais 40 anos do que os 18 assassinados pela organização terrorista comandada num regime democrático por Otelo Saraiva de Carvalho. Esse vulto que ela co-louvava, sem rebuço. Apodando de batoteiro e ordinário quem a ele se opunha, quem o criticava. Aos que se recusavam à "amnésia organizada". Essa que ela, conjuntamente a tantos outros, cultivava.
E é por isto - por eu não viver em "bolhas" - que o Entre as Brumas da Memória nunca foi o meu "blogue da semana". E é também por isso que aqui suspendo a usual burguesa contenção crítica diante da morte.

